Tragédia anunciada

Se o alvará da boate Kiss, de Santa Maria, estava vencido desde agosto do ano passado, com a autorização de quem ela seguiu funcionando? O órgão encarregado da fiscalização certamente sabia disso, a menos que seja completamente ineficiente. E, se sabia da irregularidade, quem permitiu a realização dessa festa – programada por estudantes universitários – quando deveria proibi-la? Por que disse sim, quando deveria ter dito não? Quem a patrocinou? Quem, em nome do lucro, fechou os olhos ao que estava errado? É verdade que os seguranças impediram a saída dos jovens exigindo antes o pagamento da comanda? Nem portas de emergência havia no local, dizem.

A verdade é que essa tragédia estava anunciada, mas poderia e deveria ter sido evitada. Todo esse horror foi causado – e está nas capas de jornais como o Zeit, da Alemanha, no Corriere della Sera, da Itália, e outros veículos mundo afora – porque os responsáveis pelos preparativos para a festa passaram como um trator por cima de uma série de providências, sempre absolutamente necessárias em comemorações tão coletivas: na boate estavam mais de 1.500  pessoas, segundo o comandante Pedroso, do Corpo de Bombeiros de Santa Maria, ouviu de sobreviventes.

Na averiguação das responsabilidades, nem mesmo a banda Gurizada Fandangueira deve ser deixada de lado. O show pirotécnico faz parte da sua performance. Quando perguntado sobre isso, um delegado afirmou que esse tipo de espetáculo é proibido em lugar fechado. Uma questão de lógica, inclusive. Mesmo assim é feito pela banda, dizem que rotineiramente. Ainda que fosse permitido, quem é o encarregado, em nome dos músicos, de verificar as condições do local em que vão se apresentar? Se tivessem esse cuidado, o grupo teria sabido que havia material altamente inflamável e tóxico na boate. Então, a menos que fosse absurdamente leviano, certamente não teria usado o sinalizador, efeito que provocou o incêndio.

O mal está feito. Há muita mãe, muito pai, muita família e muito amigo chorando. Esta é uma dor que leva ao fundo do poço.  Até este momento, os dados oficiais são estes: 231 mortos – jovens em sua maioria de 18 a 24 anos de idade (segundo informações) e 127 feridos. A partir de agora, sem que isso seja visto como caça às bruxas, é preciso identificar os responsáveis, para que arquem com o peso das consequências. Certamente dirão que não tinham a intenção de matar, o que implicaria homicídio doloso. Acredito. Mas foram relapsos. Nisso também acredito. Foi a falta de seriedade de cada um deles no desempenho de suas tarefas que levou tanta juventude ao beijo da morte na boate Kiss. E isso remete a homicídio culposo.

Haverá quem, além dos advogados, sairá em defesa dos envolvidos. Dirá que não “fizeram por mal”, que fizeram o melhor que podiam. Mas quem não tem competência não deve se estabelecer. Em outras situações, o drama maior pode ser a falência da empresa, mas ela pode ser reaberta lá adiante, apoiada em alguma consultoria das tantas à disposição no País. Os jovens que morreram na boate Kiss, pelo contrário, não terão uma segunda chance, porque até agora nem mesmo os médicos mais esforçados conseguem fazer um trabalho que se atribui a Deus.

Essa tragédia expõe outra verdade – extremamente desagradável – sobre o brasileiro e seu comportamento como cidadão. Ganhar de qualquer maneira e a malícia do jeitinho – quem não faz uso dele é visto como trouxa –  desempenham um papel enorme em praticamente todos os setores da sociedade – política, economia, saúde, segurança. Um exemplo disso se viu nas manchetes há alguns dias: a retirada ilegal de areia no rio Jacuí, acabando com as margens.

Há outros igualmente sérios, como a contaminação das águas pelo uso do agrotóxico. Tudo em nome da vantagem. Do lucro a qualquer preço. O dia em que isso terminar, o dia em que o riacho Dilúvio, que atravessa Porto Alegre, deixar de ser a lixeira de quem se livra do que sobra em casa, então sim teremos chegado à verdadeira civilidade. Por enquanto, como prova a tragédia na boate Kiss, somos um aglomerado de gente sem noção, que se acredita moderna porque apela à esperteza para enganar os incautos. E ri deles.

A esperança é que essa tragédia tão dolorosa tenha o efeito de nos acordar para a necessidade de tirar da caverna o pé que ainda temos fincado nela. A esperança é que a partir de agora, em defesa da vida, não tenhamos medo de denunciar quem tenta se dar bem às custas dos outros. A reação tem que começar no cotidiano. Por que calar diante de quem tenta furar a fila no banco? E por que não denunciar quem se aproveita do cargo e promove reuniões em torno da mesa para  favorecer o amigo em uma licitação? O fato é que o Brasil só vai ser uma nação quando quem é decente não ceder mais à intimidação de quem comete a transgressão.

Foto de Germano Roratto/AFP/Getty Images

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