Sintonia com as estrelas

Não faz muito tempo, li que somos pó de estrela. Não fui atrás de mais dados sobre isso – ainda não fui – mas penso que, se o que li é verdade, então Olavo Bilac encontrou o caminho de volta para casa quando compôs “Ora, direis! Ouvir estrelas”, e Elis Regina, quando disse “Agora sou uma estrela” também chegou lá. Afinada e dramática, revelou compositores como Milton Nascimento e Belchior. Não lia partitura, mas tinha o que chamam de ouvido absoluto. E impressionou Edu Lobo, de quem gravou Arrastão e Upa Neguinho.

Fui adolescente ouvindo Elis pelo rádio, veículo que perdi de vista depois, porque não suporto a verborragia. Mas devo gratidão a essa caixa sonante, instalada sobre a cômoda na sala de jantar da casa de meus pais, por ter me revelado a cantora, na época ainda mirim, como diziam, e moradora do bairro IAPI, em Porto Alegre. Não me recordo se então deixava transparecer influências de Ângela Maria, de quem mais tarde se declarou admiradora, mas me lembro de que detestei seu primeiro disco, um compacto em que gravou a faixa Dá Sorte – “dá sorte/fazer o que eu digo/dá sorte/querer seu amor/dá sorte/cantar comigo/cante então, a canção/que eu fiz/ para ser feliz”.

Cantava como se estivesse rindo, certamente acreditando que a voz deveria refletir o conteúdo dos versos. Não funcionou, inclusive porque me parecia tentativa de imitar Cely Campelo, a menina de “tomo um banho de lua” e de “Ó, ó cupido o meu coração/ não quer saber de mais uma paixão”. Mas era o ensaio do que viria a fazer, de forma exemplar, quando orientada por César Camargo Mariano, que é um músico popular/erudito e foi o seu segundo marido. Foi ele o rei Midas. Foi ele quem trouxe à tona o ouro que havia nela, a partir do disco Elis & Tom, gravado nos Estados Unidos em 1974, com selo Polygram. Era o primeiro salto em direção à excelência que a “Pimentinha” atingiu com Falso Brilhante, removendo o ceticismo de quem, até então, a acusava de ser excessivamente técnica. Não captava, essa gente, que ela usava a técnica, sim, mas para melhor expressar a emoção, como fez, rasgando, em canções como Maria Rosa Paixão, do seu conterrâneo Lupicínio Rodrigues.

Na escola de Camargo Mariano, Elis Regina recolheu os braços com que navegava pelo palco ao lado de Jair Rodrigues em um programa de televisão e ganhou intimismo e refinamento, sem deixar de ser suave e forte. Aprendeu a usar a voz, soltando-a ou equilibrando-a sobre um fio; aprendeu a explorar a palavra, a sílaba e a letra, marcando suas gravações de forma definitiva. Por isso, esta sensação de vazio na música popular brasileira depois de sua morte. Ninguém restou, ou surgiu, depois dela, para cantar que “As aparências enganam/aos que odeiam e aos que amam/ porque o amor e o ódio se irmanam na geleira das paixões” (de Tunai e Natureza). Elis dá forma à dor que há no reconhecimento das contradições humanas diante do amor e usa a voz como um bisturi, abrindo o peito, dela e de quem a ouve. Sensibilidade extrema, ou experiência de vida?

Provavelmente as duas. Mas pela segunda não me interesso, além do que a própria Elis Regina se permitiu expor enquanto viva. Sobre isso, lembro que a entrevistei no Rishon Hotel para a Folha da Manhã, na década de 1970, e meu editor queria uma foto dela com o filho Marcelo, então um menino de dois ou três anos de idade. Ela foi gentil, mas recusou. “Ainda não preciso usar meu filho para ser notícia”, disse. Tivesse consentido, teria me decepcionado. E, se ainda estivesse de corpo e alma entre nós, certamente não aprovaria a publicação da carta que, enquanto casada com Ronaldo Bôscoli, escreveu a uma sua ex-professora de Porto Alegre, acreditando que poderia tê-la como confidente. Cometeu um engano. Talvez causado pela sintonia que já tinha com as estrelas.

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