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Hoje um. Amanhã outro. Na tela da tevê, nos intervalos comerciais, os partidos se alternam com seu recado. Preparam terreno para a próxima campanha eleitoral. Faz algumas semanas era a vez do PT, com o governador Tarso Genro. O que ele disse não me impressionou.  A imagem, sim. Tanto que me dei ao trabalho de fotografá-la.

013Não sei em qual agência a peça foi produzida. O resultado que vi foi péssimo. Tarso me afligiu. Não por culpa dele, mas por causa do enquadramento da filmagem, que cutucou minha memória, reativando lá o pânico que senti há cerca de quatro anos, quando pela primeira vez participei de uma reunião de trabalho em uma sala de pé-direito baixo. Para mim, que cresci ao ar livre, aquilo funcionou como um achatamento. Fiquei sem ar e com vontade de correr sem olhar para trás. Deveria ter corrido, porque naquela sala – e nas outras da mesma empresa, igualmente baixas -, a sensação de estrangulamento foi permanente.

Em cena, o governador me apareceu exatamente assim, como se lhe faltasse espaço para respirar, encolhido como se tomasse cuidado para não bater a cabeça no teto. Estava sem gravata, que dá acabamento elegante ao figurino, mas também é sinônimo de autoridade e de limite. O problema é que a informalidade pretendida não aconteceu, porque a camisa fechada até o penúltimo botão passou mensagem de sufoco. Socorro! Era a imagem contradizendo o texto;  uma aula sobre como um descuido da produção pode derrubar um discurso. Onde estava a assessoria de Tarso Genro quando essas imagens foram gravadas? Ninguém olhou esse material antes de sua veiculação na tevê?

007O PSDB mandou ver na semana passada. O porta-voz foi o senador Aécio Neves, presidente nacional do partido. Ele ambiciona concorrer à presidência da República nas eleições de 2014 – tem o aval de FHC – e foi com muita sede ao pote, apontando as obras que realizou em Minas Gerais quando governou o estado. Foi um explícito vote em mim. “Quando fui governador, Minas recuperou a sua força e se tornou referência em educação. Agora, como presidente do PSDB, quero conversar com você, porque juntos podemos cuidar melhor do Brasil”, disse. Mas o TSE, que ainda não liberou a caça ao voto, está de olho. Nos vivaldinos que caçam fora da temporada. Assim, constatou a transgressão cometida por Aécio e a ministra Laurita Vaz exigiu que o autoelogio do neto de Tancredo Neves fosse tirado da peça. O que sobra nela, além das falhas de gestão que atribui ao governo Dilma, foi mostrado nesta terça-feira  e está de bom tamanho: a disposição do partido para “conversar” com cada cidadão deste imenso País.  A intenção é boa, mas é como a gente sabe: de boas intenções o inferno está lotado.

Afora isso, a gente também sabe da importância da pós-graduação no meio desses atores. Alguns trazem o talento para a encenação no DNA. É o caso de Aécio. O avô dele já era figura tarimbada da política nacional lá pela metade do século passado, quando comunistas brasileiros derramaram lágrimas por Stalin, “nosso pai” (segundo Mario Magalhães no livro Marighella),marighell que havia capotado para não levantar mais, deixando uma procissão de russos mortos, muitos deles vítimas de sua doentia desconfiança. Quanta ingenuidade na cabeça desses comunistas brasileiros!vinte-cartas-a-um-amigo-svetlana-alliluyeva-filha-stalin_MLB-O-170101088_4513 Nem Svetlana Alliluyeva, a filha do ditador soviético, endossa o “nosso pai” de Marighella e companhia no livro Vinte cartas a um amigo-, que ela escreveu em 1963 e publicou em 1967, contando o que ocorria na Rússia, onde, atrás da fachada de absoluta austeridade, imposta ao povo, as famílias dos dirigentes e seus agregados consumiam o dinheiro público. Uma farra e tanto.

Claro, os tempos eram outros. A informação não tinha a velocidade do relâmpago. Hoje tem. Agora, o noticiário é autofágico; uma notícia se sobrepõe à outra. E daí? Mesmo assim, o inconsciente coletivo ainda produz estragos no consciente coletivo, porque o povo continua embarcando no lero-lero político. Um eleitor, um motivo. Há os que embarcam porque não têm critérios para nada; há os que desacreditam em alternativa melhor, porque estão absolutamente desiludidos; e outros são raposas pragmáticas que estão sempre em busca de algum tipo de vantagem para o próprio bolso. No final, tudo vira farinha do mesmo saco.

Tanto isso é verdade que o inimigo político de hoje é o aliado de amanhã. E ninguém fica vermelho de vergonha. O povo entende. Sem conchavo não dá para governar, dizem candidatos e eleitos.  E quem lhes tira a razão? Mesmo que me provoque náuseas, sei, como leitora dos jornais editados na Itália, na Espanha, nos Estados Unidos e na França, que os políticos brasileiros não inventaram esse jogo de forças. Republicanos e democratas medem armas desde sempre em USA. Apoio? Só com uma grande vantagem para o partido. Por exemplo, o acesso ao petróleo do mundo árabe através de uma guerra. É a forma que o mensalão assumiu na terra dos Bush e de Obama, penso, mas isso não lava as mãos de quem participou e participa da compra e da venda de votos no Brasil, um negócio que envolve dinheiro e o apadrinhamento que garante promoções e cargos.

Lula (e) decide participar de encontro na casa de Maluf (d) com Haddad (c) em SPAliás, o próprio Lula já disse que o PT precisa reencontrar seu prumo – estar no poder causou estragos à coluna vertebral do partido. Minha reação diante dessa declaração do ex-presidente seria uma pergunta: a aliança que fez com Paulo Maluf para garantir a eleição de Haddad à prefeitura de São Paulo faz parte do estrago? De resto, qualquer pessoa minimamente informada sobre o que corre nas veias da política brasileira sabe que a coerência termina onde começa a busca pelo poder e que essa imoralidade – assim como a compra de votos – não é invenção do Partido dos Trabalhadores. Em todo caso, a intensidade da prédica de moral, sempre apontando o fariseu ao lado, me levou a esperar que o PT se mantivesse fora do alcance da corrupção; que não se misturasse ao farelo para ser comido pelos porcos.

008E agora, José? Bem, agora que é tudo farelo do mesmo saco, corrupção não é mais novidade. Mas alguém precisa descobrir um diferencial, um novo pecado que possa ser atribuído ao PT. Que tal currupção? Pois é… O DEM já cuidou disso, em peça da propaganda partidária gratuita que tem Onix Lorenzoni como ator.  Não lembro se foi na semana passada ou na anterior. Não importa. Fotografei também. Ri muito. Depois fiquei desassossegada.  Se essa gente chegar ao poder corremos o risco de vê-la mirando o combate na currupção, enquanto a corrupção corre solta. Caramba!

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