A Lua e nós

É como diz a voz do povo: há muito mais entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia. Mas, pelo menos no que lhes compete, os astrônomos vêm fazendo um esforço danado para descascar a cebola do grande mistério que envolve o universo, sua origem e sua evolução até chegar ao ponto em que está no conhecimento que temos dele. A curiosidade não lhes dá trégua. Para satisfazê-la, eles continuam buscando respostas para perguntas que, a bem da verdade, são as de qualquer outro ser humano mesmo quando este as formula com menos erudição. No dia17 de outubro, por exemplo, os jornais Zeit e Welt, da Alemanha, circularam com uma notícia sobre mais um passo dos pesquisadores nessa tentativa: a Lua seria o resultado de um gigantesco crash planetário.

Será mesmo? A história que se conhece até agora começa há cerca de 4,5 bilhões de anos, quando o caos imperava no sistema solar. Um alvoroço. Um cenário apropriado para servir como ponto de partida a várias teorias. Uma delas afirma que milhões de pedaços de rochas giravam em torno do sol e, sem um governo que controlasse seus impulsos, acabaram protagonizando enormes colisões. E? Astrônomos acreditam que esses impactos deram origem aos primeiros planetas, entre os quais se encontravam o precursor da Terra e um, digamos assim, companheiro de viagem bem menor chamado Theia. Depois, no meio da loucura generalizada no espaço, a Terra colidiu comTheia e praticamente o engoliu. O que sobrou dele foram destroços que se aglomeraram e, finalmente, formaram a Lua.

Terá sido assim? Embora bonita e interessante, essa forma de explicar uma parte do mistério que envolve o universo não ganhou a adesão geral entre os astrônomos. No meio dessas curiosas cabeças pensantes outras ideias ganharam força e provocaram outras perguntas e ponderações. Esta, por exemplo: se a Lua tivesse surgido como afirmam os autores da primeira teoria sua composição teria que ser mais parecida com Theia do que com a Terra. Mas as simulações feitas até agora nos computadores garantem que há poucas diferenças geológicas entre o chão que pisamos e o satélite que inspira os apaixonados. Além disso, as pedras lunares que o astronauta Neil Armstrong trouxe quando voltou da primeira missão Apollo à Lua também mostraram indiscutível semelhança com o material de que a Terra é feita.

Uma explicação sobre as semelhanças químicas entre as duas foi oferecida pelas astrônomas Matija Cuk e Sarah Stewart, da Universidade de Harvard (Boston). Segundo cálculos feitos por elas, o movimento da Terra era muito mais rápido há 4,5 bilhões de anos do que hoje. Naquele tempo, o dia não tinha mais do que duas ou três horas, afirmam as pesquisadoras na revista Science. Portanto, quando o choque ocorreu, a Terra estava em altíssima rotação e isso teria possibilitado que Theia absorvesse enormes massas de rochas da superfície terrestre. Ainda de acordo com as astrônomas, esse material se misturou ao que havia restado de Theia e da mistura surgiu a Lua.

Robin Canup, astrônomo do Southwest Research Institute apresentou outro cenário, também nas páginas da Science. Ao contrário de seus colegas, os estudos feitos por ele indicam que Theia não era menor que a precursora da Terra. Tinha exatamente o mesmo tamanho. E Canup acrescenta um argumento: o choque entre dois corpos de igual grandeza é mais forte do que quando acontece entre planetas diferentes em dimensões e, inevitavelmente, um absorve os destroços do outro quando o impacto ocorre. Portanto, também ele tem certeza de que a Terra – sobre a qual se desenvolveram flora, fauna e seres humanos – e a Lua são uma mistura geológica dos dois planetas que colidiram.

Mas a teoria das astrônomas de Harvard e a teoria de Canup não colocam um ponto final na questão. Pelo contrário, dão origem a mais perguntas. Entre os pesquisadores existem os que apontam um aspecto não devidamente tratado pelos autores: a velocidade dos movimentos da Terra, que deveria ser duas vezes maior do que é quando se desloca em torno do Sol e gira sobre o próprio eixo. O que diminuiu sua rapidez? Cuk e Stewart aceitam que o movimento atual mais lento do globo terrestre resulta das forças de atração entre o Sol, a Lua e a Terra. Se os pesquisadores tiverem razão, a Terra perdeu parte do seu impulso para o Sol e para a Lua. Em outras palavras: é como se fosse refém da vontade deles.

Algo de novo nisso?  Na verdade, não. Há muito se sabe que os planetas exercem uma força de contenção uns sobre os outros e ainda hoje a Lua retarda o movimento da Terra. Em consequência disso, observam os astrônomos, os dias ficam alguns milésimos de segundos mais longos todos os anos. Isso deve preocupar os terráqueos? Não. Tão cedo a Terra não vai parar, pois as forças com que os planetas se controlam atuam ao longo de bilhões de anos. Além disso, antes de o globo terrestre parar por completo, o Sol se transformará em uma grande bola em chamas. Tão feroz e tão voraz que consumirá também a Terra e a Lua.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s