oscar_niemeyerComo qualquer outro ser humano, ele ria, tinha seus momentos de tristeza, chorava, ouvia música, amava seus livros. Mas era especial. Era Oscar Niemeyer, que detestava as linhas retas. Amava as sinuosidades – da paisagem, da mulher. Louvou esse amor de forma insistente em suas obras arquitetônicas e o confirmou no Poema da Curva.

Viveu muito. Intensamente. E sobreviveu a muitos cigarros. Não se deixou contaminar pelo capitalismo. Mesmo na contramão, foi comunista até o fim. O oratório diante do qual a família rezava ganhou lugar nas lembranças felizes do adulto que não acreditava na existência de Deus. Mas o fato de ser ateu não impediu que projetasse igrejas e capelas.

Respeitado no Brasil e fora dele, Niemeyer morreu aos 104 anos de idade, nesta quarta-feira, 5 de dezembro. No próximo dia 15 completaria 105. Partiu nove dias antes, levado por uma infecção respiratória, mas “tranquilo com a vida” (título da música que compôs com Edu Krieger e na qual reafirmou a necessidade de um olhar mais atencioso para com os pobres). Porque também era um homem de fé, embora fosse pessimista, acreditava na possibilidade de esse olhar acontecer e na mudança que ele poderia operar.

Gostava de Matisse. Gostava de Picasso. Por diferentes motivos. Deixou depoimentos interessantes sobre a arte dos dois, sobre como a arte interpreta a vida e sobre como ele próprio interpretava a vida através de sua arquitetura. A morte de Niemeyer tira de cena um brasileiro decente, criativo, extremamente lúcido e inteligente. Um tipo de homem nada comum. Muito acima das personalidades que frequentam os espaços políticos e vemos nas páginas dos jornais como réus envolvidos no mau uso do poder e do dinheiro público.

Poema da Curva

Não é o ângulo reto que me atrai,
Nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo o homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro no curso sinuoso dos nossos rios,
nas nuvens do céu,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
O universo curvo de Einstein.

Sobre liberdade

“O importante pra nós em todos os sentidos é a liberdade. Tem que haver fantasia, tem que haver uma solução diferente. Isso é que é importante na arquitetura. O que vai ficar da arquitetura, o que ficou, não foram as pequenas casas, muito bem tratadas…Foram as catedrais, foram as “voutes”, foram os grandes balanços, né?”

Sobre beleza

“A beleza é importante. Você vê as pirâmides… uma coisa sem menor sentido, mas são tão bonitas, são tão monumentais que a gente esquece a razão das pirâmides e se admira, né?  Se você ficar preocupado só com a função, fica uma merda.”

Sobre prédios públicos

“Quando me pedem um prédio público, por exemplo, eu procuro fazer bonito, diferente, que crie surpresa. Porque eu sei que os mais pobres não vão usufruir nada. Mas eles podem parar, ter um momento assim de prazer, de surpresa, ver uma coisa nova. É o lado assim que a arquitetura pode ser útil. O resto, quando ela tiver um programa humano, social, aí ela vai cumprir seu destino.”

O ser oculto
“Todos temos dentro de nós um ser oculto, que nos leva pra um lado ou pra outro. O meu é esse: ele gosta das coisas, ele gosta de mulher, gosta de se divertir, gosta de chorar, se preocupa com a vida. É um sujeito complicado, não é? E nós não somos responsáveis em parte pelas nossas qualidades e defeitos. O sujeito nasce branco, preto, amarelo, azul, rico, pobre, inteligente. Então a gente tem que aceitar as pessoas como elas são. De modo que quando eu vejo uma pessoa, eu sempre digo: é feito uma casa, uma casa que a gente pode pintar, consertar o telhado, as paredes, mas se o projeto for ruim, fica sempre a deficiência.”

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