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hugo chaves 2imageImpetuoso. Emocional. Matreiro. Valentão. Raivoso e debochado. Motivo de riso muitas vezes. Em outras tantas, respeitado por sua coragem e veemência. Um ser humano e um político cheio de controvérsias. Amado e odiado também na Venezuela, país cuja economia depende do petróleo, um recurso natural finito que tem justificado guerras baseadas em mentiras. Esse era Hugo Chávez, o presidente de quem os venezuelanos – não todos, porque ele também conseguiu fez muitos inimigos políticos no país – estão se despedindo. Além do choro de seus admiradores – entre eles há os que o comparam a Cristo porque conseguiu passar a imagem de amigo dos pobres em seu governo de 14 anos – há manifestação de todo tipo nos veículos de comunicação tradicionais e virtuais.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra aconselham os experientes no balanço da vida. E talvez seja esta também a melhor maneira de analisar o tempo dele como líder na Venezuela. Foi em busca dessa visão mais fria – menos contaminada que a dos telejornais da TV Globo, por exemplo – que acabei encontrando um texto que me parece um primor de equilíbrio, pois não cai na armadilha de santificar ou demonizar Hugo Chávez.

Christian RieckA análise foi publicada no jornal Zeit, da Alemanha, e seu autor é Christian E. Rieck, analista sênior para potências regionais e para a América Latina no Global Governance Institute, em Bruxelas. O foco do trabalho dele são os mecanismos regionais de integração e as dinâmicas de poder na América Latina e além dela.

Nova versão do caudilho lationoamericano

O Messias do Orinoco foi para casa. Hugo Chávez comandou uma guinada política na Venezuela que, muito justamente, pode ser definida como revolução. Em sua liderança estava um profeta mobilizador e um homem de ego muito forte. Era mais Juan Domingo Perón que Simón Bolivar: era uma nova versão do caudilho lationoamericano, com bilhões em petróleo e muito carisma. Impôs a Revolução Bolivariana com a força de um trator no país, deixando um vale de destroços para trás.

Mas o que vai ficar da Revolução Bolivariana? Regionalmente, os novos mecanismos de cooperação vão sobreviver à mudança de poder; da mesma forma, a predominância da esquerda e sua cultura política se fortalecerão. Nacionalmente, vão permanecer: um espectro partidário modificado, as instituições que combatem a pobreza e a continuação do sistema político centralizador. No todo, um balanço dos 14 anos da Revolução Bolivariana institucionalizada mostra a prevalência da austeridade durante o governo de Chávez.

O projeto bolivariano construiu na América Latina novos mecanismos de cooperação e a Venezuela se tornou um país que é levado a sério entre as lideranças regionais, mas isolado em âmbito internacional por causa da retórica de Chávez, cheia de agulhadas. Não por causa da sua polêmica oposição à política dos Estados Unidos, mas por causa dos seus ataques aos capitalistas e aos conservadores na própria Venezuela e nos países vizinhos.

hugo-chavez-loveSeu comportamento levantou suspeita na região, paralelamente ao apoio. Com sua política de assistência aos pobres, enfatizando a necessidade de haver uma distribuição de renda mais justa, ele ganhou imensa popularidade no meio de grande parte do povo venezuelano. Em contrapartida, seus críticos o acusam como “autocrata”.

O estado de direito esvaziado

Mecanismos de cooperação como a Aliança Bolivariana pela América (Alba) serviram acima de tudo à imagem de Hugo Chávez. Mas cobrou um alto preço: a Venezuela se viu obrigada a comprar essa aliança subvencionando fornecimentos de petróleo.

Dentro da própria Venezuela, o bolivarianismo rapidamente enterrou a democracia e o estado de direito. Ao mesmo tempo, permitiu que a segurança e a corrupção saíssem de controle. Os cofres públicos foram zerados. Seria para fazer investimentos bilionários em energia, transporte e infraestrutura da indústria petrolífera, prometia Chávez, mas a falta de energia e as greves se tornaram rotina em Caracas.

Hugo Chávez assumiu o poder em 1999. Naquele momento, o povo venezuelano respirou cheio de uma alegre esperança, comemorando a nova e quinta república. Mas ela tirou de cena os partidos tradicionais, silenciou os veículos de comunicação e criou uma cultura política polarizadora para divertir o povo.

