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euroQuem faz a afirmação do título é Keith Chen, especialista em comportamento econômico. Ele se baseia em pesquisa que comparou os idiomas de vários países 

Por que a crise do euro não se reflete com a mesma intensidade em todos os países da chamada Zona do Euro? Espanha, Grécia e Portugal estão mergulhados em dificuldades, endividados até as orelhas, com a economia praticamente paralisada. O que cresce é a a legião de desempregados. E, entre eles, há cabeças muito preparadas que acabam levando seu conhecimento a outros países e mercados.

protesto imagesA austeridade que a Alemanha vem pregando para que recuperem o fôlego é depreciada, como mais uma demonstração do autoritarismo que levou a Europa a duas guerras no século vinte. Um exemplo dessa postura é o artigo do diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o português Boaventura de Souza Santos, intitulado Por uma alternativa ao diktat alemão. O site Sul21 publicou o texto nessa segunda-feira.

Boaventura escreveu um manifesto cheio de ódio contra o espírito alemão, atribuindo ao germanismo, se não toda, pelo menos grande parte da responsabilidade pela infelicidade em que os portugueses estão se debatendo. O nazismo foi, segundo diz, uma consequência natural desse espírito mau, que agora se manifesta mais uma vez, na crise do euro.

Holocaust_memorial_treeBoaventura me surpreendeu. Especialmente pela desinformação quando, lá no final do texto, afirmou que a Alemanha de hoje tenta soterrar seu passado recheado de crueldades no esquecimento, pois, segundo “inquérito”, é muito alta a porcentagem de alunos que nunca ouviram falar de Hitler. Então o Memorial do Holocausto em Berlim é invisível? O que o cientista social alega também contraria o que vejo na programação da Deutsche Welle, emissora em que, dia sim e dia não, o tema é o nazismo e a responsabilidade que as gerações do pós-guerra têm de assumir pelo mal causado pelos nazistas aos judeus, ciganos, homossexuais e pessoas com deficiências físicas e mentais. O jornalismo impresso também coloca o assunto na capa, como faz nesta quarta-feira.nsu-zeitungen-540x304

Não sei se o sociólogo português fala alemão. Acredito que não. Talvez isso explique a ignorância dele em relação ao que está acontecendo na Alemanha, onde minha prima me confessou que cresceu “sentindo-me envergonhada de ser alemã por causa do nazismo”. Imagino que entre os leitores deste meu texto há quem vai atribuí-lo ao fato de ser descendente de alemães. Sou. Não tenho como negar. Nem quero. É fato. E sei o quanto é difícil ser dessa origem, porque já me apontaram o dedo: “Nazista”! É o pecado da generalização, que eu cometeria se, por exemplo, visse em todo espanhol um saudosista do colonialismo que acabou com a civilização inca no Peru e transformou os negros africanos em mercadoria. Isso, sim, eu me nego a fazer. E não porque também tenho raízes na França e na Itália, mas porque me recuso a colocar todo mundo no mesmo saco.

Mesmo assim, voltando ao mestre Boaventura, teria um conselho para ele: que mergulhe também no passado de sua terra. Ele vai levá-lo aos portos africanos e aos porões dos navios que traziam para o Brasil os negros transformados em escravos; vai trazê-lo ao Pelourinho, na Bahia, cenário de tortura desses escravos; vai levá-lo à origem da desigualdade social que ainda castiga no Brasil os descendentes dos então escravos; e vai levá-lo também à forca de Tiradentes. O doutor verá então que tem telhado de vidro.

criança,lowRes,14388557_jpgQuanto à crise do euro? Ora, se a dose de austeridade sugerida pela Alemanha é intragável, Portugal deve pegar o bicho feio pelos chifres. Deve domá-lo, sem esperar que os alemães tão odiosos abram seus cofres. O certo é que não haverá milagre. Não haverá maná caindo do céu. Não dessa vez. O tempo das especiarias, do ouro extraído das minas brasileiras, da cobrança de impostos que conhecemos aqui como “derrama”, do tráfico negreiro e do pau-brasil não vai se repetir.

A Alemanha? É certo também que, há décadas, os alemães poupam mais do que as populações de outros países. Keith Chen, professor de economia na Yale School of Manegement, nos Estados Unidos, observou isso e foi em busca de uma explicação. Agora, baseado nas pesquisas que fez, ele não aponta essa característica como decorrente da arrogância, mas como algo que tem a ver com a língua, “sem futuro”. Sua tese foi publicada na American Economic Review. É interessante. Só não concordo quando diz que a forma como os alemães falam também os torna menos vulneráveis ao hábito de fumar, porque eles fumam prá caramba. O ex-chanceler Helmut Schmidt é um exemplo disso.

keith_chen_tedglobal_ah_1_51638Zeit online: O senhor defende a tese de que as pessoas poupam mais ou menos dependendo da língua que falam. Isso surpreende. Como chegou a isso?

