Apenas divagando

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Não se faz omelete sem, antes, quebrar o ovo. Isso a gente aprende cedinho na vida, ainda criança, quando a fome ou a gula nos mantém ao lado da mãe na cozinha, de olhos sequestrados pelo ritual que ela cumpre – e tem magia nisso – até que a massa fina e absolutamente deliciosa chegue ao prato. Oba!

E quem dera fosse o preparo da omelete um aprendizado também para outros processos a que estamos sujeitos na vida urbana e que são muito necessários em Porto Alegre. Mas isso não acontece. O povo reclama, por exemplo, do que tem como “descaso da prefeitura” quando não consegue escapar dos lagos que a chuva cria nos buracos formados pelo constante ir e vir dos veículos nos corredores de ônibus.

Tem razão esse povo que fica zangado e acusa os prefeitos quando são lerdos na tomada de providências. Afinal, é para que resolvam as dificuldades do município que lhes dá seu seu voto de confiança nas urnas, acreditando nas promessas feitas durante a campanha eleitoral. O problema é que esse mesmo povo quer um milagre. Quer a omelete sem quebrar o ovo. Reclama, porque as obras em andamento nos corredores desde início de janeiro transferiram as paradas de ônibus para as calçadas, onde formam pequenas multidões à espera de ônibus, de taxi e de lotação.

É chato? Claro que é. Mas não haveria momento mais propício para essa reforma, que substitui o asfalto pelo concreto – mais resistente -, porque metade da população está no Litoral, tomando banho de sol, brincando no mar, caminhando ao longo dele. A ponderação não acalma a dona da vidraçaria, que deixou de me entregar um espelho e alegou, como justificativa, esse grande número de pessoas que se reúnem na frente da loja e impedem a passagem do seu funcionário. “Vou me queixar à prefeitura e pedir que tirem a parada do lugar”, afirmou.

Entendi a dificuldade da empresária. Mesmo assim acabei cancelando o pedido. Por outro motivo: descobri que a encomenda ainda repousava, intocada, sobre a mesa de quem a havia recebido uma semana antes. E não sei se a tal parada mudou de lugar. Se isso aconteceu, agora certamente é dor de cabeça de outro lojista da avenida Protásio Alves, provavelmente tão ou mais impaciente que a dona da vidraçaria.

001Mas nem todas as favas estão contadas. Ainda pode piorar. E acredito que o prefeito José Fortunati deveria colocar suas barbas de molho, porque os ânimos ficarão bem mais azedos se essa reforma não for concluída até meados de fevereiro. Vai ser um auê se os transtornos que causa invadirem o ano letivo de 2013, que começa no dia 20. Este é o medo dos motoristas de taxi com os quais tenho conversado. Na opinião deles, as obras deveriam ter iniciado antes do Natal e não deveriam parar nos finais de semana. Aliás, nem mesmo durante a noite. Mas quem aguentaria o barulho?

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Apesar de tudo, o sangue que corre nas minhas veias corre docemente. Estou de volta a Porto Alegre, a cidade que amo. Essa, onde o vento faz o ritmo nos arvoredos e ameniza a temperatura, onde o sol não é agressivo e onde posso caminhar e caminhar e caminhar pelas alamedas do Parque da Redenção, no final da tarde. Na companhia de uma amiga, como a Lorena, volta e meia parando para trocar uma ideia com mais alguém, para olhar a paisagem e para registrar aquela imagem que gostaria de rever em casa. 

016Praia? Não agora, quando lá a metade dos porto-alegrenses vive em burburinho. Quando o sossego novamente se instalar na areia, será a minha vez de voltar para lá, na companhia de majestosas pernaltas. Há um quê de nostalgia no jeito como elas se plantam na água e ficam ali, silenciosas, olhando o movimento das ondas. Sabiamente pacientes diante dessa força que dança. Acho que as entendo. Gostaria de ser uma delas. E sou. Na minha alma. Sempre dividida entre voar e ficar para mergulhar na água.

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