Entre o sonho e a vigília

– Nem sei o nome deles. Mas vi como foram se aproximando dos quarenta e dos cinquenta.  Nesse meio tempo doutor, e o senhor sabe disso tão bem quanto eu, muita coisa rolou nesse planeta. O Muro de Berlim caiu, a União Soviética se desmanchou, o homem pousou na lua, Dolly nasceu e morreu de velhice na primeira infância, a ciência criou a mãe independente e o espanto diante do amor homossexual se perdeu em alguma parte ao longo do caminho. Claro, o mundo continuou se engalfinhando por um pedaço de chão, em nome de Deus e em nome do petróleo. Mas eles ainda ficavam ali, lado a lado na janela, olhando a rua. Não se falavam. Apenas olhavam a paisagem, fazendo parte da minha.

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– A janela está fechada. E isso já faz mais ou menos uma semana. Olha doutor, eu mentiria se dissesse que não sinto falta dos dois. Ele, com esse ar de gente comum. Feio? Não, acho que não. Nem bonito. Comum, assim como as pessoas são quando parecem normais. Claro, nunca souberam disso, mas eram a minha referência de hora e lugar. Aliás, para ser bem sincera, alguma coisa mais. Diria até que funcionavam como um toque de tranquilidade instaurado no meu caos. Estranho… falei “meu caos”, doutor?

………………….

– É, falei. Pois é. Já sei. Na última vez em que vi os dois juntos na janela, a rua estava excepcionalmente calma. Recordo que caminhava em direção à avenida e que diante dos meus olhos tudo parecia tão… Como vou definir isso…? Já sei, como se a vida estivesse em suspensão. Então, subitamente, vindo não sei de onde, o vento encanou entre o viaduto e os prédios, levantando uma poeirama que não me deixava ver um palmo além do nariz e virou as latas de lixo sobre a calçada.

…………………..

– Sabe, doutor, eu também manteria a janela fechada depois de um vento como aquele. O senhor não?

– Seu tempo terminou por hoje. Até a próxima sessão…

x.x.x.x.x.x.x.

O tempo passou. Entre uma sessão e outra. Rápido. Continuo percorrendo as ruas da cidade. Mas na semana passada senti repentinamente um medo irracional antes de abrir a porta da minha casa. Então, na mesma hora, decidi que procuraria uma ajuda, outra vez. Abri o guia telefônico e, de olhos bem fechados, deixei o dedo cair sobre a lista de psiquiatras. Dois dias depois estava lá. Mas desisti. Logo na primeira conversa, ele me apontou “senta ali”. E eu, que já estava sentando naquela poltrona onde não ficaria com a cara na luz, achei que não conseguiria respirar naquela sala. E me dei alta. Tá bom. Reconheço que sou – não sei se por herança ou por criação – povoada da cabeça aos pés por esse medo infame de ser asfixiada.

Mas devo confessar que ando mais inquieta do que o normal. E me ponho a caminho na manhã de sábado. Vou ao encontro de Freud, que espera por mim – e a todos os que visitam a exposição Freud para Todos. Dou de cara com ele assim que atravesso as duas portas interiores do prédio. E paro para vê-lo melhor.

banderasAssim ampliado, dou-me conta do que nunca tinha visto antes, sei lá por que, nas fotos em que ele se tornou familiar ao mundo: era bonito o Pai da Psicanálise. Sedutor. Uma das mãos na cintura, a outra segurando um charuto aceso, ele mais parece cavalheiro mouro nessa postura em que o ar de desafio se desmente no olhar contemplativo. Uma dupla mensagem. Um Zorro. Pronto para uma luta de capa e espada com as neuroses do mundo. E isso vai de mãos dadas com uma reflexão que deixou a respeito de seu jeito de ser:

– “Quando se foi o favorito incontestável da mãe, conserva-se ao longo da vida essa sensação de conquistador, essa confiança no êxito que frequentemente atrai o próprio êxito”.

Olho em volta. Ninguém que me anime a tirar da concentração para trocar uma ideia. Então falo com meus botões. E me pergunto: “As mocinhas de Viena conheciam esse lado freudiano?” E me respondo: “Acho que não”.

Mas ele conhecia o lado interessante de algumas mocinhas. Uma e outra já nos trinta. Anna O. se acomodou no divã dele e serviu de matéria-prima para o que ainda hoje, mais de um século depois, se aceita como próprio da condição feminina na natureza humana: a mistura desequilibrada de razão (pouca) e de emoção (excessiva). Mas agora, vendo-o nesse imenso painel, tão soberbo e tão contido no seu colete, também me pergunto: o que mudaria nas suas teorias se as estruturasse a partir das minhas confissões, ou das confissões de uma mulher do século XXI? Essa mulher que busca um sentido para seus neurônios para além do papel que lhe foi designado pelo homem em sucessivas civilizações. Essa mulher que não reconhece na aceitação da dor uma forma de ser feminina, que se recusa a pagar o preço do prazer estipulado na Bíblia e que não aceita o despejo do paraíso… aliás, nem acharia conforto nesse paraíso…

Atravesso o labirinto e não resisto à provocação que a curadoria colocou nas paredes laterais. Viro criança, espio pelo buraco da fechadura e vejo uma rua de Viena, o divã de Freud, um desenho dele. Nada especialmente revelador. Logo em seguida desemboco diante de um telão em que as imagens dançam. Tão rápidas quanto as ideias que me tiram o sono depois de um dia cansativo, quando basta deitar a cabeça no travesseiro para entrar em desavença comigo mesma. O pânico sempre me joga da cama, em fuga. Do quê? Ah se eu tivesse a resposta… Ah se eu tivesse a coragem de buscar a resposta…

E quem me dera tivesse talento para olhar essa resposta de perto e, então, diante de um cavalete, transformá-la em metáfora que atiçasse corações e mentes. Mas não tenho. Falta-me talento. E, assim, sou apenas mais um dos tantos que param diante das telas de gente como Marc Chagall, buscando nelas algo que me traduza. Que me explique, quem sabe, na descoberta de que tenho companhia quando sinto que Picasso, que não está nesta exposição, também me definiu quando descreveu o quarto escuro que carregou dentro dele pela vida afora: “Sou como um rio que leva consigo todos os miasmas que encontra nas suas margens”.