Keith Chen: Em um dos meus estudos escolhi, inicialmente, uma abordagem linguística, para esclarecer por que alguns seres humanos economizam. Meu raciocínio foi o seguinte: existem, evidentemente, línguas nas quais o falante precisa usar o futuro quando quer falar do futuro. Paralelamente, existem línguas nas quais se usa o verbo no presente embora se queira falar sobre o futuro. A essas línguas eu chamo “sem futuro”. A atualidade e o futuro se fundem imediatamente.

Zeit online: Pode nos dar um exemplo disso?

Chen: Veja o caso da língua alemã. Em alemão o senhor pode dizer: “Amanhã eu poupo.“ Uso o verbo no presente, embora esteja me referindo ao futuro. Da mesma forma é possível dizer: “Amanhã irei poupar”. As duas formas funcionam, mas eles usam a primeira. Na língua inglesa é diferente. O gramaticalmente certo é somente quando digo “amanhã irei poupar”. O alemão é uma língua “sem futuro”. O inglês, não.

Zeit online: E o que isso tem a ver com nossa poupança?

Chen: Fundamentalmente é assim: guardar um dinheiro pede um autodomínio. Posso tirar proveito disso somente amanhã. Quando podemos, como alemães, falar sobre poupar usando o verbo no presente, embora estejamos nos referindo ao futuro, é mais fácil economizar. O efeito é psicológico. Para os alemães o futuro está mais perto e a necessidade de adiar um desejo de comprar não é tão grande, tão premente.

jornais alemães 0,,1737896_4,00Zeit online: O senhor está dizendo que os alemães poupam mais porque falam alemão?

Chen: Certo. É exatamente isso.

Zeit online: Como pode comprovar sua tese?

Chen: Em meu estudo examinei o comportamento de diversos paises industrializados, comparando seu índice de poupança e sua língua. Em países como China, Japão, Noruega e Finlândia, onde a língua não tem conjugação no futuro, constatei que esse índice também é substancialmente mais alto. Em termos gerais, a população desses países economiza anualmente 6% mais de rendimento interno bruto se comparada com outras nações, nas quais os cidadãos são obrigados a usar o verbo no futuro. Por exemplo, na Espanha, Grécia ou Portugal.

Zeit online: Normalmente, especialistas explicam essas duiferenças com fatores culturais e históricos.

Chen: Durante a minha pesquisa encontrei novos países nos quais a “língua sem futuro” convive com a que exige o verbo conjugado no futuro. Um exemplo é a Bélgica, onde se fala o flamengo – sem futuro verbal – e o francês, com futuro. Nesses países comparei famílias que são muito parecidas. Tem, por exemplo, o mesmo rendimento mensal e a mesma educação. O resultado foi inequívoco: aqueles que falavam a língua “sem futuro” poupavam mais que os outros.

coreia do sul 12810936526u5ryGZeit online: Então não existem exceções?

Chen: Claro que existem. A Coréia do Sul, por exemplo. Lá a população poupa muito, apesar de ser obrigada a usar o futuro verbal. Mas isso não anula o resultado da estatística: nos países com língua “sem futuro” as pessoas economizam mais.

Zei online: O que acontece com pessoas que cresceram bilíngues e falam as duas formas, com e sem futuro?

Chen: Estou pesquisando exatamente nessa área, ocupando-me com imigrantes, e me parece que nesse caso a idade desempenha um papel decisivo. Os dados mostram que o comportamento muda aos sete anos de idade. Quando duas irmãs, de seis e sete anos se mudam da Inglaterra para a Alemanha, a mais nova delas aceita mais rapidamente o comportamento e a língua na Alemanha. Portanto, ela vai poupar mais que sua irmã de oito anos.

Zeit online: A língua tem influência apenas sobre nosso comportamento em relação à economia ou também em outras áreas de nossa vida?                                                      

O ex-chanceler Helmut Schmidt contradiz  a afirmação de Chen

O ex-chanceler Helmut Schmidt contradiz a afirmação de Chen

Chen: De forma interessante o mesmo efeito se vê em outras atividades. Também analisei dados de setores da saúde e do bem-estar na aposentadoria e os resultados são espantosos: as pessoas que falam uma língua “sem futuro” não apenas poupam mais. A possibilidade de fumarem é cerca de 24% menor em relação aos que conjugam o verbo no futuro. Afora isso, são fisicamente mais ativos, há menos obesos entre eles e usam mais o preservativo nas relações sexuais.

Zeit online: Mas vamos ser honestos: isso tudo não pode ser uma coincidência?

Chen: Se existe uma casualidade, isso quer dizer, se a língua leva diretamente a uma predisposição a poupar, isso ainda não está absolutamente claro. De qualquer maneira, existem indícios de que este seja o caso. E como disse antes: a relação vista através da estatística é, no mínimo, evidente.

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