Manhã de quinta-feira. Junho de 2009. Em Porto Alegre, o dia começou indeciso entre a chuva e o sol. O ar pesa, por causa da umidade. Meu ânimo está em trovoadas enquanto me preparo para enfrentar mais uma jornada na redação do jornal. Troco o sapato de salto baixo pela bota de salto alto. Há um propósito nisso: quero mostrar a Michelle, estagiária na Editoria de Cultura – está com formatura marcada para julho -, que não deve desanimar diante da decisão que os ministros do Supremo tomaram no dia anterior. Por oito votos contra um, este do ministro Marco Aurélio de Mello, com a solenidade que imprimem a seus atos, eles acabaram com a exigência do diploma no exercício do jornalismo, baseados em argumentação que me soou pobre, contaminada pelo preconceito e rastejante em criatividade.

Um exemplo? O presidente do Supremo, Gilmar Mendes, que nos colocou na cozinha, onde, aliás, gosto muito de conversar e tenho boas ideias. Mas ele nada disse como novidade quando comparou a construção de um texto jornalístico ao preparo de um prato. Presumo que ouviu isso de alguém, pois revela certa intimidade com o cotidiano da profissão. O que afirmou se ouve já no curso de jornalismo e depois, nas redações, onde se comemoram as matérias mais bem construídas. São aquelas para as quais o autor encontrou os temperos certos e soube misturá-los na medida adequada, para que não sejam indigestos ou para que sejam indigestos quando isso é necessário. Portanto, um bom jornalista tem algo de artista. Foi isso que o ministro quis enfatizar? Simpático. Mas não reconheço essa qualidade nas falas dele e da maioria de seus colegas. Além disso, existe uma questão sobre a qual não ponderou: a criação do texto jornalístico é feita na observância de regras, que, exemplificando mais uma vez, não permitem, entre outras coisas, o uso da pontuação para manipular conteúdos, recurso largamente usado por quem persegue brechas na lei quando defende causas e envolvidos.

Afora isso, é absurda a alegação de que o diploma não é necessário, porque jornalismo não é ciência. É a tecla em que batem. Mas não faz música para os meus ouvidos, porque é exatamente isso – ciência como a entendem os ministros – que não se pode pretender de um ofício que parte da pergunta para transformar a resposta em texto que os leitores consigam entender. Sem isso não há informação. O fim da exigência do diploma elimina essa intermediação e coloca em cena os que relatam seus conhecimentos em direitês, economês e mediquês. Perfeito? Não é. E não é, porque abre espaço à falta de pluralidade e a quem não está disposto ao exercício da humildade – a tônica do bom jornalismo -, pois acredita que não precisa ouvir os outros. Em nome da ciência? Mas alguém me diga, por favor, onde mora essa dama, cujos representantes condenam o consumo do ovo num dia e o recomendam no seguinte.

O que sobra dessa decisão do Supremo é contraditório. Se o diploma tinha um vício de origem – a ditadura – os ministros devem agora, por coerência, fechar a Usina de Itaipu e o Congresso, que abriga remanescentes daqueles tempos. No mais, foram cruéis. Usaram a ferramenta essencial ao jornalista para matar os sonhos dos formandos e acabar com a reserva de mercado que concedem a outros profissionais. Os advogados, por exemplo. Mas pode ser um tiro no próprio pé, o que só vai doer quando forem alvos de um desses donos da verdade que não perguntam.

Anúncios