Depois de ver a primeira edição do programa Na Moral – aliás, o nome rima com Bial – cheguei a me prometer que não veria a próxima. Afinal, o que tinha sido aquilo? A melhor definição que me ocorreu naquele momento foi esta: a Rede Globo havia colocado no ar a metáfora de uma ejaculação precoce. Direto demais quando dito em português? Bem, pode ser em latim – ejaculatio praecox – o que também é uma forma de mostrar que este descontrole, decorrente da ansiedade, já era conhecido pelos conquistadores romanos.

Pedro Bial sofreu desse mal ao longo de todo o programa, que começou propondo reflexão sobre três assuntos. Entre eles, aquele que, em minha opinião como telespectadora e como jornalista, deveria ter sido pauta única da edição: o assédio moral. Mas os produtores que trabalham para a TV Globo têm desde sempre essa mania – que muitas vezes beira um alucinante nonsense – de imprimir às matérias, às entrevistas e aos programas um ritmo que os deixa rasos, sem nada de profundidade. São mestres na vinheta. E foi exatamente assim que Bial apresentou o programa, como se estivesse em um parque de diversões. Claro, não queria brincar sozinho. Por isso, pediu a companhia de alguns convidados, mas – que lástima! – não permitiu que também se divertissem. Pelo contrário: cassou a palavra deles sistematicamente, sem dó e sem piedade. Quer dizer: ficou o tempo todo no escorregador, em solitário e autocentrado prazer.

Não fosse essa ejaculação precoce uma metáfora do fantasma que atormenta muitos homens mundo afora, Bial deveria ter procurado apoio no consultório de algum médico. Em todo caso, recebeu ajuda. De outro tipo. Quem lhe mostrou que estava indo no ritmo errado foram dois convidados da segunda edição. Também sem dó e sem piedade. Pedro Cardoso era um deles. Embora tenha verdadeiro horror aos fotógrafos que perseguem celebridades – definiu o trabalho deles como “medíocre” -, ele corrigiu o desempenho do apresentador quando ordenou: “Deixa que ele fale”. Ele era o paparazzo Felipe Panfili, dono da AGNews, que desferiu a segunda cutucada em Bial. Acusado de invadir a privacidade das pessoas públicas, o que, segundo Pedro Cardoso, acontece como resposta à demanda do “capitalista”, o fotógrafo abriu o jogo: seus maiores clientes são as publicações das Organizações Globo. Ô mico!!

Pelo jeito, o desastre foi levado em conta nos bastidores, onde se resolveu mudar o desenho do bordado. Cheguei a essa conclusão na quinta-feira, enquanto acompanhava a terceira edição de Na Moral. Dessa vez com apenas um assunto: a relação homoafetiva e seus direitos. No centro da abordagem estava o casamento entre gays – de Simone e Alice. Além delas, o programa contou com a participação de um casal formado por dois homens e pelo secretário da Diversidade Sexual do Rio de Janeiro, Carlos Tufvesson, que Bial provocou dessa maneira: “Eu queria só lembrar Carlos que, às vezes, a militância gay se comporta como se o mundo fosse gay. O mundo não é gay. Nós temos aí muita gente que ainda não entende isso. A maioria silenciosa ainda é maioria. Os gays são uma minoria barulhenta, mas a maioria silenciosa ainda é maioria e é silenciosa”. Como resposta, ouviu que “ninguém quer direitos especiais (…) eu tenho os mesmos deveres e não tenho os mesmos direitos que você e nisso nossa democracia fica em cheque”.

Tufvesson está absolutamente correto. Mas Bial, também. Aliás, essa é uma condição decisiva para que a humanidade tenha futuro, pois, levando em conta que a gestação completa de um ser humano ainda não é possível em laboratório, a preponderância da heterossexualidade continua sendo uma necessidade. Especialmente quando se sabe que os índices de natalidade estão baixando drasticamente em algumas regiões do planeta, em grande parte porque a mulher está em número maior nas universidades e quer compartilhar no mercado de trabalho o que aprende nas salas de aula. Nesse contexto, embora a maternidade e a paternidade sejam viáveis através do aluguel de útero e da doação de esperma, o processo natural de reprodução, em que o homem se sente atraído pela mulher, e vice-versa, desempenha um papel ainda prevalente, inclusive porque seu custo financeiro é bem menor.

Afora isso, o casamento realizado no programa me deixou com uma pergunta: se era uma união entre duas mulheres, por que uma delas se vestiu de noiva e a outra, como noivo? Diante da cena conclui que, sim, esse era um casamento entre duas mulheres, aparentemente, mas uma se reconhecia como mulher enamorada de outra que se reconhecia como homem e aceito como tal. Incoerente? Não sei. De resto, é como disse Glória Pires: independentemente da opção sexual, cada um de nós tem direito à felicidade e a lutar por ela.

Quanto a Bial em Na Moral, ele deveria controlar a tendência de ir demasiado rápido ao pote. Precisa controlar seu ego, que escapou da moldura como apresentador do Big Brother Brasil e corre o risco de se afirmar como estraga-prazer nesse festival de reciclagens em que a emissora está se especializando. Que feio, Bial!!

Anúncios