Antes de deixar o Jornal do Comércio, onde fui editora de Cultura durante quase quinze anos, publiquei comentário sobre uma ameaça que volta e meia ressurge: a tentativa que se faz a partir de alguns setores da sociedade com a finalidade de abolir a exigência do diploma para quem trabalha como jornalista. O assunto está novamente em pauta. O que eu disse em 2009 continua valendo. E agora espero que o voto favorável à obrigatoriedade recebido no Senado – 7 de agosto de 2012 – se confirme na Câmara dos Deputados e que essa questão seja resolvida de uma vez por todas. 

Poderia ser apenas engraçado. Mas também é uma chateação, e das grandes, a tentativa que volta e meia se faz no País para acabar com a exigência do diploma na atividade jornalística. Mais do que isso, também é uma admissão do poder da informação, do qual os partidários da ideia têm o medo que o diabo tem da cruz.

Toda vez que o assunto aparece nos jornais, comparo. E, porque hoje ele está novamente atazanando minha paciência, vou contar aqui algo bem pessoal para explicar como me sinto diante dele: quando quis o divórcio – 1998 ou foi em 2000? – já não havia o que dividir com quem fez parte do meu passado, o pai de meu filho. Mesmo assim, a Justiça não me liberou da contratação de um advogado, a quem paguei pelos serviços prestados. Tudo bem. Essa era a regra. Mais recentemente, foi decidido que o descasamento pode ser feito em cartório. E a figura do advogado diplomado em alguma universidade e aprovado em exame da OAB? Pois é… Ele não saiu de cena. Sua participação ainda é exigida no encaminhamento da papelada. Consigo entender: é defesa de território.

Mas por que, quando se trata dos jornalistas, isso não deve valer? O interessante é que até mesmo no ninho da categoria há discordâncias. Mino Carta defende a abolição do diploma, argumentando que “o jornalismo não é uma ciência”. É, “quando muito, uma arte”. Se o sujeito tem talento, pode fazer nome. Caso dele. É de outra geração, mas prato cheio para os que agora defendem a não exigência do diploma. Apoiam-se nele. Também em causa própria, obviamente.

Agora, se Mino Carta tem razão, não seria o caso de também questionarmos a exigência de diploma no exercício de outras profissões, entre elas a advocacia? Se o sujeito tem talento, se tem memória e sabe consultar um código penal e interpretar a lei, então está feito. Segundo me consta, neste terreno estamos, quase sempre, muito mais próximos da arte de colocar a vírgula e o ponto de acordo com a conveniência do momento do que da ciência. Aliás, indo por este raciocínio, também posso sonhar com um salário de juiz. Como o da paulista Carla Abrantkoski Rister. Em 2001, ela resolveu abolir o diploma para os jornalistas – exigido a partir do Decreto-lei 972/69. Na interpretação dela, a exigência fere a Constituição de 1988, que ampliou a liberdade de informação confiscada pela ditadura militar (1964 a 1985) através do tal decreto.

A decisão de Rister foi revogada em 2005. Mas seu conteúdo continua em uso pelos que, embora defendam a liberdade de informação, querem cassá-la quando o jornalista afasta a cortina para ver o que acontece nos bastidores. Referem-se a nós como “bando de românticos”. Têm razão. A maioria de nós é muito romântica. No melhor sentido. Aquele que nos retém na redação além da hora porque estamos em dúvida sobre um detalhe da informação. Por aí vai. É por isso que as caminhadas da categoria em defesa de seus interesses não costumam ser muito numerosas. Estamos trabalhando. Entrevistando, redigindo, pesquisando, traduzindo do inglês, do espanhol, do italiano, do francês, do alemão.

Se aqueles que pretendem abolir o diploma soubessem pensar, se usassem a cabeça para pensar chegariam a uma interessante conclusão: esse romantismo, que prioriza a imparcialidade até onde ela é possível dentro da condição humana, é o que sustenta a credibilidade dos veículos de comunicação. No momento em que abrirem a porteira para dar passagem aos sem-diploma, estarão correndo o risco de acolher quem chega com a incumbência de defender interesses específicos de um e de outro político poderoso – aquele que diante de uma crítica pede a cabeça do jornalista -, de um e de outro líder de categoria ou empresário associado à corrupção. Então poderão dar adeus à credibilidade que o leitor busca quando quer se informar.

Não é que o diploma nos torne santos, mas buscá-lo ensina e ele ainda é uma salvaguarda da boa informação. Ao contrário do que foi declarado pelo ministro Gilmar Mendes quando justificou seu voto, a informação, quando incorreta e manipulada, também pode acabar com a vida de uma pessoa. Pode ser tão nociva quanto o erro médico ou o cálculo impreciso de um engenheiro para a estrutura de um prédio. E, como no caso dos advogados, funciona também como reserva de mercado. Por que não?

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