Existem outros universos – e quantos?

Nem a mais racional e avançada ciência moderna tem certeza sobre a origem do universo. Mas, em vez de aceitar as respostas prontas que as religiões oferecem – como a teoria do criacionismo – ela investiga outras possibilidades. Sobre isso e sobre a possibilidade de existirem universos paralelos é esta conversa com a física norte-americana Lisa Randall, que o jornal Zeit publicou quando ela fez conferência em Munique, na Alemanha.

Randall é, atualmente, a física mais famosa do mundo. Se a teoria com que chamou a atenção é verdadeira, então o universo tem muitas dimensões e espaço para um universo paralelo. Mas, diferentemente dos estudiosos da Cosmologia cuja pesquisa é mais especulativa, ela não abre mão de comprovações. A isso também pertence o seu interesse por novas partículas elementares, que poderiam ser descobertas no CERN, sigla para Conseil Européen pour la Reaserche Nucléaire (Centro Europeu para Pesquisa Nuclear), localizado em Genebra, na Suíça, e onde ela também faz experiências.

Lisa foi professora na Princeton University e no MIT, mas dá aulas desde 2001 em Harvard e tem seguidores no twitter – @lirarandall. Na TV a cabo, em 2010, ela participou de um episódio da terceira temporada da série The Big Bang Theory. Muda e sem ser identificada, ela apareceu quando o personagem Leonard visitou o Grande Colisor de Hádrons (LHC), que funciona em um túnel de 27 quilômetros de circunferência.

Ali as teorias de Lisa Randall são testadas no acelerador de partículas em uma velocidade que chega a 300 quilômetros/hora, batem de frente e explodem podendo revelar propriedades ainda desconhecidas do Universo, como novas forças e novas partículas. Também autora de livros sobre o assunto, sua obra mais recente é Knocking on heaven’s door (Batendo às portas do paraíso) – título de uma canção de Bob Dylan gravada também pela banda Guns and Roses. No site da Livraria Cultura a obra é oferecida em inglês, por R$ 29,24.

P: Professora Randall, sabe que em alemão seu nome significa algo como “a beira do mundo”?

Lisa Randall: Sim, soube disso quando vi a tradução de meu livro mais recente no Google. Ali sempre estava em questão “the edge of space” e eu não via sentido algum nisso até descobrir que estavam falando de mim.

P: Talvez tenha sido predestinada a investigar e a esclarecer o ser humano sobre a história da criação do Universo do ponto de vista da Ciência.

Randall: Não uso a palavra criação e não sou uma pregadora, de jeito nenhum. Para mim, trata-se de entender o mundo – portanto, provar se algo é verdadeiro ou falso.

P: A teoria do Big Bang também é uma espécie de ato de criação.

Randall: Mas a grande pergunta – como tudo começou – os estudiosos do cosmos dificilmente poderão responder. A teoria da Big Bang nos diz como o Universo se desenvolveu, mas não o que explodiu primeiro. Sobre isso só podemos especular. Não está excluída a existência de outros universos, totalmente separados e nos quais a natureza seja regida por outras leis. Talvez nesses universos exista, por exemplo, outra espécie de eletricidade.

P: Muitos de seus colegas são fascinados pela ideia de universos paralelos. E Stephen Hawking afirma que a teoria segundo a qual existem muitos universos tira a importância de Deus. Ele se torna inútil.

Randall: Ora, a briga envolvendo Deus é apenas conversa fiada. Não me interessa essa história de substituir a religião pela Ciência. A existência de outros universos é uma teoria, é uma possibilidade sobre a qual se pode pensar, e pode ser até sexy. Mas a Ciência precisa estar apoiada em experimentos e comprovações.

P: Há algo de errado em despertar nas pessoas a fascinação pela Ciência quando algumas perguntas ainda não têm respostas?

Randall: Até este momento do conhecimento científico a existência de universos paralelos é somente uma questão de acreditar ou não. De fé. Nos Estados Unidos, basta alguém falar sobre esse tipo de assunto para que imediatamente os criacionistas batam à sua porta, protestando de forma veemente. Em contrapartida, há pouco tempo tive uma discussão com Richard Dawkins, um biólogo evolucionista. Ele ressalta a beleza e a majestade da Ciência, acreditando que ela pode substituir a religião. Para mim, ao contrário, a grandiosidade da Ciência é exatamente a sua falta de ordem, seu caos. Os cientistas não são donos de uma verdade final, mas precisam descobrir o mistério que há no interior do Universo e mantém o mundo funcionando, conectado. Nós colocamos nossas ideias à prova e as descartamos mesmo quando são muito bonitas.

P: Não lhe dá prazer brincar com a hipótese de um multiuniverso?

Randall: Naturalmente! Mas também me é muito prazeroso entender o que acontece no acelerador de partículas – LHC – na Suíça.

P: O poeta alemão Hans Magnus Enzensberger definiu o CERN como “catedral da Física”…

Randall: Por que não?  Para mim, catedrais são prédios imponentes, templos da arte e da arquitetura, independentes de fé. Hoje existem igrejas que são usadas como locais para escalar ou restaurantes. Comparativamente, o CERN é um local profano, uma máquina que serve a um objetivo. A Ciência precisa de sua ajuda, assim como uma catedral serve à religião. Mas o CERN foi construído com força criadora. Neste sentido é realmente uma catedral.

P: Mas os dois, tanto os sacerdotes nas catedrais quanto os físicos no CERN, afirmam que anunciam a verdade.

Randall: Mas não tenho certeza se os padres também procuram a verdade ou apenas acreditam que já a conhecem. Os cientistas, seja como for, procuram a verdade.

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