Bolinho de chuva

Cebola, tomate, meio quilo de carne moída e leite. Por hoje é isso. Já posso tomar o rumo de casa nessa tarde penumbrosa de Porto Alegre. Mas a queixa bem humorada de um homem chama a minha atenção. E lá vem ele, avançando entre os produtos expostos na quitanda. Traz um pastel na mão.

– Dia de chuva é pra gente estar na casa da mãe. Ai que vontade de estar lá, com ela, diz. Conta que se estivesse, com certeza poderia dormir até durante a tarde inteira e só levantaria da cama quando ela entrasse no quarto para lhe fazer um convite irrecusável.

– Fiz bolinhos de chuva, filho. E também coloquei na mesa aquele pãozinho que você gosta de comer com geleia de laranja… Ai que saudade da minha mãe!!!

Quando se dá conta do interesse que sua queixa despertou em quem está à sua volta ele se anima mais um pouco e diz que ser marido não é lá muito bom em dia de chuva. É melhor ser filho.

Pois é…Ele é casado e, em casa, a prioridade da mulher é o filho de 21 anos, que ela mima com todos aqueles cuidados de mãe que o homem conhece tão bem e dos quais sente uma saudade que lhe dói no peito nos dias de chuva. Se o rival não fosse o filho sentiria raiva dele e até tentaria tirá-lo de cena. Mas é “nosso baby”, diz. Ama esse garoto “bonito” e me pede que dê uma olhada na foto dele, que leva no telefone celular.

Männer, uomini, homens… Quando o queixoso alegre da quitanda finalmente me dá uma chance de fazer algum comentário, pergunto se, na opinião dele, a boa mãe também é a causa da tristeza do filho em dia de chuva. Ele responde que sim. Interessante. Não é? Até o amor materno tem seu lado negativo, dependendo do momento e das circunstâncias. Penso que acabo de descobrir mais uma culpa jogada sobre os ombros femininos.

Mas digo que nas águas em que a sociedade navega essa tristeza será privilégio de um número bem reduzido de homens no futuro, a menos que haja uma correção de rota e as mulheres voltem a se ocupar apenas das funções culturalmente atribuídas a elas no lar e sempre subestimadas, como se fossem uma desculpa para viverem na dependência dos homens. Aliás, essa foi uma das razões que as mobilizaram a buscar o reconhecimento de seus neurônios fora de casa, mas não foi a única, porque o acesso delas ao mercado de trabalho favoreceu os homens, aliviando-os do peso de serem os únicos provedores da família.

Männer, uomini, homens… O que querem? Tudo. Afinal, para que servem os músculos e o tal pomo de Adão? Em dia de chuva querem a mãe. Nos outros desdenham do romantismo feminino, mas fazem sucesso compondo versos que falam de amor. Reclamam que as mulheres falam muito e falam demais sobre quase todos os assuntos – principalmente política e futebol – nas emissoras de rádio e nos programas de televisão. São verborrágicos. Sempre entre eles. Claro, também gostam da voz feminina. Principalmente quando ela anuncia: “Fiz bolinho de chuva, filho. Também coloquei na mesa aquele pão que você gosta de comer com geleia de laranja…”. Mas não posso condená-los por isso. Afinal, só não faço esse convite hoje, porque meu filho está longe. Vive onde as chuvas são rápidas e os dias, ensolarados.

Minha receita preferida de bolinho de chuva

1 ovo;

meia xícara(chá) de açúcar;

meia xícara(chá)de leite;

1 pitada de sal;

1 colher (chá)de fermento em pó;

1 colher(sopa)de óleo de sua preferência;

1 xícara e meia(chá) de farinha de trigo;

canela em pó e açúcar para polvilhar.

MODO DE PREPARO: coloque o ovo, o açúcar, o leite e o sal em um recipiente. Misture sempre mexendo e acrescente o óleo (minha preferência é o de coco ou de girassol); em seguida, coloque a farinha de trigo, de preferência peneirada. Feito isso, pingue colheradas da massa em óleo bem quente. Para finalizar, dê um banho de açúcar com canela nos bolinhos.

 

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