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O combinado era que nos encontraríamos às três e meia da tarde para uma boa conversa. Eu estava em grande expectativa. Afinal, há poucos dias tinha dado conta de Anoitece no Iraque – Projeto Brainwashing, livro de Patrick Ericson, que é, na verdade, o escritor espanhol José María Fernandes-Luna Martinez. Através dos olhos do tenente do exército norte-americano Jack Parsons, que perdeu a esposa Sharon grávida no ataque às torres gêmeas do World Trade Center, em 2001, a obra carrega o leitor para dentro do cenário da guerra movida pela coalizão liderada por George W. Bush, então presidente dos Estados Unidos.

Jack, o filho preferido de um militar que defende os republicanos sem reservas, acaba abrindo os olhos do pai. Mas antes disso ele descobre quem se serviu de quem na intrincada trama engendrada para derrubar as torres e para justificar a invasão do país, rico em poços de petróleo – apoderar-se deles era o foco -, com uma mentira: as armas químicas e biológicas que Saddam Hussein teria à sua disposição para colocar em risco a sobrevivência do resto do planeta em associação com Osama Bin Laden, que em vídeos assumiu a autoria do ataque ao World Trade Center. Mas essas armas nunca foram encontradas.

165 Agora eu queria voltar ao tema – com alguns de seus personagens centrais em outro país – ouvindo as impressões de alguém que já viu bem de perto a rotina de soldados estacionados no Afeganistão. Como vivem na área de conflito? O que os move verdadeiramente? Eles realmente acreditam nos motivos alegados para validar a guerra? Então, quando a chuva desabou sobre Porto Alegre na quarta-feira, 19 de fevereiro, transformando a Avenida Goethe em rio caudaloso, temi que a água levasse o encontro ao ralo. Mas Adriano Almeida, há sete anos vocalista da banda cover Brainscape, de Londres, já estava a caminho e não seria o trânsito engarrafado por uma enxurrada que o impediria de chegar a minha casa. Claro, estourado no tempo: levou mais de uma hora para vencer 800 metros. E daí?

“Levo numa boa”, diz. Como bom libriano, esse tipo de imprevisto não desconcerta o carioca criado em Porto Alegre, onde foi envolvido pela música ainda na infância. Então se aplicava no piano, estimulado por Fátima, a tia. Mais tarde, ganhou a cidadania portuguesa a que tem direito como neto de portugueses, tomou o rumo de Portugal e chegou até o último ano da Faculdade de Direito como aluno da Universidade de Coimbra. Mas o amor pela música falou mais alto. Decidiu dedicar-se a ela. Vive dela. Principalmente do prazer que ela lhe proporciona, porque lhe permite também o contato direto com situações sobre as quais a maioria de nós apenas lê.

Brainscape_Brainscape3Sim, Adriano Almeida leva tudo numa boa. Mais que isso: pode, como poucos jovens de sua idade, dar-se ao luxo de achar graça de um imprevisto como a cidade engolida pela chuva quando compara esta situação com outra, que já vivenciou várias vezes no Afeganistão, onde a Brainscape se apresenta com repertório pop-rock para os militares britânicos. Lá, por conta da logística empregada na segurança, o comboio que leva a banda desde o aeroporto até a base mais próxima de Cabul, a capital do país, percorre 800 metros em 40 minutos. Lamentavelmente, a logística da prefeitura da capital gaúcha ainda não está preparada para enfrentar um aguaceiro.

Faz um mês, Adriano está novamente em Porto Alegre, tratando de assuntos tão concretos quanto a reforma de uma casa. Veio com sua parceira de vida, a portuguesa Paula Loução, que conheceu em Londres, e com o filho Zaki, que mal completou três meses. Mas o parêntesis em que colocou a música tem data para terminar: os três voltam à capital inglesa no dia 28 de fevereiro, bem a tempo de ele se preparar para mais um show desses que funcionam como um verdadeiro refresco aos cerca de 100 mil homens das três bases militares britânicas no Afeganistão – em Cabul, em Kandahar (a maior delas) e em Helmand, onde fica o Camp Bastion, onde esteve o príncipe Harry.

