Liberdade sem limite é ilusão

Olhei pela janela. E o que vi? Em cima da calçada, um catador de lixo, desses que perambulam pela cidade, estava avaliando o pano que acabara de tirar do container colocado ali pela prefeitura para receber apenas resíduos orgânicos. Quem teria descartado ali aquilo que me pareceu ser uma cortina de banheiro? Levei o assunto à próxima reunião de condomínio e ninguém assumiu o feito. Deveria ser obra de algum dos edifícios vizinhos.  Ouvi isso, reafirmei que há equipamento específico no condomínio para a coleta de material reciclável e fiquei quieta, remoendo minha renovada decepção com o ser humano, que espera do outro o cuidado que ele próprio não tem pelo ar que respira, pela água que toma, pelo parque em que seus filhos brincam e pela terra que cultiva. Quando o outro também falha, então espera que o Estado resolva o problema, mas protesta e rufa tambores contra qualquer medida destinada a isso.

Há quem diga que a Rio + 20, esse megaencontro planetário realizado no Brasil no primeiro semestre de 2012, “vai ficar na história como ponto de partida para futuras negociações” entre os países realmente preocupados com o desenvolvimento sustentável. É pouco para quem esperava um avanço, algo mais definitivo. Este é o caso das ONGs, que definem o resultado das conversações – um documento de 49 páginas – como pífio. Queriam o comprometimento das nações representadas com propostas concretas e de execução imediata, mas o que testemunharam é uma habilidade que os poderosos podem usar quando as soluções contrariam seus interesses: empurrá-las com a barriga, para mais adiante.

A delegação dos Estados Unidos, segundo comentários, atuou mais uma vez na contramão. Obama não veio e Hilary Clinton, a secretária de Estado, entrou no salão quando as luzes já estavam sendo apagadas. Mesmo assim, postou-se ao microfone com a empáfia característica dos que se consideram o pêndulo pelo qual o movimento do planeta deve se orientar, elogiou o Brasil como organizador e anunciou a doação de 20 milhões de dólares para a África. Um valor também pífio se levarmos em conta que equivale a apenas 20 por cento do que foi gasto para que nada desafinasse nessa reunião de autoridades. Mas quem teria a audácia de fazer um reparo à representante do país que mais polui e que, mesmo assim, tem se recusado sistematicamente a tomar parte nas campanhas de proteção ao meio ambiente – durante o governo Bush, por exemplo, recusou-se a assinar o Protocolo de Kioto? Ninguém. Portanto, madame Clinton ganhou aplausos.

Enquanto isso, no Aterro do Flamengo, o soutien de Patrícia Poeta estava abaixo do tamanho que deve usar e, por isso, a jornalista apareceu no Jornal Nacional com uma terceira protuberância no peito. Um descuido. Este dá para relevar, mas aquele que cometeu no final da matéria, não. Ela estava lá para dar voz ao povo – vindo de tudo quanto é lado, de fora e de dentro do Brasil – sobre o que precisa ser feito para proteger o planeta da desgraça anunciada por defensores do meio ambiente. O problema é que aceitou sem pestanejar o discursinho pronto de cada um dos entrevistados e permaneceu tão na superfície que até se animou com o que descreveu como “uma mudança no olhar” das pessoas sobre a questão. Era para tanto?

Quem está na condição de telespectador conta com a vantagem do distanciamento. É quando a gente vê aquilo que a pessoa diretamente envolvida no fato não enxerga. Quero dizer: o comentário de Patrícia foi afoito e, numa certa medida, ingênuo. Aos meus ouvidos todas as declarações que colheu trabalhando como repórter soaram vagas. Diante de um microfone, os representantes da voz do povo até fizeram um ajuntamento bem interessante de palavras. Mas o que disseram reflete o comportamento delas no cotidiano?

Há jeito de saber se isso acontece. Por exemplo: quando a jovem afirmou que havia descoberto “a importância do papel individual em defesa do planeta”, esperei que Patrícia lhe fizesse uma absolutamente singela pergunta. Esta: como vai colocar isso em prática no seu dia a dia a partir de agora? Ou: que tratamento você dá ao lixo produzido em sua casa? Mas que pena! A pergunta não veio. A jornalista não se lembrou de fazê-la, assim como outros nem se lembram de questionar um diretor para saber quanto do orçamento milionário de uma entidade é realmente empregado no objetivo para o qual foi criada. À apresentadora do Jornal Nacional só ocorreu sublinhar a tal “mudança no olhar”. Esperei em vão.

E volto ao primeiro parágrafo, para lamentar a desatenção dos moradores de Porto Alegre aos apelos da prefeitura para que respeitem o espaço público em que vivem. Por exemplo, não descarregar no riacho Ipiranga as poltronas, os fogões, as camas e outros pertences que já perderam sua utilidade e, por isso, não querem mais dentro de casa. Ou que usem os containers espalhados pela cidade apenas para descarregar neles o lixo orgânico. O riacho volta e meia está virado num cemitério de objetos grandes e pequenos, ou pedaços deles. Os containers também estão sendo usados como depósito de material reciclável. Faz algumas semanas, a jornalista Cristine Pires chamou a atenção sobre isso, postando no Facebook um flagrante da indiferença com que essa orientação é acolhida.

O problema é o container? Não. O problema é a falta de educação das pessoas. O problema é a democracia? Não. O problema é a falta de educação das pessoas. O problema é o álcool? Não. O problema é o desrespeito das pessoas aos limites que se precisa ter quando se vive em um sistema democrático. Ouço gente exigindo respeito ao direito de escolher e de se expressar, mas essa mesma gente esquece que esse direito não pode ser exercido a ponto de prejudicar os outros. Quem não respeita limites mostra que precisa de quem lhe diga o que deve fazer. Está em busca de um chefe. De uma autoridade que nada lhe peça. Que lhe dite ordens. Que lhe imponha decisões e lhe ensine que a liberdade também tem fronteiras. Aliás, temos uma metáfora disso no desenho de Porto Alegre: a rua Liberdade, que termina diante da fachada de prédios no bairro Bom Fim.

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