Um recado feito de cores

 

A união simbolizada através das cores. Com atenção aos detalhes, como se vê na foto. Ela foi tirada durante a cerimônia de posse de Barack Obama: o azul da gravata do presidente reeleito conversa com o traje da primeira-dama, Michelle, e harmoniza também com o vestido de Sasha, a caçula das filhas; o roxo das luvas de Michelle se repete no cachecol de Malia, a primogênita, cujo mantô se comunica com o xale discreto da irmã, que está de luvas em azul petróleo. É óbvio que a escolha desse figurino teve o propósito de mostrar a união da família Obama, mas o resultado também pode ser interpretado uma mensagem do que ele deseja para o povo que vai governar por mais quatro anos. É proposta de diálogo. Coisa de intelectual. Resta saber se vai ser compreendido nesse país em que qualquer movimento no sentido de reduzir o comércio de armas é visto como ameaça à liberdade.

 mode-familie-obama-harmonie-lila

Previsão equivocada

Por que Barack Obama não tem chance de ser reeleito para a presidência dos Estados Unidos. Essa foi a chamada de uma análise publicada na Berlinerzeitung, no início do ano passado. O autor descreveu o panorama político em que Obama vinha se movimentando desde sua eleição em 2008 e, na opinião dele, o presidente norte-americano já tinha queimado todos os cartuchos. O que ele disse:

“Três anos depois de eleito, o mundo estava um pouco decepcionado porque ele não tinha conseguido transformar seu país, Estados Unidos, em nação amorosa e amante da paz, uma Vênus. Pelo contrário, nas questões políticas, acabou aceitando a orientação de Marte.

Ao mesmo tempo, parte do povo norte-americano ficou irritada porque ele não fez o suficiente pela economia, pelo sistema de saúde e pelo meio ambiente. A outra parte pensou que, afinal, Barack Obama é um muçulmano queniano que trabalha para entregar o governo do país ao comunismo.

Em todo caso, se não fez mais também porque houve quem trabalhou intensamente para desequilibrar o pedestal. Acima de todos, os republicanos, que se empenharam num jogo abjeto. Em 2008,  prometeram  trabalhar com Obama em benefício da nação. Mas, nos três anos seguintes, usaram o Congresso como campo de batalha na tentativa de provocar uma crise cujo objetivo era transformar o presidente em figura ridícula diante do povo. E, em 2011, o líder deles no Senado, Mitch McConnell, anunciou que o partido faria de tudo para impedir sua reeleição.

Quando o povo se deu conta de que havia um jogo sujo em andamento, os republicanos lançaram mão de mais um recurso: os estudantes universitários – que em sua grande maioria apoiam os democratas – não poderiam mais votar nas cidades de sua universidade. No estado de Wisconsin, eles determinaram que somente aqueles que portassem uma identificação específica teriam direito a participar da eleição. E, ao mesmo tempo, fecharam os escritórios que, nas regiões dominadas pelos democratas, preparavam essas identificações, enquanto esses escritórios tiveram permissão para prolongar o horário de atendimento mas vizinhanças republicanas.”

Errou feio o analista: apesar da consistência de seus argumentos, o resultado nas urnas contrariou o prognóstico. Barack Obama foi reeleito para o cargo no dia 6 de novembro de 2012 e, rodeado pela família – Michelle, a mulher; Malia, a filha primogênita; e Sasha, a caçula – ele tomou posse no início da semana. Seu discurso foi imediatamente muito comentado ao redor do mundo. Alguns  viram nele a promessa de um governo mais incisivo diante dos seus opositores republicanos no Congresso; outros queriam que tivesse sido menos vago, que tivesse entrado em detalhes sobre como pretende realizar as mudanças na área da saúde, que necessita de reforma, e da economia, em crise. Ainda assim sobraram elogios para o anúncio de maior empenho na defesa dos direitos da mulher, dos imigrantes e dos gays.

É certo que Barack Obama mudou muito desde 2008, quando foi eleito para o primeiro mandato.  Está mais velho e cheio de cabelos grisalhos. Mas o sucesso de seu segundo governo depende de outra mudança. E esta é interna. Para o jornalista norte-americano Thomas Frank, considerado “o Michael Moore das cabeças inteligentes”, o presidente reeleito é excessivamente conciliador, falta-lhe habilidade na negociação política e ele atua sempre de forma desajeitada e sem originalidade quando sai em defesa de seus objetivos. Agora lhe foram dados mais quatro anos, tempo em que deverá mostrar que essa mudança aconteceu, para o bem na nação que o colocou pela segunda vez na Sala Oval da Casa Branca. Obviamente também para o resto do planeta, já que estamos todos num jogo de dominó. Em cadeia.

A multidão reunida em Washington, vinda de todos os cantos do país, gostou do que ouviu, mas quem estava lá – e quem não estava – também sabe que o desempenho do presidente, como diz o jornalista alemão em sua análise, foi muito prejudicado no seu primeiro mandato e que isso poderá se repetir no segundo, quando novamente terá que enfrentar a má vontade dos republicanos, que tratam de bloquear qualquer avanço. Já lhe prometeram apoio no interesse da nação, mas quem garante que o farão se Obama fincar pé, por exemplo, no controle da venda de armas?

Ele tem consciência de que nada lhe será facilitado. Isso explica a escolha do figurino da família na cerimônia de posse. Uma boa olhada nas fotos, em que o uso das cores chama a atenção, permite uma leitura do que foi pensado como mensagem: “Nós, os Obama, somos um; mas essa unidade deixa espaço para a individualidade”. É difícil acreditar que o conciliador e intelectual Barack Obama tenha escolhido o figurino de forma aleatória, só porque gosta de determinadas cores e tons no grupo familiar. Ele quis – e deu – um recado também ao povo sobre o que espera dele e pensar fazer por ele.    

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s