Uma questão de fé

Noite de sábado. Chove lá fora e cá dentro estou sintonizada na RAI, a televisão pública italiana. Parei nela quando vi que na telinha rola a programação que, capitaneada pelo Vaticano, reforça a importância da família. Io non sono convinta di niente, però… Obviamente, o papa Bento XVI está presente. De corpo e alma em Milão, pouco distante da sacudida e destruída Emilia Romagnia. Ele veste branco, da cabeça aos pés. Diante dele, milhares de fiéis, vindos de todas as partes do planeta, agitam bandeiras e ouvem sua palavra muito atentamente.

E, claro, a comunidade católica do Brasil também está representada entre aqueles que usam o microfone. É um casal. Ele é médico, ela é psicoterapeuta. Em alto e bom som, dão seu recado em italiano. “In Brasile è anche molto grande il numero de persone che sofrono perchè suoi  matrimonio è finito….”. Resumindo a questão: entre as pessoas que o médico e a psicoterapeuta atendem em seus consultórios há católicos que se divorciaram e reconstruíram sua vida com outros parceiros, mas sofrem porque não podem mais receber o pão consagrado – a hóstia, que, segundo a cartilha da Igreja Romana, representa o corpo e o sangue de Deus. “Como podemos ajudar essa gente?” Esse é o conselho que os dois brasileiros pedem ao “Santo Padre”.

Devo sentir pena do papa? Não acho que seja o caso. Mas confesso que um “pobre homem” lampeja na cabeça quando ouço a pergunta do casal – brasileiro tem cada uma …- , porque, saudando uma “família exemplar” criteriosamente escolhida por quem organizou o encontro, o pontífice acaba de ressaltar a impossibilidade de o amor jurado no altar entre um homem e uma mulher ter um fim. E agora lhe jogam esse petardo no colo. Haja jogo de cintura! Ele tem. Ah se tem. Mais do que eu – che sono piena di riluttanza – imaginava. E se vale dele para remeter o problema aos párocos, pedindo que não percam de vista as pessoas em estado de sofrimento. 

É como disse. Não estou convencida de nada. Ma me piace l´italiano. Por isso deixo o controle remoto repousando e fico na RAI. Vendo. Ouvindo. Então Bento XVI me surpreende quando se dirige diretamente aos divorciados que se casaram novamente e lhes estende a mão: diz que a situação em que vivem não os exclui da Igreja e que receber a hóstia das mãos de um sacerdote não é a única forma de comungar. ”São amados, não estão de fora, são aceitos e vivem plenamente na Igreja. Eles podem se alimentar espiritualmente da Eucaristia, estando presentes à comunhão. Os divorciados que voltam a se casar podem oferecer seu sofrimento como um dom à Igreja”, afirma. A impressão que me passa é a de que, se dependesse unicamente dele, a Santa Sé abrandaria o olhar que lança sobre essa questão.

Logo ele, sempre visto como extremamente conservador? Logo ele? Segundo documentos contrabandeados para dentro das redações dos jornais há muita insatisfação – evoluindo para tramoias criminosas – nos corredores do Vaticano. Bento XVI estaria descuidando da política de Estado – entregue ao cardeal Tarcísio Bertone – para dedicar-se exaustivamente à doutrina. A pergunta é: ele deseja reafirmar o conteúdo dessa doutrina, ou acredita que precisa colocá-lo mais em sintonia com o que percebe do mundo atual? Não me parece lógica tanta dedicação se for para reafirmar o que já existe. Além disso, a outra possibilidade está mais de acordo com a imagem que ele passa no livro O Sal da Terra, em que, ainda como cardeal Ratzinger, se mostra como erudito bastante amável em longa entrevista ao jornalista alemão Peter Seewald.

Li o livro. Deixei de detestar Ratzinger. Quando foi eleito como sucessor de João Paulo II, a expectativa era a de um “mandato tampão”, inclusive porque já estava avançado em idade. O tempo correu, ele continua em cena e nesta noite chuvosa de sábado em Porto Alegre, vendo toda aquela gente ansiosa por ouvir dele uma palavra, sinto uma ponta de inveja dessa multidão – 350 mil pessoas -, porque ela crê. Por que não creio? Segundo estudo feito por cientistas, a fé é um desenho no cérebro. Em alguns esse desenho falta. Deve ser por isso que io rimango in dubbio e acho absolutamente nonsense quando o papa pede que tenham confiança na ajuda de Deus aqueles humanos que tiveram sua vida tão duramente atingida pelos tremores de terra ocorridos no norte da Itália nesta semana. A mão que me salva é também a mão que me mata?

O poder é feito disso. Muito humano. Ou como diria Nietszche, “humano, demasiado humano”. Por isso, me soam tão presunçosas e absurdas as pessoas que se apresentam como intermediárias entre o “divino” e os seres humanos que têm fé e precisam dela como bengala. São muito parecidos esses mensageiros religiosos com os políticos que vemos pelo mundo. Uns e outros prometem um céu que não existe. Aliás, só existe na esperança dos eleitores e dos crentes. Por necessidade. Ou porque têm no cérebro o desenho que predispoõe à crença nos políticos e no que pregam as religiões.

Enio Morricone cultivava a fé no amor que havia entre ele e sua companheira de mais de 55 anos. Para ela compôs Il tuo amore, que Dulce Pontes canta enquanto Bento XVI se despede dos fiéis, chamando atenção pela magreza. Reflexo dos tempos difíceis intramuros do Vaticano? Ele sabe através de cardeal amigo, segundo vazou na imprensa italiana, que lhe concedem tempo até dezembro.Mas isso também faz parte do poder, que ele quis e quer. Agora é madrugada de domingo em Porto Alegre. Ouço o silêncio na rua molhada pela chuva, que parou. Na Deutsche Welle, um público animado participa do Europe in Concert. Quem vai salvar o euro? E quem garante que a “marolinha” de Lula não será um tsunami?

Foto publicada no jornal italiano Corriere della Sera

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