090930115815_hercules226O próximo embarque da Brainscape está marcado para 5 de março. Além dos músicos – Adriano, Guilherme Aguiar, Marius Rodrigues (brasileiros) e Frank Horovitch (inglês) – a apresentação agendada pela produtora de eventos CSE (Combined Services Entertainment) tem a participação de dois comediantes e três dançarinas. O grupo inclui um gerente geral, um gerente de palco, um engenheiro de som e um engenheiro de luz. Nas viagens anteriores, eles e 20 toneladas de equipamento viajaram a bordo de um Hercules, avião de quatro hélices usado no transporte de carga e de militares, e num C17, que Adriano descreve como enorme. “Tem capacidade para duas carretas”. O voo não é direto a Cabul. Faz uma parada em Chipre, de onde segue para Helmand e dali para Camp Bastion, somando cerca de oito horas.

Há espaço para sentimentos como insegurança e medo diante dos perigos num país historicamente em guerra e de onde teria partido o ataque ao World Trade Center? Não para o vocalista da banda. “Levo numa boa”, diz outra vez. Mas ele admite que o “briefing” do sargento encarregado de receber o grupo no aeroporto assusta os novatos, porque é absolutamente claro, diretíssimo e sem a mínima tentativa de suavizar a situação. “Você pode não sair vivo daqui”, alerta o militar. Depois, sempre sem meias palavras, explica as reações previstas diante das ameaças que podem complicar – e impedir – o avanço do comboio no trajeto até a base, ao longo do qual todos os integrantes do grupo são obrigados a usar uniforme, incluindo capacete, colete à prova de balas e óculos que protegem contra estilhaços. “Cada um de nós vira um militar sem arma”, descreve Adriano. No inverno, em temperatura que desce a 20 graus negativos, até vai bem, “mas imagina isso no verão, num calor que chega aos 50 graus”, propõe.

Entre as três bases militares o transporte também é feito via aérea. “Então funciona como uma espécie de linha circular” sempre em operação, conta Adriano. Faz parte de uma rotina que ele define como “teatro de guerra”, o que inclui a possibilidade de um treinamento, inicialmente previsto para durar uma semana, se estender por nove meses. Voltando ao cotidiano: depois da recepção no aeroporto, do transporte até os alojamentos, do meet and greet – encontrar e saudar os soldados – tudo pode acontecer. Um exemplo? Até mais do que um. O vocalista da Brainscape já dirigiu tanque de guerra, já deu tiro e aprendeu como usar explosivos. Claro, tudo isso “num ambiente controlado”´.

Controlado até que ponto? Em uma de suas idas ao Afeganistão, Adriano ficou durante 10 dias numa das bases britânicas e, segundo conta, sua liberdade para ir e vir era a de alguém cuidado por uma babá. Não sem motivo: nessas bases nem todos os soldados são britânicos. Há afegãos entre eles, mas “todos estão desarmados”, sublinha o vocalista da Brainscape. A mensagem é clara e humilhante: embora tenham sido treinados pelo exército inglês, os afegãos são considerados não confiáveis. Outra forma de controle: “Quando morre alguém, o que acontece a toda hora, a comunicação com o mundo fora da base através da internet é imediatamente cortada e só é restabelecida depois de a família do soldado ter sido informada por alguém especialmente encarregado de lhe levar a notícia triste”.

O vocalista da Brainscape já observou também que há uma grande diferença entre o comportamento dos soldados da Grã-Bretanha e os dos Estados Unidos. De um britânico, ouviu que estar no Afeganistão “é um trabalho”. Surgiu quando estava desempregado, contou.  O soldo que recebe por esse ofício não lhe garante o dia seguinte, mas ele não pensa sobre isso. Também para isso serve a típica fleuma britânica. De norte-americanos, “que parecem cachorros raivosos até na forma como se movem e olham”, Adriano ouviu que “estou aqui para matar talibãs”. Será esta a metáfora para o que chamam de amor pela pátria?