Uma nova classe de aproveitadores

O bolivarianismo não se apossou apenas do Parlamento e da Presidência. Fez muito mais: colonizou todas as instituições políticas – principalmente o exército e o conglomerado de petróleo PDVSA, ao lado da PSUV (Partido Socialista Unidos). Estes são os mais importantes pilares da Revolução Bolivariana. Com Chávez, os pobres encontraram um lugar na sociedade, ainda assim houve espaço para o surgimento de uma nova classe de aproveitadores, que se beneficiaram da proximidade com o centro do poder.

A ruptura social em uma situação de antagonismos políticos, disso o bolivarianismo não pode ser responsabilizado, mas ele a reforçou e a levou a uma surpreendente escalada até a guerra. Em uma moldura política como essa – institucionalizada – encontrar um compromisso com a democracia é hoje impossível. Mas exatamente isso era necessário à transição em direção a um novo Estado, regenerado em sua política e na justiça.

Chávez gostava de salientar que antes de 1999 a Venezuela tinha apenas dois partidos. Era o assim chamado Puntofijismo, que ele definia como a raiz de todos os males. Mas agora, sob o domínio do bolivarianismo, a cultura política venezuelana continua sofrendo danos. Hoje esse argumento de Chávez vale menos que a polêmica, e os opositores políticos podem ser atacados como inimigos do Estado e lacaios da direita.

Depois do Washington Consensus (1989) e seu programa neoliberal que estabelece regras para a economia na América Latina (nota no final), a Revolução Bolivariana empurrou seu discurso para a esquerda, dentro e fora do país, e, com isso, deu novo alento aos esquerdistas. Mas hoje, até mesmo a oposição Topoi, que já foi estimulada pelo bolivarianismo, pede o combate à pobreza, à corrupção e pede um desenvolvimento econômico mais justo.

Um fato é que a revolução transformou a emancipação dos pobres no objetivo de uma luta de classes para mudar radicalmente as relações de posse nas classes sociais. Mas no caminho do socialismo dos trópicos, tanto os opositores quanto os representantes do governo têm diante dos olhos a Cuba comunista, que reflete a Venezuela radicalizada não desejada pela maioria da população do país.

A Revolução Bolivariana quis dar voz aos pobres

A crescente radicalização da revolução, juntamente com a queda da qualidade de vida, cobrou um preço ao bolivarianismo: os votos dos eleitores de primeira hora nos bairros pobres de Caracas – apesar do aberto clientelismo, que amarra os programas sociais à lealdade política, mesmo que a agitação seja permanente.

A Revolução Bolivariana queria emancipar os pobres do país e lhes dar politicamente uma voz. Para isso, abriu entidades nos bairros pobres, onde passou a oferecer assistência médica gratuita e campanhas de alfabetização, além de subvencionar o fornecimento de alimentos. Também criou uma máquina política que tem como finalidade diminuir as diferenças na Venezuela. O problema é que essa máquina lançou os pobres em uma dependência política, econômica e ideológica da qual dificilmente poderão ser libertados novamente.

chaves com o povoEm seus aspectos escuros, o bolivarianismo se parece com os males dos velhos tempos, pois o clientelismo, o corporativismo e a corrupção contaminam o sistema político da Venezuela desde antes da entrada em cena de Chávez como presidente. Para Nicolás Maduro, o sucessor do Messias, não será fácil ganhar os votos do ex-presidente e evitar o crepúsculo do bolivarianismo. Em todo caso, ele herda um legado que em seus símbolos políticos de poder e de justiça é mais forte que outro antes na história republicana da Venezuela. Também isso deve ser levado em conta quando se analisa os muitos significados da herança bolivariana. Ainda assim, uma coisa é certa: dessa experiência política o país não vai se recuperar ao longo de muitas décadas.

Washington Consensus: a expressão foi criada em 1990, por John Williamson, para significar “o mínimo denominador comum de recomendações de políticas econômicas que estavam sendo cogitadas pelas instituições financeiras baseadas em Washington D.C – entre elas o FMI –  e que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina, tais como eram suas economias em 1989.

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