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Talentosa. Carla Bruni é assim. Primeiro ganhou fama nas passarelas da moda. Depois resolveu cantar. E faz isso muito bem, com uma voz que chama atenção pela sutileza, em inglês, em francês e em italiano.Carla-Bruni_ACRIMA20110225_0016_13
Já era figura bem conhecida quando virou primeira-dama da França, casando com o então presidente Nicolas Sarkozy. E mostrou outro lado de sua sensibilidade: como o marido é mais baixo que ela, Carla Bruni renunciou ao salto alto e, a partir daí, ficou ao lado dele em scarpin, que usou também quando foram foram recebidos pela rainha Elizabeth II, na Grã-Bretanha.carla bruni

Mas teve outro cuidado enquanto primeira-dama: foi absolutamente discreta, dentro do possível para quem é celebridade. Chegou a dar entrevistas sobre sua carreira como cantora e compositora, apareceu ensaiando canções no Palácio Eliseu, mas a reportagem também deu espaço a Sarkozy. Agora que ele não é mais o presidente, Carla está retomando sua carreira como cantora. Aceita ser novamente o centro das atenções.

Em entrevista publicada no jornal Zeit online, fala sobre seu tempo como primeira-dama da França e a importância que esse papel teve e ainda tem na sua vida. Fala também sobre suas composições e sobre seus medos. Aos 45 anos de idade e mãe de dois filhos, Carla Bruni tem certeza de uma coisa: “O que importa é que a mulher seja verdadeiramente independente”.

Zeit online: É difícil voltar a trabalhar depois de uma longa pausa?

Carla Bruni: É muito agradável. Mas não foi uma verdadeira pausa. Mas é maravilhoso sair de uma situação oficial, que foi absolutamente fascinante, mas muito política, e retomar coisas que têm mais a ver com meu coração, com meus sentimentos.

ImageZeit online: Agora a senhora está novamente no foco.

Bruni: Não preciso estar sempre no centro das atenções; ao longo dos últimos vinte anos, desempenhei diferentes papeis na vida pública. Hoje isso não mexe muito comigo.  O que interessa é cantar novamente, fazer a minha música, dar pequenos concertos.

Zeit online: E a diversidade de papeis, ser uma estrela, mama italiana e esposa de um político, como tudo isso se harmoniza?

BruniEm minha opinião, a vida da mulher é hoje muito difícil. É fato que ela é, desde sempre, a responsável pela vida afetiva da família e quando se tem uma vocação, isso nos rasga em pedaços. Conhece Françoise Giroud, a grande jornalista, que fundou L’Express? Ela disse: um homem tem sempre uma mulher que se preocupa com o bem-estar dele; uma mulher está sozinha. Todas as mulheres que trabalham estão na minha situação.

Zeit online: Nem mesmo a senhora tem como resolver isso?

Bruni: Só quando se consegue que o dia tenha o dobro de horas. Será que a ZEIT poderia dar um jeito nisso?

Zeit online: Sair da condição de primeira-dama foi um alívio? Estar neste papel foi cansativo?

Bruni: Não, isso não foi pesado. Mas é algo simplesmente maior do que a gente. Na medida do possível, tentei não complicar, mas é um ofício simbólico. A gente precisa viver com ele, ocupar esse espaço, ao mesmo tempo em que está tão longe do que somos.

Zeit online: A senhora foi, de alguma maneira, mal interpretada pela mídia, que talvez não tenha sido justa?

Bruni: Acredito que isso é muito mais simples. Existe o lado midiático da política, no showbusiness assim como jornalismo. Nosso mundo vive da imagem. Ela está em toda parte, todos se mostram o tempo todo na imagem. Andy Warhol disse uma vez que no futuro cada pessoa teria seus quinze minutos de fama. Eu acredito que estamos vivendo isso agora, o futuro preconizado por Warhol.

Zeit online: Sua imagem pública nos anos passados era muito tradicional.

Bruni: Mas não devemos nos deixar aprisionar pela própria imagem. Acredito que precisamos acabar com o desejo de controlá-la. Então somos autênticos. E, no final, nossa verdadeira imagem aparece. Porém, isso demanda muito tempo.

Zeit online: A senhora é muito confiante.

carla_bruni_12Bruni: Sim, eu tenho confiança. Necessitamos disso quando trabalhamos com a própria imagem. Acredito que, quando não temos mais nenhuma confiança, não fazemos mais coisa alguma. Quando temos fé podemos errar, mas então isso não é tão difícil.

Zeit online: Antes de seu casamento com o presidente da França a mídia gostava de tratá-la como “rica, independente, selvagem e amante sem freios. Mais tarde foi comemorada como a melhor mais bonita ao lado dele”.

Bruni: Sim, mas tem pouco a ver comigo, é um papel totalmente tradicional, algo que só tinha ver com o meu marido. Nessa situação, a gente é a companha feminina, isso é normal. A verdade é que já trabalhava desde os 19 anos de idade e que tenho vida própria, que ficou recolhida aos bastidores ao longo desses anos.

Zeit online: Ninguém pede que o marido da chanceler alemã assuma esse papel.

