O ser humano mente muito. Às vezes nem se dá conta disso. Outras tantas, conscientemente. Para entender o processo que leva à mentira, o psicólogo norte-americano Robert Feldman investigou, através de pesquisa, a ambivalência do comportamento humano diante da verdade, procurando resposta para três perguntas: por que a franqueza torna as pessoas antipáticas aos olhos dos outros; por que os mentirosos são especialmente bem-sucedidos – não se envergonhando de contar uma mentira – e por que Bill Clinton, protagonista de um escândalo que foi manchete nos jornais durante meses, tem hoje tanta credibilidade?

Durante o estudo, os participantes ouviram comentários a seu respeito. Quando eram negativos, preferiam não ouvi-los, conta Feldman, que é professor na Universidade de Massachussetts, nos Estados Unidos, e há décadas faz experimentos para entender o que acontece no cérebro de quem mente. Como jovem professor assistente, ele procurou sinais de mentira nas gravações do escândalo Watergate – governo Nixon -, mas nada encontrou. Depois, causou furor quando afirmou que as pessoas, quando se conhecem, mentem pelo menos três vezes nos primeiros 10 minutos da conversa.

O professor Feldman foi entrevistado pelo jornal Zeit. A primeira pergunta que o repórter lhe fez foi esta: por que mentimos tanto? “Porque isso funciona”, foi a resposta dele. E funciona, segundo diz, porque a mentira é o lado doce das comunicações, estabelecendo uma aliança entre quem mente e quem ouve a mentira. “Muitas vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, mas alguma coisa com a qual possam sentir-se bem”.

Então não estamos errados ao supor que prestamos um favor a alguém quando lhe mentimos. É isso mesmo, embora a maioria das pessoas afirme que sempre quer saber a verdade. “Na vida cotidiana somos muitas vezes mais felizes com uma mentira”, garante Feldman. Ele se toma como exemplo: não gostaria que a franqueza de um interlocutor fosse tanta que o levasse a criticar sua gravata cor de rosa, mesmo que a achasse horrível.

Mas a mentira tem perna curta. Quer dizer que um dia a verdade aparece. Não fosse assim, nunca teríamos um feedback verdadeiro sobre nós mesmos. Mas isso aconteça apenas para aquelas pessoas que desejam ver além das aparências, mesmo que a olhada para o que se esconde atrás de um elogio ou de um sorriso implique sofrimento. Segundo o professor, “quem realmente quer saber onde plantou seus pés deveria sempre procurar a verdade, ainda que ela seja dolorosa algumas vezes e, por isso, seja até melhor evitá-la”.

O filósofo Immanuel Kant certamente concordaria com isso. Sua máxima era: Nunca, nunca mentir! Seja qual for a situação ou a circunstância. Feldman tem respeito por este ideal. “Em coisas importantes deveríamos ser verdadeiros sempre”, afirma. Mas ele acrescenta que no cotidiano, na convivência com outras pessoas, nossa vida fica muito difícil quando seguimos a máxima de Kant ao pé da letra. “Quem diz a verdade nua e crua não ganha o afeto dos outros”.

E por causa disso os mentirosos são mais bem-sucedidos na vida?  Os estudos de Feldman indicam que sim. A explicação: as pessoas que têm traquejo social mentem mais, porque entendem melhor o que a situação social exige. O psicólogo observa que, ao contrário dessa gente tão habilidosa na mentira, as pessoas menos aceitas socialmente são menos sensíveis ao que os seus interlocutores querem ouvir, por isso ferem mais frequentemente seus interlocutores. “Bons mentirosos são mais simpáticos”.

Mas essas pessoas são bem-sucedidas socialmente porque mentem ou a capacidade de mentir é um efeito colateral de sua esperteza social? Feldman acredita que é possível responder que sim às duas perguntas. Ele nunca diria que o ser humano mente de forma consciente para se tornar querido e acredita que “a maioria das pessoas socialmente competente pratica a mentira sem saber que ela é uma técnica eficiente; ela apenas faz parte do repertório espontâneo delas; tão naturalmente que muitas nem se dão conta de que estão mentindo”.