A diferença existe também no tratamento que os superiores dispensam aos subordinados. “Os comandantes britânicos são mais relax e tratam bem os seus soldados”, que não podem ficar mais do que seis meses na base; os norte-americanos ficam 18 meses e “são tratados como cachorros pelos superiores deles”. Mesmo assim, há espaço para o humor e seus alvos são os integrantes do grupo Talismã: quando a tropa sai em missão, devidamente motorizada, são eles que fazem o abre-alas desse carnaval de horrores, abrindo caminho a pé para fazer a varredura cujo objetivo é detectar a existência de minas terrestres. Nesse caso, a brincadeira é sobre o que vai sobrar de quem pisa onde não deve e pode até ser entendida como absurda e agressiva, mas funciona para administrar a tensão causada pela constante consciência do perigo.

É uma válvula de escape. Mas não a única.  A comida também desempenha um papel de conforto, especialmente o semanal Surf and Turf, que acontece sempre na sexta-feira, oferecendo “lagosta e carne bovina”. Adriano Almeida diz que nada se iguala no setor. “É a melhor que já comi.” Detalhe importantíssimo: a empresa que a fornece é a KBR – Kellog Brown and Root -, que é uma subsidiária da Halliburton, multinacional que fornece apoio logístico na exploração do petróleo mundo afora e emprega os mercenários da Blackwater para cuidar da segurança. Inclusive no Brasil, em reservas indígenas na Amazônia e em plataformas da costa, segundo denúncia feita pelo general-de-brigada da reserva Durval Antunes de Andrade Nery. Dick Chenney, vice-presidente dos Estados Unidos durante o governo George W. Bush, tem vínculo estreito com a Halliburton, e isso certamente favoreceu também a KBR, que atua nas bases militares britânicas no Afeganistão como um polvo, explorando todos os serviços, da lavanderia à cantina.

harryUma boa comida. Até o príncipe Harry entra na fila. Um show alegre, com hora e meia de duração. Um e outro têm seu valor, com toda a certeza. Mas não conseguem impedir o acúmulo da tensão residual, permanentemente alimentada nas zonas de conflito, até como forma de deixar o soldado em prontidão. Então, quando chega a hora da baixa não basta trocar o uniforme pela calça jeans. Por isso, antes de mudar o figurino, os britânicos passam pelo processo de “descompressão”, o que significa cuidados médicos, psicológicos e assistência religiosa. O objetivo é a reinserção social. Para facilitá-la, os que vão embora recebem aconselhamentos, inclusive sobre como devem, por exemplo, lidar com as decisões que suas mulheres tomaram enquanto eles estiveram longe. Ouvem que devem respeitar essas decisões. Para completar, a programação também prevê diversão na praia, shows, sessão de cinema e churrasco. Tudo isso fora do Afeganistão, em lugar que Adriano não revela e onde sua banda também se apresenta em espetáculos de meia hora. Só depois de cumprir todas as etapas o soldado é liberado e pode voltar para casa.

Reconhecimento

165Adriano Almeida é um leitor atento e crítico das notícias impressas nos jornais. Ele sabe que a verdade nem sempre está na vitrine, ao alcance dos olhos de quem passa por ela. Em se tratando das guerras, ela é quase sempre a primeira vítima, mas se dá conta disso somente quem afasta as cortinas construídas com discursos. Então descobre o que existe atrás das máscaras e dos argumentos que encobrem os interesses econômicos de grandes empresas em associação com os governos. Todos em busca do poder.

Consciente. Lúcido. Sempre “numa boa”, Adriano tem levado muita alegria aos militares, que dançam e cantam com ele. Não está rico, se o que se entende por riqueza é uma farta conta bancária, mas gosta do que faz. E isso já foi reconhecido, quando recebeu a “medalha excelência por serviços prestados ao comando da base Camp Bastion”, de um comandante norte-americano.

Aos 35 anos de idade –vai completar 36 no dia 30 de setembro – Adriano sabe valorizar o que vê nos lugares que conhece e o que ouve das pessoas que encontra. Fatos, lugares e pessoas vão se somando para lhe dar uma respeitável experiência de vida. E disso faz parte a percepção de que a esperança sobrevive até mesmo no inferno que as guerras produzem e deixam como rastro.

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