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Eric T. Hansen nasceu nos Estados Unidos, mas viveu metade de sua vida na Alemanha. Mora em Berlim. Trabalha como caricaturista, mas também é escritor. Um de seus livros é Planet Germany. Agora está lançando Planet Amerika. Além disso, escreve uma vez por semana para o jornal Zeit, comentando a campanha eleitoral à presidência e o “caráter” de sua terra natal.

A imagem que os Estados Unidos têm no mundo já foi lamentada pelo ator George Clooney, por exemplo. Faz alguns anos ele confessou seu desconforto diante de uma constatação: “somos odiados”, disse. Não mentiu. Quem odeia o país são aqueles que o acusam de praticar o intervencionismo imperialista, o que inclui a criação de monstros como Saddam Hussein, usando-os depois como justificativa para ações militares que, entre outros interesses – o petróleo, especialmente -, beneficiam os fabricantes de armamentos dos Estados Unidos. Nesse contexto e nesta semana, o filme A Inocência dos muçulmanos, que foi feito nos Estados Unidos e ridiculariza o profeta Maomé, conseguiu agravar a situação, desencadeando uma onda de violência no mundo islâmico contra tudo o que representa os Estados Unidos. Sobrou, inclusive, para a Alemanha de Angela Merkel, que, aliás, deu-se ao trabalho de levar pessoalmente seu apoio a George W. Bush quando este decidiu invadir o Iraque.

Portanto, neste artigo publicado no jornal Zeit, Eric T. Hansen não está inovando em termos de assunto. Mas há alguns aspectos interessantes na abordagem que faz. Um deles é que, ao longo de todo o texto, ele se refere à sua terra natal como “América” e, ao povo, como “americano”. Lendo, voltou-me o desagrado que senti na Alemanha, durante um curso, quando conterrâneos do escritor faziam questão de se identificar como os “representantes da América, passando por cima do fato de brasileiros, chilenos e argentinos também serem americanos. Contrariavam inclusive o professor, que se referia ao país deles como “Vereinigten Staaten”, isto é, Estados Unidos, exigindo que os demais alunos fizessem o mesmo.

Além disso, Hansen volta no tempo. Conta o que os fundadores de seu país tinham em mente. Fala sobre as duas vocações do povo estadunidense: a imperialista (democratas) e a isolacionista (republicanos como Ron Paul, que defende a volta para casa de todos os militares norte-americanos). Mas, lá pelas tantas, faz uma pergunta que ocorre a qualquer um que se interesse pela política internacional: a intromissão de um país na política interna de outra nação se justifica em algum momento?       

A resposta não é simples. Demanda algumas considerações, que podem começar no que está em volta da gente. Por exemplo: se minha vizinha pede socorro porque o marido ameaça matá-la vou cruzar os braços ou tento salvá-la do agressor?  Chamo a polícia. Portanto, meto a minha colher nesse angu, como fazem os governos dos Estados Unidos quando mandam suas tropas a outros países. Mas há uma diferença: eu, em nenhum momento, estimulei a crise na casa vizinha. O mesmo não se pode afirmar sobre a política externa norte-americana, que armou Saddam Hussein contra o Irã e apoiou Bin Laden contra a Rússia. Quando Saddam se tornou inconveniente, Bush pai quis acabar com ele. Não teve êxito. O filho, George W, foi à vingança. Valeu-se de uma mentira, passou por cima da ONU como um trator e colocou seus soldados no Iraque. Mataram e morreram. O mundo ficou mais seguro? Não. Ficou até pior.

Hansen admite que nem todas as decisões de seu país na política externa são boas. Mas tenta atenuar o efeito do erro contrapondo acertos como a participação na Segunda Guerra Mundial. Mais que isso: defende o papel da Alemanha na Europa de hoje como necessário à sobrevida das outras nações da zona do euro em crise, embora esse desempenho tenha recebido críticas como ingerência indevida. Insinua que a nação governada por Merkel quer esquecer que Hitler foi eleito democraticamente, mas a realidade mostra o contrário: a Alemanha é aliada dos Estados Unidos também no apoio a Israel – fornece tanques de guerra ao país – que o radical iraniano Ahmenidhjad, em seus delírios, ameaça varrer do mapa se a guerra já várias anunciada pelo primeiro-ministro israelense realmente acontecer.

De qualquer maneira, o texto de Eric T. Hansen é bem interessante. Irônico. Não fosse, nem teria me dado ao trabalho de traduzi-lo. Por isso, recomendo sua leitura.     

Quem assume responsabilidades comete erros

Admito: a América comete erros. Grandes erros. Erros bobos. Foi um erro enorme invadir o Iraque e o Afeganistão. Também foi errado entrar no Vietnam e na Alemanha. O que, por favor, procuramos nesses países?

Em Washington, a já velha polêmica – por que e como a América deve se comportar em relação aos outros países – virou tema novamente. O presidente Barack Obama está a ponto de perdoar um bilhão de dólares de dívidas do Egito. Além disso, quer dar um apoio de 375 milhões de dólares a empresas norte-americanas que investem naquele país. Outros 60 milhões de dólares deverão ser colocados à disposição de empresários egípcios. Obama também quer apoiar o empréstimo de até 4,8 bilhões de dólares através do FMI.

Teoricamente, todo esse dinheiro sujo americano deverá a ajudar a alquebrada economia egípcia e, ao mesmo tempo, contribuir para fortalecer a democracia que ainda está em sapatos infantis – incipiente – no país. Mas sabemos para onde vai todo esse dinheiro: vai para empresas americanas capitalistas turbinadas que excluem os egípcios. Vai a vorazes colaboradores egípcios. Seguirá assim até que nada reste da cultura egípcia e a população de lá nada faça, o dia inteiro, além de dirigir sólidos carros norte-americanos e comprar a saborosa cerveja e as boas armas americanas. Obama diz: dinheiro para uma sociedade fragilizada; eu digo: imperialismo escancarado, em pelo. Nu e cru.