Isso quer dizer que é possível mentir sem querer. Mas uma mentira não exige que a pessoa esteja consciente de que está mentindo? Não é bem assim. Segundo o psicólogo, uma pessoa mente quando diz algo que contraria a realidade que ela própria vê. “Quando uso a expressão “mentira inconsciente” refiro-me a algo que, se refletíssemos a respeito, reconheceríamos como mentira”.

O problema é que esse tipo de reflexão não é comum. Pouca gente se dedica a fazê-la. O professor comprovou isso em suas experimentações quando reuniu pessoas que não se conheciam e lhes pediu que se aproximassem umas das outras. Tudo foi devidamente filmado. “Depois, quando perguntamos como haviam se comportado, cada um deles nos disse com toda a convicção: “Não menti”. Mas quando lhes mostramos a gravação acabaram encontrando uma inverdade atrás da outra. Viram que haviam mentido, embora nem estivessem conscientes disso”.

E o interessante, acrescenta Feldman, é que não sentiram vergonha. “A maioria manifestou apenas surpresa. A reação foi: “Huch, eu realmente menti”. Mas isso não lhes causou preocupação”. Na visão do psicólogo, esse comportamento é culturalmente aceitável, o que não significa aprovação no sentido moral. Ele explica que as pessoas estão muito acostumadas a ouvir as mentiras dos outros sem que isso lhes cause estresse. “Não sei como é em outros países, mas nos Estados Unidos tivemos tantos políticos mentirosos nos últimos 30 anos que ninguém mais se espanta quando um deles é descoberto. Cresceram ouvindo mentiras“.

Bill Clinton pertence a essa turma de mentirosos e teve seu mandato questionado quando se envolveu sexualmente com uma estagiária da Casa Branca – Mônica Levinsky. Mas – que espanto! – recuperou a credibilidade. Feldman acredita que o ex-presidente conseguiu se reabilitar diante da opinião pública porque a mentira que pregou aconteceu na esfera sexual, área em que as pessoas estão mais dispostas a aceitar a mentira.Lembra que, de acordo com estatísticas, a cada segundo um homem norte-americano tem um caso extraconjugal em algum momento de sua vida, embora não o admita. Clinton teria tido problemas muito maiores se o escândalo tivesse envolvido dinheiro.

Perguntado se, na opinião dele, existe uma circunstância em que mentir é aceitável, Feldman se toma como exemplo. Sempre que sua mulher compra uma roupa nova e quer saber se fica bem nela, ele responde que sim, que ela está maravilhosa. Mesmo que não seja bem esse o caso. Essa é, segundo diz,  uma pequena mentira e ocorre em casamentos duradouros, nos quais os parceiros têm este tipo de atitude, de silenciar quando convém. Na convivência social, este silêncio tem consequências mínimas, o que se deve ao fato de o outro, além de não querer saber a verdade, não precisar dela.

E quem pensa que é fácil reconhecer um mentiroso está enganado. Apanhá-lo é difícil, afirma o professor de Psicologia. Em primeiro lugar, porque mesmo quando desconfiam de que algo não está bem no que acabam de ouvir, as pessoas não se empenham seriamente em descobrir a verdade. Além disso, não há sinais confiáveis para detectar a mentira no rosto e no gestual de um mentiroso. Feldman conta que ele próprio não aprimorou sua capacidade de reconhecer os contadores de inverdades através das pesquisas realizadas, mas ficou mais desconfiado e talvez um pouco mais cínico. “Quando, depois de uma apresentação, um ouvinte se aproxima e me diz que adorou a palestra, eu só escuto, mas em seguida peço de alguém, que conheço bem, uma crítica construtiva”.

Feldman ainda não encontrou todas as respostas sobre a mentira. Mas está convencido de que chegará o dia em que saberemos o que acontece no cérebro do Pinóquio que virou gente. As pesquisas levarão a isso. Em algum momento, o scanner cerebral identificará os processos psicológicos envolvidos nesse comportamento. Até agora, apesar das grandes descobertas que já feitas, os pesquisadores só perambularam pelos caminhos cerebrais.

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