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moscadomest[1]São tempos bicudos, esses. Ouço isso desde criança e, agora, já sei que cada época tem seus demônios e santos. Em qualquer parte do mundo, inclusive no Vaticano, agora em conclave para a escolha do sucessor de Bento XVI. Mas, ainda falando em santidade, outro alerta que não perde validade é este: cuidado com o andor, porque o santo é de barro. Em outras palavras, só o que mudou na viagem do tempo são as moscas que voejam disputando um naco do poder. Quer dizer, no quartel de Abrantes, em Roma e no Brasil tudo está como dantes.

Quando criança, depois quando adolescente, ouvia e via meu pai e amigos discutindo os rumos da política brasileira – hoje concordo com quem afirma que ela tem mais a ver com bandidagem. Mas, enquanto meu pai tecia teorias, minha mãe, com os pés bem fincados na realidade, plantava flores para enfeitar a casa e cuidava da horta, porque se preocupava com o valor nutritivo da comida que serviria à família. Cumpria essas frivolidades ou banalidades (?) que a condição feminina então impunha com mais força.

Meu pai nunca se desapaixonou de Mathilda. Mesmo assim via nela um defeito. ´”É muito cética”, acusava. O sangue francês falava alto nessa linda mulher… Mulher de pouca fé!  Aos meus olhos de criança, ela também parecia assim sempre que balançava a cabeça diante da empolgação do marido, enquanto Jânio Quadros percorria o País com a vassoura e prometia varrer a sujeira acumulada debaixo do tapete. E? Depois, eleito, anunciou uma renúncia que pretendia ver contestada, mas foi aceita, e mergulhou o Brasil numa crise constitucional.

 Muitos anos adiante, o discurso de Jânio foi o de Collor de Mello, que prometeu acabar com os marajás, mas confiscou o dinheiro da poupança e só descobriu que Fazenda e Justiça se enrodilhavam nos lençóis quando o Besame Mucho escancarou o affair de Zélia Cardoso de Mello e Bernardo Cabral. O reinado dançava, mas o presidente não imaginava que estava profetizando a perda de seu mandato quando prometeu a verdade ”duela a quien duela”. Menos mal, o impeachment de Collor melhorou a política… Que nada! O velho discurso serviu novamente, em 2006, aos que estavam em campanha eleitoral à Presidência da República. Haja paciência!

Continuamos com buracos no ensino de todos os níveis, a insegurança aumenta a cada dia, o desemprego facilita a vida dos narcotraficantes, a saúde está na UTI… Tudo isso os candidatos garantem sempre que vão resolver. De onde tiram tanta cara de pau? Ouvi esta promessa em campanhas anteriores e, em alguns casos, do mesmo político. Então, ele próprio não a cumpriu. E quer que lhe dê meu voto? Dou-me conta de que preciso fazer justiça à sabedoria de minha cética (?) mãe, à qual toda essa mesmice desavergonhada me devolve.

Lembro que a descrença de Mathilda em relação aos políticos era tamanha, que ela acabava votando, sim, mas para se livrar do zumbido que a insistência de meu pai produzia nos seus ouvidos. Se me parecia atitude de gente birrenta a resistência dela na época, hoje a compreendo. Acompanhando o andar da carroça nacional ao longo das décadas, constato que, de uma campanha eleitoral à seguinte, fica mais difícil encontrar uma abóbora que não esteja apodrecida ou em processo de apodrecimento. E concluo que o problema de minha mãe não era a falta de fé. O problema dela era onde e em quem colocar essa fé. Ela queria acreditar. Como eu gostaria agora. Só não havia em quem. Como agora. Mas, como ela, terei que votar nas próximas eleições.

Mas antes terei que aguentar, mais uma vez, o horário político gratuito nos veículos de comunicação despejando toda aquela conversa fiada em que transforma temas da maior seriedade. E tem gente se preparando. Aécio Neves é um deles. Ele já está escolhendo o discurso com que pretende evitar a reeleição de Dilma Rousseff se for confirmado candidato à Presidência da República. Nunca me convenceu. E não será desta vez.  Aos meus olhos de eleitora, ele sempre foi e continuará sendo apenas o neto de Tancredo Neves.

Alguém novo no horizonte da política nacional? Isso não acontece há muito tempo. Mesmo quando o nome aparece pela primeira vez, ele significa continuidade, porque só chega à condição de candidato quem se submete às regras do partido e a seu conteúdo programático. Ou quando, como no caso do neto de Tancredo, do neto de Antônio Carlos Magalhães – o painho dos baianos – e da filha de José Sarney, herda o lugar na vitrine política. Será que um papa brasileiro faria o milagre de que o Brasil precisa e me devolveria a fé? Acho improvável, porque ele impõe um mundo masculino masculino demais, o que também deixa tudo igual.

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