Em torno da mesa

Quatro mulheres em torno da mesa. A conversa é bem animada sobre assuntos que vão da bijuteria vendida no Brique da Redenção à política que se faz no mundo. Sempre em alemão, porque uma das convidadas – a cineasta, documentarista e fotógrafa Anna Hepp – não fala português. Muito simpática, ela é uma pessoa especialmente interessada em flagrar as nuances da emoção nos seus interlocutores – o que as faz felizes, onde se sentem bem, de que forma se expressam no mundo em que vivem? – e veio ao Brasil a convite do Goethe Institut de Porto Alegre para aqui mostrar uma das facetas de sua arte na Galeria Subterrânea (Independência, 745). É a exposição A Mácula Humana, que segue aberta até a próxima sexta-feira, dia 15 de junho, incluindo sinopses dos filmes Ich möchte lieber nicht (Eu não gostaria) e Ein Tag und eine Ewigkeit (um dia e uma eternidade, foto), que ganhou o prêmio de melhor documentário no Festival Internacional de Curtas em Évora, Portugal, em 2010.

A mostra continua, mas Anna voltou a Köln, onde mora, no início de junho. A vinda para o Brasil não estava nos seus projetos. Os países asiáticos sim. Não esperava o convite para expor em Porto Alegre, cidade que a surpreendeu em um aspecto: a versatilidade do clima. A cineasta não imaginava que poderia sentir frio na América do Sul. Mas sentiu. Por outro lado, confirmou a espontaneidade que se comenta em todo mundo como sendo uma das características dos brasileiros e, bastante alertada sobre os cuidados que deveria tomar para não ser vítima de algum inimigo do alheio, achou que há exagero nesses alertas.

Aqui, além da exposição de A Mácula Humana, Anna falou sobre seu trabalho em palestra e gravou 27 depoimentos, todos em português, para um documentário que chama Velhinhos e no qualinvestiga memória, solidão, espaço e tempo. A relação inclui uma mulher que hoje vive em abrigo para idosos, mas passou boa parte de sua vida como moradora de favela. Todos foram ouvidos no ambiente com o qual se sentem identificados e que, por isso, percebem como uma espécie de projeção de sua alma, do seu sentir, da maneira como veem a vida e o mundo. As entrevistas foram acompanhadas por Miriam Minak, que trabalha no Goethe como estagiária e fala o português com fluência. Depois de concluído, o documentário será apresentado na Alemanha e, possivelmente, também em Porto Alegre.

Quando combinamos o encontro em torno da mesa, no final de um brunch oferecido pela jornalista Herta Elbern, minha primeira sugestão de cardápio era leve. Levava em conta o horário e, principalmente, o fato de Anna estar no quinto mês de gestação de seu primeiro filho, que já tem nome: Otto. Por isso, minha ideia era servir um jantar em que o prato principal fosse uma adaptação feita por minha mãe para a macarronada.

Não passou de ideia, porque perguntar não ofende e Anna me perguntou, muito educadamente, se me causaria algum problema trocar a massa por carne. Não, claro que não. Pelo contrário, já que pretendia abrir a massa no rolo- ah sim, tenho um, embora não tenha quem volta e meia faça por merecê-lo no lombo. “Que tal uma picanha?”, sugeri então. Ela concordou com um entusiasmo que me surpreendeu, porque não imaginava que já tivesse experimentado o gosto dessa especialidade tão gaúcha. “A carne que se come aqui é maravilhosa”, disse. E emendei que a picanha vai bem com um arroz sequinho. Mas … “Bitte, nein”, recusou. “Schon fast drei Wochen lang esse ich nur Reis. Ich habe Sensucht nach Kartoffel” (Há quase três semanas que só como arroz. Estou com saudade de batata).

A saudade dela me lembrou da que senti quando, no final de um curso na Alemanha, em pleno inverno e já cansada do Leberkäse, comprava banana por unidade e a vontade de comer arroz me fazia buracos na alma, que vivia de boca escancarada no meu estômago. Poderia ficar indiferente ao pedido de Anna? Não havia como. Por isso, além da picanha assada no forno, achei de bom tom preparar também uma salada de batata tipicamente alemã, que, temperada com sal, vinagre de vinho, fatias finas de cebola e caldo de carne, vai quente à mesa. E já que estava disposta a me arriscar, resolvi me aventurar um pouco mais, dessa vez para testar com Anna, Herta e Miriam o sabor do Sauerkraut preparado do jeito queaprendi com a minha mãe – Mathilda Ledur -, servindo-o frito e como recheio de pasteis que remetem ao Rolinho Primavera, da culinária chinesa. Aliás, o Sauerkraut foi inventado na China para proteger os marinheiros carentes de sol contra o escorbuto – mal causado pela falta de vitamina C – na época em que os chineses dominavam os mares, em 1400, sem bombardear quem pretendiam conquistar. Foi assim que o Ocidente ganhou também a massa e o sorvete.

Anna e Miriam aprovaram a picanha, os pasteis de chucrute e a salada. Que bom! Mas gosto é gosto e não tive a mesma sorte no momento da sobremesa, para a qual tinha escolhido algo bem brasileiro. Curiosas? Sim. Até pediram para dar uma olhada nas bolinhas brancas derivadas do aipim, mas acharam “estranho” o sabor do sagu preparado com suco de uva orgânico. O desastre só não foi completo, porque contei com a mão amiga de minha irmã, Matilde, que havia preparado e me enviado uma torta de chocolate com bolacha Maria, um doce desconhecido ou incomum na Alemanha, onde os doces produzidos a partir do cacau são verdadeiramente divinos. Por falar nisso, na geladeira ainda me sobram alguns dos que recebi de meus parentes Rose e Hans em abril, como presente de aniversário. Em torno da mesa ofereci uma das boas opções da produção brasileira. E agora, alguém aceita um café? Prefere um licor…?

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2 comentários em “Em torno da mesa

  1. Oi, Maria! Gostei muito de ver a sua foto – você está linda! E a foto da sala, onde aparece a pontinha do sofá que tantas vezes sentei nas tardes em que ia visitar você. Me bateu muita saudade daqueles tempos. E a mesa sempre bem posta, pois você sabe receber muito bem. ehehehehehe sagu não foi uma escolha feliz né? Mas a sobremesa de bolacha e chocolate devia estar dos deuses.
    Parabéns, você continua super cuidadosa com a sua casa, que é muito aconchegante.
    Abração querida Maria!!!!

    1. Olá querida amiga. Saudade? Também tenho muita saudade das nossas conversas, na minha cozinha, em volta da mesa. É verdade: gosto muito de receber meus amigos e de acarinhá-los. Volta e meia faço aquela massa que você me ensinou e, claro, sempre comento que a professora é boa. E tem bom gosto. Bah, o sagu foi uma escolha bem intencionada que não deu certo, mas o bom é que essa gente de origem alemã costuma ser muito franca. A Anna foi super educada e gentil, quando me disse que não lhe apetecia. Um abraço também para você.

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