Sobreviveu aos nazistas, que usaram suas instalações e equipamentos na década de 1930, e também aos comunistas, depois da Segunda Guerra Mundial. O Studio Babelsberg é “lendário”. Fundado em 1912, na época do cinema mudo, ele ocupa uma área de 25 mil metros quadrados em Potsdam, na periferia de Berlim, a capital da Alemanha, e, entre suas paredes, muitas histórias já foram construídas para as telas de cinema.

Babelsberg  é o mais antigo do mundo entre os estúdios que operam em grande escala e nele foram rodados dois clássicos que têm Marlene Dietrich como protagonista: O Anjo Azul (1930), de Josep Steinberg, e Metropolis, de Fritz Lang. Rodado em 1927, este filme é pioneiro da ficção científica. Além disso, foi neste estúdio que o “mestre do suspense”, Alfred Hitchcock, estreou na sétima arte, mas como assistente de direção.  

Na capital alemã, o centenário do Studio Babelsberg foi comemorado em fevereiro, dentro da Berlinale – Festival de Cinema de Berlim -, reunindo nomes importantes da produção cinematográfica de Hollywood e da Europa. Entre eles, Roman Polansky, Tarantino e Tom Hanks. Aliás, Hanks protagonizou no estúdio o final de Cloud Atlas, a produção mais cara rodada no local até hoje – orçamento de US$ 76 milhões. O filme, realização dos irmãos Andy e Lana Wachowski e do cineasta alemão Tom Tykwer, deve chegar às salas de cinema do Brasil ainda em 2012. Nos Estados Unidos ele estreia em outubro.

Em Porto Alegre os 100 anos do Studio Babelsberg ganham um ciclo de homenagens a partir deste sábado, até 2 de setembro, em três locais e sempre a partir das 19h: Cine Bancários (Sindicato dos Bancários), Cine Santander (Santander Cultural) e Sala Eduardo Hirtz (Casa de Cultura Mário Quintana). Ao todo serão exibidas 18 obras, abrangendo as três principais fases do estúdio: a UFA, que compreende a inauguração até o final dos anos 1940; a DEFA, que vai do início da década de 1950 até o final da década de 1990; e a Studio Babelsberg e Babelsberg Independents, do início da década de 1990 até hoje. Ingressos: R$ 5,00.

Entre os filmes que serão mostrados dois serão seguidos por debates. Um deles é Os Assassinos Estão Entre Nós (25 de agosto, 19h, Cine Santander). O palestrante convidado é Michael Korfmann, que é mestre em Literatura Alemã e Americanística (1984, FU Berlim – Alemanha); tem doutorado em Literatura Comparada (2002, IL – UFRGS); e fez Pós-Doutorado na Rheinische Friedrich Wilhelms Universität em Bonn, Alemanha (2005-2006). Ele vai falar sobre o filme e sobre a fase DEFA do estúdio.

Asfalto é o nome do outro filme. Ele terá apresentação no dia 1 de setembro, na Sala Eduardo Hirtz, às 19h. Os comentários serão feitos por Flaviano Isolan, formado em História pela Ufrgs, mestre em História Comparada pela Ufrj e doutor em História Contemporânea pela Technische Universität – Berlin. Ele também abordará a recepção que os filmes alemães da década de 1930 no Brasil.

A Mostra Babelsberg  é realização da Fantaspoa Produções e Goethe-Institut, com co-realização da Mozi Produções e da ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do RS). Tem apoio de BD Divulgação, Cinemateca Paulo Amorim, DEFA-Stiftung; Digital Art; E o Vídeo Levou, IECINE – Instituto Estadual de Cinema; Prana Filmes; Santander Cultural; e Sindicato dos Bancários.

Os caminhos do cinema alemão

Andrew Pulver, editor de cinema do The Guardian, diz sobre o cinema produzido na Alemanha: “Da invenção dos filmes de terror influenciados pela República de Weimar ao recente reexame da Segunda Guerra Mundial, o cinema alemão tem uma história criativa incrível”. Segundo ele, depois da guerra com que Hitler queria estabelecer o III Reich, a atmosfera liberal da república de Weimar desencadeou uma explosão em todas as disciplinas criativas, o que se refletiu no cinema. “Os cineastas responderam às mudanças apropriando-se de técnicas do expressionismo em pinturas e no teatro, incorporando-as em histórias que misturavam a loucura e o terror – assim, inventando o que se transformaria praticamente no chamado filme de terror. Através de distorções, direção de arte, técnicas de câmera e camadas de sonhos e visões, O Cabinete do Dr.Caligari (1920 e um dos títulos do ciclo Babelsberg) é geralmente conhecido por ser um marco internacional do cinema. Dois anos depois, outro filme igualmente inovador foi lançado, Nosferatu – adaptação não autorizada do romance Drácula, de Bram Stoker”.

O crítico inglês lembra que o período nazista provocou uma seca na produção cinematográfica da Alemanha. É que, quando Hitler assumiu o poder, em 1933, os cineastas alemães mais importantes abandonaram o país, inclusive Ernst Lubitsch, Michael Curtiz e Douglas Sirk. Apenas Leni Riefenstahl ficou e, trabalhando para os nazistas, elaborou vários documentários, um dos quais é Triunfo da Vontade. No pós-guerra, o cinema foi ganhando vida nova na Alemanha ocupada por russos, que dividiram Berlim construindo um muro, franceses e norte-americanos. Alguns filmes apareceram. Entre eles, The Bridge (1959), de Bernhard Wicki, que foi indicado ao Oscar.

Ainda segundo o editor de The Guardian, “o colapso do comunismo e o final da Guerra Fria trouxeram um período de reflexão e reorientação – e talvez uma crise de confiança na forma de fazer cinema alemão. O impasse foi quebrado em 2004, por novas análises populistas da guerra e de suas consequências”. Ele acrescenta que “apesar de ter sido negado diversas vezes, o filme de Oliver Hirschbiegel, A Queda, ainda pode ser considerado uma representação dos últimos dias de Hitler, enquanto A vida dos outros olhou fundo os documentos omitidos pelo sistema de espionagem do estado, o GDR. Mas o melhor filme, indiscutivelmente, foi lançado apenas há dois anos pelo diretor austríaco Michael Haneke, o A Fita Branca, que diagnosticou brilhantemente as origens do nazismo através do estudo de uma pequena vila alemã que vivia o período que antecedeu a primeira guerra”.

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