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Falou bem na Associação Rio-grandense de Imprensa (ARI), sábado passado, o deputado Eliseu Padilha, que é do PMDB. Ele não estava lá para pedir votos. Afinal, como tratou de deixar bem claro assim que começou a falar, não será candidato nas próximas eleições. Estava como representante da Fundação Ulysses Guimarães, na qual exerce o cargo de editor-chefe da revista Ulysses.

eliseu padilhaO nome de Eliseu Padilha, nascido em Canela, não me é estranho há muito tempo. Na verdade, ouço falar sobre ele desde a década de 1970, quando comprei um terreno em Nova Tramandaí, vendido pela empresa Kury & Padilha. Muita água rolou por debaixo da ponte depois disso. O terreno continua lá, obviamente. Nunca mexi nele, mas a cobrança do IPTU não falha. O empresário Padilha alçou voo para dentro do espaço político e continua sem motivos para queixas, já que sua trajetória inclui o cargo de ministro dos Transportes (governo FHC). Nada mal.

O outrora empresário, que também é advogado, hoje fala com mal disfarçado orgulho de conquistas acadêmicas como os cursos de pós-graduação na área do Direito e da Ciência Política. Ao longo desse processo, ele não perdeu tempo. Foi diligente, recolhendo informações que agora lhe permitem injetar declarações de filósofos como Aristóteles e Platão em suas palestras. Nada mal. Faz uso delas para dar relevo à sua visão de como deve ser o exercício da política.

Longe, muito longe do que é. Infelizmente, segundo Padilha, a política que se faz no Brasil – isso vale também para o Rio Grande do Sul dos eternamente maragatos e chimangos – comete o pecado mortal de ser essencialmente partidária. Isto é, coloca o partido acima das necessidades da Nação. Não disse por quê. Sentada lá, no meio do povo ouvinte, até tive vontade de me manifestar. Mas calei o que penso. Explico: tive receio de ser absolutamente redundante, pois acredito que ninguém daquela gente toda – jornalistas experientes como Batista Filho e Ercy Torma, presidente e ex-presidente da ARI – desconhece esse fato lamentável, que, como também afirmou Eliseu Padilha, faz com que um governo não valorize o que o anterior realizou. O discurso de quem o sucede no poder, quando não é de negação, é o de apontá-lo como autor de um legado que impede o cumprimento das promessas feitas na campanha eleitoral. Simplesmente porque é de outro partido.

A fala de Padilha estava, então, chovendo sobre um chão já encharcado pelo conhecimento dos fatos que falta aos que, “por ignorância”, menosprezam a importância da política? Estava. Mas, convenhamos, não é todo dia que se tem a oportunidade de ouvir um deputado que faz parte da engrenagem e, provavelmente, também foi beneficiado por ela em algum momento, reconhecendo essa prática dentro dos partidos – inclusive do seu -, como uma das causas dos males que acometem a Nação. Precisamos acabar com isso, diz. De que jeito?

A mudança tem que começar no meio do povo, acredita. E acredito. Faz sentido, porque os políticos não nascem na Câmara dos Vereadores, na Assembleia Legislativa, na Câmara dos Deputados e no Senado, lá no planalto. Eles nascem na planície, no vale. É onde aprendem as noções de moral e ética de que precisam para não se deixarem contaminar pelos que usam o poder em proveito próprio e alimentam o círculo vicioso da corrupção. De um quitandeiro já ouvi que “em Brasília todo mundo rouba; se estivesse lá eu faria a mesma coisa”. Isso precisa acabar. Como editor da revista Ulysses, Padilha afirma que deseja contribuir com um trabalho “científico” – ele seguidamente usa esta palavra – para abrir os olhos do povo e conscientizá-lo de sua força para melhorar o exercício da política no Brasil.

revistaO deputado vê a revista como instrumento dessa mudança. Por isso, segundo diz, combate nela, até onde lhe é possível, o viés da partidarização. Confessa que “às vezes não há como negar a veiculação de uma notícia específica do partido”, mas acrescenta que a predominância é de artigos e abordagens que interessam ao leitor em geral. Assim, o carro-chefe desta edição, a de número 12, é a entrevista com o professor Marcos Troyjo. Doutor e mestre em Sociologia das Relações Internacionais, ele dirige o BRICLab da Columbia University, de Nova Iorque, e, em conversa com a jornalista Thatiana Souza, fala sobre nosso papel no cenário econômico internacional. Prevê, segundo a matéria, que o “futuro do Brasil começará de fato apenas no dia 1º de janeiro de 2015”, necessariamente precedido por “um pacto estratégico”.

Pois é. Eliseu Padilha falou bem na ARI. Mas achei que ali estava faltando um público mais jovem. Para o que estava lá, nada de novo foi dito, exceto a decisão de não concorrer nas próximas eleições. Valeu mesmo assim. E valerá de verdade se a defesa que fez da necessidade de os políticos se unirem em benefício da Nação – deixando de lado a partidarização – for mais que uma estratégia em busca de votos, entre as tantas com que tentam nublar a consciência dos eleitores. No meio do povo ouvinte, fui raposa velha, que não se afoba. Ela espera que a uva amadureça antes de colhê-la. É o caso.

A foto é de Vilson Romero

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