Não sou o único americano que condena todas as formas de imperialismo americano. Ao contrário: embora isso não seja conhecido na Europa, metade de todos os americanos é imperialista (principalmente os democratas); a outra metade é formada por assim chamados “isolacionistas”, dos quais a maioria é republicana.

O isolamento foi a primeira vocação. Começou com a declaração de independência do país, quando a América se entendeu como um Estado totalmente liberto da Europa e cuja política deveria beneficiar apenas a seus próprios cidadãos. Muitos de seus fundadores manifestaram a opinião de que a América nunca deveria se intrometer na política de outras nações. Mas isso valeu até o ponto em que, ainda na guerra pela independência, tivemos que reconhecer que não tínhamos como mandar os ingleses de volta para casa sem a ajuda de outros. Portanto, aceitamos a ajuda dos franceses, que queriam aproveitar a oportunidade para travar o andamento da carroça inglesa.E zack! Já estávamos intrometidos na política europeia.

Ainda hoje a metade de nós acredita que somos a maior e mais rica nação do planeta, também a primeira e mais bem-sucedida democracia do mundo. E, por isso, essa metade também acredita que a América tem a obrigação moral de colocar os outros países sob suas asas protetoras e, claro, principalmente quando isso significa cuidar dos próprios interesses.

A outra metade acredita que a primeira e única obrigação de nosso país é proteger e apoiar seus próprios cidadãos, sem se importar que o diabo se encarregue do resto do mundo. Esses assim chamados isolacionistas são vistos na Alemanha como ignorantes que não sabem localizar Berlim ou Varsóvia num mapa do mundo. Deveriam saber? Talvez não. Afinal, não planejam invadir as duas cidades.

O isolacionismo era especialmente forte logo antes da Segunda Guerra Mundial: o presidente Franklin D. Roosevelt queria se engajar no Velho Mundo, mas a opinião popular – tão pouco tempo depois da Primeira Guerra – era contrária e obrigou o presidente a prometer que nunca mais ordenaria volta de nossos jovens à Europa para lutar. Inclusive, o Congresso editou um Neutrality Act, sacramentando essa promessa como válida em qualquer caso. Somente quando os japoneses bombardearam Havaí os isolacionistas viraram repentinamente imperialistas, e Roosevelt pode participar da guerra, não apenas no Pacífico, mas também na Europa.

Na posição radicalmente oposta à de Roosevelt está o amado e ultraconservador republicano – três vezes candidato sem sucesso à presidência – Ron Paul. Na opinião dele, a América deve retirar suas tropas de outros países e nisso tem o apoio de pessoas que nem mesmo sabem onde esses países ficam no mapa. O problema de Paul é que ele precisa dizer  B quando já disse A. Quero dizer: a América deve diminuir o envio de armas a outras nações, mas também deve diminuir o envio do dinheiro. Afinal, o assim chamado checkbook imperialism causa mais danos do que os assaltos militares. Mas…

Um momento, dizem então alguns conservadores americanos: nenhum dinheiro para países em desenvolvimento, como a África? Nenhuma participação na ONU, no FMI e na organização do mercado mundial, a OMC?  Nenhum dinheiro mais para Israel, esse pequeno país democrático rodeado por ditaduras inimigas? Não dá para ir tão fundo. Muitos americanos acham que é demais.

Quando intervir, quando não?

Pessoalmente estou com os isolacionistas em vários casos: Afeganistão, Iraque e Vietnam foram erros, e nosso engajamento na Segunda Guerra Mundial também não precisava ter acontecido. Afinal, Hitler era um governante eleito democraticamente (mesmo que a maioria dos alemães não se lembre disso hoje), e a revolução comunista foi tão justa quanto a nossa revolução contra a Inglaterra. Chacun à son goût!

De qualquer maneira, nós – os americanos – não somos mais os únicos que nos vemos obrigados a dar uma resposta a essa pergunta nada confortável: quando intervir, quando não? Estamos ganhando a companhia dos alemães, que estão tentando apertar os parafusos da política econômica de seus vizinhos e de forma até mais enfática que o Plano Marshall. E essa intromissão no destino de outros países vai se ampliar também para além das fronteiras europeias. Hoje vai dinheiro alemão para os refugiados sírios na Turquia, mas é somente uma questão de tempo até que a Alemanha passe a fornecer armas aos rebeldes.

“Eles queimam nossa bandeira”

A Alemanha está claramente na iminência de assumir um poder mundial à moda americana. Isso mete medo aos alemães e, como americano, entendo bem o que sentem: quem assume responsabilidade comete erros. E quem comete erros é xingado, achincalhado. Muitos pensam que manter-se totalmente longe e fora da confusão é o único caminho  para não cometer erros. Estão enganados: também isso pode ser um grande e terrível erro.

Há alguns meses vimos as primeiras imagens da Grécia em crise, onde a bandeira alemã era queimada em via pública. Como americano conheço essas demonstrações de ódio:  desde  criança vejo a bandeira americana em chamas todas as semanas em alguma rua de alguma pequena e miserável ditadura. Para minha namorada alemã – que é tudo menos politicamente ingênua – essa foi uma experiência totalmente nova. “Eles queimam nossa bandeira”, disse. Estava muito impressionada e quase em lágrimas. Eu só disse:  “Bem-vinda ao clube, baby”.

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