Bruni: Correto. Que as mulheres acompanhem os homens, mas que os homens não acompanhem as mulheres é muito século dezenove. Mas a verdade é que é tudo simbólico. O que conta é a verdadeira independência das mulheres, Não a minha, pois eu sou muito independente. O que importa é que cada mulher seja livre para conduzir sua vida, expressar sua opinião, ter filhos ou não. O feminismo é, no final das contas, uma conquista para todas as mulheres. Que eu tenha acompanhado meu marido por alguns anos, não compromete isso. Gostei disso, gosto de estar com ele. E era a única coisa que eu podia fazer naquele momento. Ele também me acompanha nos meus trabalhos artísticos. Não fisicamente, mas me dando apoio, ficando perto de mim; conhece minhas dúvidas, meus medos.

Zeit online: Medos?

Bruni: Sou muito medrosa. Não dá par aver isso? Ninguém é mais medroso que eu. É muito difícil para um homem conviver com uma artista.

Zeit online: Do que tem medo?

Bruni: Meu medo não tem motive. É sem fundamento. É da minha natureza. Tenho medo, assim como tenho cabelos castanhos ou sou nervosa por natureza. Há pessoas mais equilibradas que eu. Eu amo naturezas ponderadas e filosóficas. Tenho medo, acima de tudo. Mas acredito que somente pessoas medrosas também podem ser corajosas, pois a coragem vem do medo. Acredito profundamente nisso.

Zeit online: A senhora é feminista?

Bruni: Não sou ativa na luta feminista, mas apoio essa luta. Minha geração foi tão beneficiada desse movimento que as pioneiras conduziram para nós.

Zeit online: Em uma de suas canções a senhora diz: “Sou apenas uma menina”.

Bruni: Tenho sempre a sensação de, na verdade, ser uma criança. Não tenho a impressão de ter crescido, de ser adulta. Velha, sim. Mas não adulta. Minha canção interpreta a eterna infância, a juventude eterna. Eu acredito que muitos adultos são, na realidade, crianças. Sempre digo aos jovens: “Só não acreditem que os crescidos são adultos. Somente pessoas terríveis não tem mais sua criança dentro delas. Elas se separaram dela”.

Zeit online: A sensação de ser uma criança sempre a acompanha?

Bruni: Sim, mas a senhora mudou tanto desde que foi criança?

Zeit online: Acho que hoje a vida é melhor do que na minha infância.

Bruni: Verdade?

Zeit online: Sim, quando somos crianças temos que obedecer aos pais o tempo todo. Mas por que diz que suas canções são pequenas canções francesas? O que quer dizer com pequenas?

Bruni: Esta é uma homenagem à canção francesa. Pequena significa apenas uma piscada de olhos. O álbum se chama assim porque gosto das pequenas canções francesas. Isso quer dizer, não são muito longas, não muito orquestradas, um pouquinho tradicionais. Uma mistura de folk e chanson.

Zeit online: Também significa um pouco nessa direção: vamos voltar às raízes?

Bruni: Desde o começo foi assim comigo. Todas as músicas que me permitem sonhar, rir e chorar são assim.

Zeit online: Existe algo como a re-europeização da arte europeia? A nova coletânea de poesias de Houellebecq também é muito francês clássico.

capa de cd bruni 6a0120a5c8d9a9970c0148c686b0b4970c-400wiBruni: Já adotei uma vez o livro dele chamado As possibilidades de uma ilha (no CD acima). É uma poesia em versos alexandrinos! Muito clássica! Sempre volto para a tradição. No momento estou lendo um livro de Virginia Woolf, Mrs. Dalloway, que é triste e maravilhoso, trágico e alegre. Releio Dostojewski, Balzac, Thomas Mann, Maupassant. É verdade, estamos voltando aos clássicos. É um prazer lê-los todos novamente.

Zeit online: Em seu novo álbum, a senhora canta que “todos os sonhos são meio amarelados”. É uma referência ao velho?

Bruni: Talvez também seja uma referência à história da humanidade. Ela já nos mostrou que dá para ser feliz mesmo quando apenas um de seus milhares de sonhos se realizou.

Zeit online: Para a senhora é difícil aceitar o envelhecimento?

Bruni: Para a mulher isso é sempre mais difícil que para o homem, mas não concordo com quem diz que a beleza de uma mulher depende de sua idade. Também acho bonitas mulheres idosas, algumas são muito sedutoras. Na verdade, as mulheres mais velhas têm hoje um poder de sedução muito maior do que as de antigamente, com certeza também porque seu status social é outro. É inacreditável como Meryl Streep, aos 55 anos de idade, e Sharon Stone se conservam jovens. Inacreditável mesmo! Há 100 anos, elas teriam sido velhas, avós.

Zeit online: Então a senhora não teme a velhice?

160814-carla-bruni-637x0-3Bruni: O envelhecimento é um naufrágio. Naturalmente, tenho medo. Mas a velhice ocorre mais tarde. Como atriz é algo diferente, porque se trabalha com o rosto.

Zeit online: Mas a senhora trabalha muito como modelo para a Bulgari.

Bruni: É minha vocação. Trabalho com minha imagem desde os meus vinte anos de vida. Agora estou no showbusiness. Com o rosto a gente só pode trabalhar até uma determinada idade. Mas mulheres que compram artigos de luxo não querem apenas jovenzinhas – que poderiam ser suas netas – nas propagandas.

Zeit online: Como a senhora estará dentro de dez anos?

Bruni: Sou supersticiosa, não penso sobre isso. Tento viver o que a vida me traz. Tento não perder o trem quando ele chega. Isso, convenhamos, tem seu valor. Não é ruim.

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