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“Queridas trabalhadoras. Queridos trabalhadores”. É a presidente Dilma em cadeia nacional de rádio e televisão, homenageando os brasileiros e as brasileiras que ganham seu pão de cada dia no mercado de trabalho. Neste primeiro de maio ela diz que a situação do país que preside é muito boa se comparada com a de outros países. “O Brasil gerou, nos últimos dez anos, 19 milhões e 300 mil empregos com carteira assinada, e o salário-mínimo cresceu mais de 70% em termos reais. Somente nos dois anos do meu governo foram criados 3 milhões e 900 mil novos empregos. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o FMI, isso nos colocou numa situação privilegiada no mundo: fomos o país que mais reduziu o desemprego entre 2008 e 2012, ou seja, reduzimos em 30% a taxa de desemprego. Por sinal, em 2012 enquanto lá fora cresciam o desemprego e as perdas salariais, aqui ocorria exatamente o contrário”.
Ótimo! Há menos gente desempregada, indicam os números que chegam à mesa de Dilma no Palácio do Planalto, encaminhados pelo Dieese. “Os brasileiros estão se tornando mais iguais”, afirma a presidente, e acrescenta que isso se deve à eficiência da política que tem, entre seus objetivos, a melhor distribuição de renda. E ainda vai melhorar, promete. A educação, por exemplo, ganhará o reforço de verbas oriundas de “todos os royalties, participações especiais do petróleo e recursos do pré-sal”. Nova proposta para tornar essa ideia realidade ela enviou hoje mesmo ao Congresso Nacional e, convenhamos que é um bom motivo para que “trabalhadoras e trabalhadores” aceitem seu apelo e “acreditem apaixonadamente no Brasil”.
dilma Mas, enquanto Dilma fala, meus olhos veem. Há muito tempo esses dois operários vêm dando sinais de cansaço, mas continuam extremamente esforçados. São incansáveis. Aliás, muito parecidos com os trabalhadores brasileiros, mesmo quando, como eles, não recebem o cuidado que merecem e não lhes dou direito ao descanso. Quando fecho o livro – Marighella, de Mário Magalhães, desvenda o Brasil em que as escolas tocam apenas superficialmente, e ainda não digeri as monstruosidades do tráfico negreiro, praticadas por holandeses, franceses, portugueses e ingleses, que Adam Hochschild conta nas páginas de Enterrem as correntes –, levo-os à janela, de onde captam as imagens da rua; depois, faço uso deles na leitura dos jornais online e, simultaneamente, exijo que nada percam do que se passa na tela da televisão. Sobrecarregados? E como! Mesmo assim conseguem enxergar, confirmando e desmentindo verdades além das palavras.
Agora estão de olho em Dilma. E trabalham. A primeira mensagem que me enviam diz que, pelo jeito, o cargo não pesa nos ombros dela, que até parece mais jovem do que quando assumiu a presidência da República. Alguma ruguinha? Nada. Pele absolutamente impecável. Esticadinha. Ops! Este não é o rosto de alguém que vaga insone pelos corredores da casa, porque as contas não fecham e o mês é bem maior que o salário, apesar das horas extras trabalhadas. Conclusão: o que meus olhos veem quer tranquilizar. A presidente vai bem. Ela dorme bem. Sendo assim, então também podemos – “trabalhadoras e trabalhadores” – deitar a cabeça no travesseiro e adormecer na santa paz. Acredito nisso? Quero acreditar, mas as olheiras que passam por mim nas calçadas mostram que a “política eficiente” do governo de Dilma ainda não conseguiu democratizar o efeito botox da confiança no bem-estar gerado pela melhoria nos índices de emprego e pela melhor distribuição de renda, que ela enfatiza em sua fala à Nação.
Em todo caso, a presidente diz a verdade quando afirma que a desigualdade entre os brasileiros está diminuindo. Mas a igualdade é moeda. E moeda tem duas faces. A violência, por exemplo, está democratizada. Olívio Dutra diria que ela se “espraiou”, colocando grades nas janelas, nos corações e nas mentes. Que horror! Não para quem fabrica as grades. Estamos cada dia mais iguais também na vocação para a corrupção, que apontamos no Congresso Nacional, mas que ensaiamos aqui mesmo, na planície, onde autorizamos o crime contra o meio ambiente – como expõe agora a operação Concutare da Polícia Federal – e produzimos licitações de carta marcada em torno da mesa de entidades aparentemente sisudas, comandadas por empresários aparentemente sisudos. Que nó! Nessa moeda, o inimigo político de hoje é o aliado de amanhã se isso levar um e outro ao poder. A conveniência legitima a incoerência no jogo político. E os fins justificam os meios.
Imperdoável. Até para Deus, sobre quem se diz que é brasileiro, mas atravessou a fronteira. Mudou-se para a Argentina. Lá não tem samba, mas tem tango e tem futebol. Do bom. Não bastasse o Messi ameaçando o reinado de Pelé, agora nossos vizinhos têm uma rainha consorte na Holanda, a Máxima. E tem o papa Francisco. O efeito botox da Igreja Católica. Funciona para quem acredita. O problema é no que acreditamos.

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