Abro a janela e tenho o jardim como panorama. O verde está lindo. As folhas balançam na dança do vento brando. Na pitangueira, a mãe Sabiá alimenta seus filhotes no ninho, e uma borboleta de asas muito coloridas pousa na flor. Respiro fundo. Que delícia! Mas isso não dura. Nem cinco minutos depois ouço o zumbido de um mosquito pronto para o ataque. Tento capturá-lo. E nada. Ele é mais rápido. Qual a utilidade dele? O que acrescenta ao universo? Será que preciso aceitá-lo como agente do carma que me sobrou de outra encarnação? Quando finalmente consigo livrar-me dele, na palma da mão, o encanto que procurei no jardim já azedou. Arre! 

Por que os mosquitos atacam mais algumas pessoas que outras? O que há nessas vítimas que eles picam? A crença popular que atribui o fato ao “sangue doce” é bobagem, mas propriedades do sangue podem, realmente, chamar o inseto. Segundo estudiosos do assunto, ele se orienta pelo cheiro e, além do Dióxido de Carbono que o ser humano libera através da respiração, também sente o cheiro individual dele, em grande parte definido pelo grupo sanguíneo e pelo ácido láctico.

O pesquisador japonês Yohikazu Shirai publicou em 2004, no Journal of Medical Entomology, um artigo sobre experimentos que realizou com sua equipe nessa área. Em sua pesquisa, ele deixou que mosquitos pousassem nos braços de 64 pessoas que se prestaram ao papel de cobaias, mas tomou um cuidado para que o processo não fosse doloroso: amputou os ferrões dos insetos.

O trabalho da equipe de pesquisadores não foi em vão. Segundo eles, para que os mosquitos consigam sentir o cheiro do sangue que corre pelas veias é decisivo que, além do grupo sanguíneo, a pessoa seja a assim chamada “secretora”. Isso quer dizer, seus fluidos corpóreos – o suor e a saliva -, devem conter anticorpos análogos. E essa condição existe no grupo sanguíneo O. Por isso, as pessoas com este tipo de sangue atraem – duas vezes mais que as de tipo A – os mosquitos.  E aquelas que suam menos são menos atacadas.

Em resumo: o sangue tem, sim, influência quando os mosquitos escolhem seus alvos. Mas essa escolha nada tem a ver com “sangue doce”, que é sinônimo de temperamento paciencioso e tolerante. Aliás, tudo que a gente necessita para não surtar em um ambiente onde os mosquitos fazem suas rasteiras musicais à procura de um aeroporto em que possam pousar para roubar uma dose imprescindível à sua sobrevivência. 

Individualmente, a vida dos mosquitos é curta. Apenas duas semanas. Mas esse espaço é suficiente para que virem adultos e procriem. E isso acontece há trinta milhões de anos, o que significa invejável eficiência na forma como usam os sensores químicos, visuais (detectam rapidamente roupas que contrastam com o ambiente, movimentos) e de calor para identificar seus alvos a uma distância que chega a 36 metros.

E quanto à utilidade deles? Pois é, ela existe. Mas como vítimas, confirmando aquele dito “um dia é da caça; outro é do caçador”, porque fazem parte da cadeia alimentar de sapos, grilos, gafanhotos e passarinhos, inclusive. O entomologista Delsio Nadal, da Faculdade de Saúde Pública da USP, diz no site Mundo Animal que a extinção dos mosquitos silvestres implicaria risco à sobrevivência de certos peixes de água doce, que se alimentam de suas larvas. Portanto, há que respeitá-los.

Além disso, as partículas dos restos de nossa comida lhes servem de alimento na zona urbana. Quer dizer, também atuam como faxineiras da natureza. Ops! Então preciso aceitá-los para não ficar em dívida? Essa não! Até lá não vai o meu amor pelos bichos. O próximo que se aventurar no meu Lebensraum vai morrer na palma da minha mão.

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