O “chove, mas não molha” continuou ao longo de toda a semana no Encontro com Fátima Bernardes. Vejo essa indefinição como resultado de um erro básico, que é a tentativa de colocar um pé 39 em um sapato 35 ou São Paulo em Porto Alegre. Não cabe. Vou mais longe: até acredito que a própria Fátima já se deu conta do desacerto e me parece que tenta atenuá-lo quando se revela, inclusive, telespectadora fiel da novela Avenida Brasil. Aliás, segundo diz, até mesmo William Bonner está ligado nas proezas de Carminha e companhia. Sério?

Pois é… Na bancada do Jornal Nacional, que ela ocupou praticamente todas as noites durante mais de dez anos, as novelas são solenemente ignoradas, como se os apresentadores acreditassem não haver interesse por esse tipo de programa em quem consome notícias. Claro, ali eles estão cumprindo um papel e isso não significa que, além dele, em sua vida particular, não possam ter interesse pelos enredos de autores como Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e outros. Mas a função empresta-lhes uma espécie de austeridade que não harmoniza com chamadas como a que Fátima fez para um dos seus encontros matinais, destacando assuntos como “as unhas da mulherada”. Pelo menos para mim, soou um bocado estranho.

Em sã consciência, ela e sua produção acreditaram que o público do JN a seguiria no horário da manhã? A audiência despencando – de 10 para 5 – prova o contrário. O fato é que a grande maioria dos telespectadores do Jornal Nacional e de outros do gênero está no seu local de trabalho, em alguma empresa, quando o programa vai ao ar. Há exceções, evidentemente. Mas essas são protagonizadas por pessoas que trabalham em casa, online, pesquisando, escrevendo, estudando.  E há aquelas que – mesmo interessadas no que acontece no mundo – estão em casa para limpar, cozinhar, lavar e cuidar dos filhos que não querem colocar em creche ou para os quais não encontraram creche. Entre uma tarefa e outra, essas mulheres dão uma olhada nas crianças ligadas na programação infantil que hoje, na tevê aberta, só tem espaço no SBT, batendo a Record e a TV Globo em audiência. Nem a presença de Ronaldo na edição de sexta-feira evitou isso.

Dentro da TV Globo, segundo comentários, já se fala que algumas correções devem ser feitas. Quais? Essa é a questão. Para telespectadoras do meu perfil, a Fátima Bernardes que repisa temas sem aprofundar a abordagem – ou trata de temas que pertencem ao universo das banalidades – é intragável. Dela espero que não contradiga a credibilidade que ganhou como apresentadora do Jornal Nacional, ainda que este nem sempre seja visto como produto absolutamente confiável e transparente na informação que leva aos telespectadores.

Neste sábado, o programa entrou na minha troca de ideias com Maria de Fátima Pereira de Almeida, que vive em Londres. Pelo telefone, minha amiga e ex-colega na Faculdade de Comunicação, me contou que viu parte de duas edições. Um detalhe: na capital inglesa, o Encontro com Fátima Bernardes é exibido à tarde, horário em que, se apresentado no Brasil, ele poderia ter um feito interessante: combater monstruosidades como a que Sônia Abraão protagoniza na Rede TV. Mas a Rede Globo mexeria na programação da tarde, tiraria do seu horário o Vale a Pena ver de Novo, por exemplo, para dar espaço a um programa que ainda não encontrou sua personalidade? Provavelmente não. Por isso, é de supor que Fátima Bernardes terá que sair do “chove, mas não molha” nessa arapuca que é o horário em que está. Será que ela, para tirar o SBT da liderança, se sairia bem em um programa para crianças?

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