– Acho que meu rio está perdendo o fôlego de uns tempos para cá, doutor. Canta meio desanimado e flui cada vez mais lentamente sobre as pedras. Algumas vezes suas águas se enredam nos braços dos arbustos que crescem nas margens e acho que lá adiante ele vai virar represa…

– Sobe a escada, Maria. É o conselho que imagino ouvir de Cyro Martins, quando me detenho diante do que foi seu consultório. Lembro-me do dia em que me recebeu para uma conversa sobre o relançamento da trilogia do Gaúcho a Pé, em que descreve o drama do homem que a pobreza expulsa do campo, o seu habitat natural.

PrintObedeço. Vou. Um degrau depois do outro, até completar a espiral que me deixa, arfante, na antessala do Museu do Inconsciente, o “quarto escuro”, o útero em que a humanidade avança, de geração em geração, sobre uma base que não propicia um caminhar harmonioso, porque é feito de colinas e depressões. Uma base tão irregular quanto são as emoções, que correm de ponta a ponta, do riso à lágrima, da declaração de amor à rejeição.

Mas o “quarto escuro” também me apresenta Carl Gustav Jung nesse universo freudiano. E Freud Para Todos se explica aqui, na interpretação dos símbolos que colocamos nos nossos sonhos e no que produzimos: a cobra, que muda de pele, significa regeneração, mas também sinal de alerta; o pássaro é o desejo de espiritualidade; o coração à mostra é a sabedoria feminina do sentimento.

adelina gomes inconsc2Também encontro Adelina Gomes, uma brasileira que renunciou ao amor por exigência da mãe. A pobre não aguentou. Então surtou e se transformou em planta nas telas que pintou no hospital psiquiátrico. O texto ao lado diz que ela reviveu o mito da ninfa grega Dafne, que fugia do assédio de Apolo. Mas Adelina, que certamente nunca ouviu falar em Dafne e Apolo, só queria fugir da dor. “Eu queria ser flor”, disse. A flor precisa de luz e a moça brasileira, “tão ligada à mãe que não conseguiu desenvolver seus próprios instintos”, salvou-se na adoração ao sol, “o impulso para sair das trevas”. E pintou coisas tão expressivas, que me dão vontade de chorar.

– Adorei as telas da Adelina, doutor Cyro. Mas não encontro uma boa resposta para a pergunta que martela minha cabeça: a Adelina Flor é dor ou já é a luz em que a Adelina se iluminou quando estava em fuga?

– Você acha que isso é muito importante?

– Sim.

– Então me diga: é dor ou é luz?

Mulher-flor– Prefiro acreditar que seja luz. Gosto disso, de pensar que, no final das contas, ela conseguiu escapar. Gosto de acreditar que, transformando-se em flor, de certa maneira ludibriou a mãe e sobreviveu numa linguagem própria, que ela mesma criou para si, podendo falar sobre como se sentia. Acho que arrumou um jeito de se tornar independente e até de se preservar. Pode ser que eu esteja totalmente errada, doutor, mas é a tal coisa: “de Freud e de louco, todos temos um pouco”. Não é o que foi usado como mote para divulgar Freud para Todos?

– É verdade…

– Mas olhe, antes de ir embora, queria lhe dizer que de tudo o que vi e aprendi aqui, vou levar também a mensagem que encontrei num dos bilhetes da instalação em frente ao Museu do Inconsciente. Ele expressa um desejo.

– Sim, e qual é?

– Simples: “Que o homem tenha piedade do homem”. Isso me remete ao primeiro de seus textos no livro O Mundo em que vivemos, aquele que fala sobre a guerra, analisando os motivos que os homens têm para fazê-la. Um dos pensadores que o senhor cita diz que o primeiro desses motivos é a defesa contra o inimigo interno – “isto é, de aflições autodestrutivas”. Outro seria o desejo inconsciente de “exterminar os varões jovens”. E aí me sobra uma pergunta: Será que isso se aplica a gente como Bush?

– Bom, aí estás trazendo um caso em particular e eu não saberia te responder. Ele nunca frequentou meu consultório.

– Pois é, mas pode ter frequentado outro. E se isso aconteceu, fico aqui pensando que alguma coisa deu errado. Se não frequentou, então certamente acha que está no bom caminho. De maneira ou de outra, isso prova que Freud Para Todos é uma utopia. Ele é para todos aqueles que são capazes de ver valor no desejo expresso no bilhete de que lhe falei: “Que o homem tenha piedade do homem”, para que as pessoas possam ficar na janela, sem medo do Minuano que encana entre viadutos e prédios.

Obs: para publicar este texto contei, mais uma vez, com a colaboração sensível e inteligente de Gilian Gomes.

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