Foi um “chove, mas não molha”. Quem nesta segunda-feira aguardava por algo impactante na estreia do programa Encontro com Fátima Bernardes, na TV Globo, esperou em vão. Não vou mentir aqui e dizer que minha expectativa era muito grande, mas confesso que me espantou a mornice dessa primeira edição, que não refletiu o longo caminho já percorrido pela jornalista.

Então era esse o sonho dela? Foi para fazer o mesmo já gasto remelexo em cima de igualmente velhos e gastos assuntos que ela quis sair da bancada do Jornal Nacional? É pouco. Claro, sempre é possível contrapor a isso que o “sem sal” é a estratégia escolhida e necessária em função do horário e de seu público – presumidamente donas de casa em sua maioria. Para mim, se for esse o caso, a produção do programa está subestimando uma oportunidade preciosa de ajudar essas mulheres, reféns de tarefas que, além de se tornarem mecânicas pela repetição, confiscam sistematicamente o tempo que também elas deveriam ter para se informar sobre o que acontece no planeta e, assim, melhorar o próprio desempenho como educadoras.

Afinal, o mundo mudou muito ao longo dos últimos 70 anos para cá, mas o cuidado com o filho continua sendo uma responsabilidade solitária da mãe, salvo raras exceções. Um exemplo disso? Em busca de eleitores, o PPS do Rio Grande do Sul está na televisão defendendo a criação da Bolsa Creche, “para que as mães possam trabalhar tranquilas”. E os pais? Ninguém se lembra deles nessa hora. Em muitos casos, pretende-se justificar essa exclusão usando como argumento o grande número de mulheres que são chefes de família (solteiras, abandonadas, divorciadas), mas o discurso não costuma ser diferente quando se dirige à casada que está no mercado de trabalho, até por necessidade, porque o ganho do parceiro não é suficiente para manter a casa. Então o pai não precisa saber – ou não quer – onde seu filho come e brinca durante o dia?

E aqui abro um parêntesis sobre um aspecto que o programa poderia tocar de forma mais incisiva: a não ser em caso de estupro e de anencefalia não acho que o aborto provocado seja aceitável, porque existem recursos para evitar a gravidez, mas não me passa despercebido que a mídia e a sociedade como um todo tendem a não responsabilizar os homens, que, no entanto, acatam como legisladores e como juízes quando a questão está em pauta. Sobre a mulher que abandona um filho já ouvi termos como “essa vagabunda” (Alexandre Mota, na Record). Sobre a mulher que aborta se diz que é uma assassina e que merece cadeia. Em contrapartida, a imagem do homem que se recusa a reconhecer a paternidade de um filho em gestação e rejeita aquele que já nasceu – Pelé é um exemplo disso – não sofre qualquer tipo de arranhão. Mas não é essa rejeição também uma forma de assassinato?

Além disso, até entendo como lógico que se faça a contagem da população pelo número de filhos que uma mulher coloca no mundo, mas não vejo lógica em quem culpa apenas as mães de vários filhos pelo crescimento populacional com fome nas favelas. Elas são vistas como relaxadas. Por que não tomam a pílula contraceptiva? Esta é a pergunta/acusação. E por que não se cobra dos parceiros delas o uso da camisinha? É uma questão de lógica: além de impedir a gravidez, esse cuidado evita a transmissão de doenças venéreas a que elas estão sujeitas porque estão longe de ser a única terra em que eles semeiam.

Quero crer que, depois dessa estreia morna, Fátima Bernardes colocará um tempero, um sal, nas próximas edições. Alguém vai dizer que não adianta, porque os homens não assistem ao programa. Está certo, mas as mulheres estão de olhos e ouvidos atentos. E acredito que qualquer mudança que se queira tem que começar por elas. Se Fátima não se empenhar nisso estará desperdiçando a força que o fato de estar na emissora mais assistida do País lhe empresta. Espero mais dela do que mostrou na estreia. Espero que a informalidade com que está querendo marcar seu desempenho não signifique endosso à banalização. Espero que faça uso responsável do potencial de influência da Rede Globo, aliás, sobejamente reconhecido pelos patrocinadores. Gastariam seu dinheiro em anúncios se não acreditassem no poder de convencimento da imagem exibida na televisão? Claro que não. Nenhum deles é bobo.

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