Gosto delas. Das obras do fotógrafo suíço Christian Tagliavini, que podem ser apreciadas de muitos ângulos e me passam uma gama de impressões – de religiosidade, de mistério, de alerta e de extravagância ao mesmo tempo.  Ele as idealiza e as constrói, oferecendo ao espectador a sua própria visão dos mundos em que mergulha. O pano de fundo é a história da arte, da qual resgata movimentos como a Renascença e o Cubismo ao longo de um processo de criação longo e complexo, que começa no desenho e termina na mis em scène. Só então empunha sua câmera para fotografá-las.

Cada peça leva cerca de duas semanas para ficar pronta, contou Tavigiliani à repórter da Deutsche Welle que o entrevistou em seu atelier na Suíça, onde nasceu em 1971 e mora, embora tenha vivido parte de sua adolescência na Itália. A coleção intitulada 1503 consumiu 13 meses de absoluta dedicação. Para criá-la, o artista fez uma incursão visionária à Renascença e se inspirou em seus mestres – especialmente Agnolo di Cosimo, que é conhecido como Il Bronzino e nasceu no ano que dá título à coleção. Até o final do ano deverá concluir a coleção em que se empenha agora e que ainda não tem nome. As pessoas que posam e “vestem” as peças – “na verdade, nenhuma delas pode servir como roupa” – ele as escolhe entre anônimos que prepara para que entrem no espírito da série e assumam seus personagen, como em Aspettando Freud.

A matéria-prima de Tavigliani, que vive de sua arte há cerca de seis anos, não poderia ser mais prosaica. Inicialmente usava papelão no lugar de tecidos, mas quando observou que esse material lhe trazia dificuldades por ser rígido resolveu trocá-lo pelo papel. Isso lhe permite o domínio completo de suas obras ao longo da criação em que nada é casual. Tudo é criteriosamente planejado, ele desenha cada item, da estampa até a construção final, e nem sempre se fixa em apenas um movimento da história da arte. Na série Dame Di Cartone (Damas de Papelão em tradução literal), por exemplo, ele reúne influências de várias épocas, o que resulta em um imaginário muito chamativo.

Sempre falando em italiano, Tavigliani contou à repórter da Deutsche Welle que cada uma de suas obras é “um trabalho que faço com amor, do começo ao fim”. Ele admite até que sente mais prazer durante o processo de construção do que no resultado -as fotos que expõe. Construir sua estética a partir do zero é uma satisfação “incrível” do ponto de vista criativo e filosófico, afirma o fotógrafo suíço, que está totalmente consciente de que suas coleções mostram, cheias de uma ironia bem-humorada, a impermanência da moda ao longo das épocas.

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