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O pai era mexicano. A mãe, escocesa. Os dois certamente não imaginavam que a filha, Joan Baez, nascida em 9 de janeiro de 1941, se tornaria a voz de soprano que conclamaria os jovens contra o racismo e contra a Guerra do Vietnam na década de sessenta, nos Estados Unidos, e dali contaminasse também os jovens de outros países. E isso não demorou a acontecer.

Em 1959, Joan tinha 18 anos de idade quando, acompanhando-se ao violão, cantou no Newport-Folk Festival. Nos anos seguintes ela cantou no Woodstock e interpretou as canções de um artista tão engajado quanto ela nas causas sociais e políticas, revelando Bob Dylan, que foi seu namorado até 1965.

O tempo passou. Joan Baez, que também compõe e toca guitarra acústica com muito talento, ganhou idade. Está com 71 anos e, partir deste 31 de maio, se apresenta em várias cidades da Alemanha. Os anos que passaram acrescentaram algumas linhas a seu rosto, mas não lhe roubaram o senso crítico e o ânimo com que sempre apoiou quem se manifesta contra o que desrespeita a ética na convivência social.

Andou de braço dado com Martin Luther King contra o racismo; usou sua voz para denunciar os Estados Unidos como agressores na Guerra do Vietnam. Foi presa duas vezes, mas não perdeu a coragem. Em 2003, protestou contra a guerra que George W. Bush e seus aliados empreenderam no Iraque. E continua ativa, agora para protestar contra a discriminação sexual, contra as políticas de desmatamento e contra os regimes militares que oprimem o povo.

Seu álbum mais recente – Day After Tomorrow – foi lançado em 2008. Nesta entrevista ao jornal Zeit Online ela recorda sua juventude nos palcos e nos protestos, conta que gosta de fotografar e fala sobre suas expectativas em relação a Barack Obama e sobre como o vê agora quando está em campanha pela reeleição para a presidência dos Estados Unidos.

Zeit Online: A senhora vem à Alemanha no meio de uma crise econômica global. Em toda parte as pessoas protestam. Em Frankfurt, há poucos dias, a polícia esteve às voltas com a Occupy. No ano passado, em novembro, a senhora mesmo cantou para os manifestantes da Occupy em Nova Iorque. O que a fascina nessa manifestação?

Joan Baez: Occupy tem potencial. Depois de 40 anos os jovens estão novamente dispostos a enfrentar riscos com seu engajamento. Eles protestam, cantam, riem na cara dos policiais e são levados à prisão porque se recusam a aceitar o status quo. Só isso já é uma grande vitória. Naturalmente, o tema em si é complexo. Acredito que só fato de começar este protesto já foi uma tarefa enorme.

Zeit Online: A senhora é vista como um ícone das canções de protesto. Desde os anos sessenta é politicamente engajada e se manifestou contra o racismo, contra a Guerra do Vietnam e contra George W. Bush. Não fica cansada?

Joan Baez: Sempre fui politicamente mais engajada que a maioria dos outros músicos que conheço. Mas com isso não quero parecer melhor que ninguém. Nos anos sessenta estava sempre de um lado a outro e dediquei pouco do meu tempo a minha família. Agora tento corrigir isso. Vivo com minha mãe, que acabou de completar 99 anos de idade.

Zeit Online: Mesmo assim ainda não parou de se engajar…

Joan Baez: Dentro das minhas possibilidades. Por sorte tenho um público que realmente gosta de me ouvir. Nos concertos são sempre milhares de pessoas. Então não falo sobre política, mas todas elas sabem o que penso.

Zeit Online: As manifestações de hoje a lembram do tempo em que era jovem e participou dos protestos para levar suas convicções a mais gente?

Joan Baez: Desde aquele tempo tantas coisas mudaram. Hoje existe a internet e podemos nos organizar sentados na frente do computador.

Zeit Online: A senhora, inclusive, se comunica através do twitter e tem uma página no Facebook.

Joan Baez: Ah, quem faz tudo isso é minha assistente. Na verdade, nada disso me interessa de maneira alguma. Preciso de meu computador, principalmente, para melhor minhas fotos, porque gosto de fotografar e de fazer colagens de fotos.

Zeit Online: Acima de tudo, ainda é agora, como antes, uma artista da música. Por que a maioria de seus colegas se desliga do engajamento político? Quando a senhora começou a cantar isso era diferente.

Joan Baez: Os anos sessenta eram fora do comum. Disso não devemos nos esquecer. Não podemos ressuscitar o espírito daquele tempo. Mas isso não quer dizer que os músicos de hoje não podem compor canções de cunho político. Steve Earle é o melhor exemplo disso. É ele quem expressa suas convicções políticas de forma mais clara.

Zeit Online: Nos anos sessenta e setenta havia hinos políticos como Blowin’ in the Wind e Imagine. Por que não se faz mais esse tipo de música?

Joan Baez: Mas há, sim, músicos que têm um bom coração em termos políticos. O problema é: eles também têm talento? Não vejo hoje ninguém que seja tão brilhante quanto Bob Dylan. Até agora ninguém se igualou a ele. Ainda não foi superado em talento.

Zeit Online: Em novembro deste ano os norte-americanos elegem um novo presidente. Em 2008, a senhora apoiou Barack Obama em carta aberta, comparando-o, inclusive, a Martin Luther King. Ele cumpriu o que esperava dele?

Joan Baez: Obama tem muitas ideias, exatamente como Jimmy Carter no seu tempo. Ele mal pode esperar para entrar na Casa Branca, para mudá-la a seu gosto. É uma amarga ironia que suas mãos tenham sido atadas quando finalmente trabalhou. Se Obama não tivesse sido presidente, mas se tivesse iniciado um movimento político como Martin Luther King, talvez tido mais sucesso. Agora ele gasta as 24 horas do seu dia tentando sobreviver à ira do bloco republicano.

Zeit Online: Ele a decepcionou?

Joan Baez: Para aqueles que, como eu, estavam no começo completamanete encantados por ele, Obama é, num certo sentido, uma decepção. Em vez de, volta e meia, manter um encontro com um Prêmio Nobel  e com pessoas que não pertencem ao Establishment, ele ouve seus conselheiros.Exatamente como os presidentes anteriores faziam. Eu esperava que ele mudasse isso.Infelizmente isso não aconteceu.

Zeit Online: E se Mitt Romney vencer as eleições em novembro?

Joan Baez: Então terei que me mudar para a França (ri). Nesse caso poderia começar um tempo difícil. Muitos direitistas, como o Tea Party, não se preocupam com fatos. Também para Romney fatos são desinteressantes. Não importa quantas acusações lhes façamos sobre como mentem e tomam decisões erradas, eles não mudam seu comportamento por causa disso.

Zeit Online: A senhora está pessimista.

Joan Baez: Não faz  diferença se sou pessimista ou otimista. Não há outra escolha ou saída a não ser manter-se decente e digno.

Zeit Online:  Ainda gosta, aos 71 anos de idade, sair em turnê?

Joan Baez: Até sinto mais prazer nisso hoje do que quando era jovem. Mas para chegar a isso tive que aprender a sentir-me bem no palco e a não passar as 24 horas do dia pensando em como salvar o mundo.

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