A Florida recupera seu charme

Buenos Aires. De novo! Estive lá em janeiro de 2012, enfrentando um calor de rachar os miolos, e voltei para lá em julho. Agorinha mesmo, ainda com o ânimo nocauteado por uma gripe que havia se instalado de mala e cuia e não queria ir embora. Mas as passagens estavam compradas e o hotel estava devidamente reservado. Fazer o quê? Fiz o inevitável: embarquei. Pela quarta vez em dois anos, submetendo-me a todas aquelas filas que testam a paciência de quem viaja ao exterior.DSC00280
O frio de Buenos Aires já conhecia de outros invernos. Mas o deste ano – caramba! – foi especialmente rigoroso, com temperaturas em torno do zero e sensação térmica bem abaixo. Muito abaixo, na verdade, impondo um figurino bem parecido com uma camisa de força. Então não valeu a pena? Valeu, sim. Claro, sinais das dificuldades econômicas são evidentes por toda parte. Há gente pedindo esmola; o povo que foi convocado, mas não lutou na Guerra das Malvinas, continua lá na Praça de Maio pedindo que também seja contemplado com os benefícios concedidos aos que lutaram; o turista ainda ouve o alerta sobre o cuidado que deve tomar para não cair na armadilha de taxistas “desonestos”; e lhe recomendam que fique de olhos bem abertos, que leve o dinheiro junto ao corpo nas ruas, nas lojas e no metrô – sempre muito lotado. Mas quem dá o conselho trata também de não assustar o visitante, acrescentando que “não precisa ter medo, porque esse pessoal que afana só quer o dinheiro e não pratica a violência”. É. Não estamos no Brasil.
A oferta de câmbio – um dólar valendo sete pesos, um real por três pesos – é cantada nas vias públicas. Em todos os tons. Alguns bem altos. Outros quase sussurrados. Mas o valor das moedas nos restaurantes, por exemplo, não segue a cotação oficial. Cada um tem a sua. Então há quem decide que o dólar vale cinco pesos; e há quem decide que o real vale dois. É provavelmente esse o motivo pelo qual se colhe a impressão de exorbitância nas contas. Algumas pessoas até duvidam que os moradores de Buenos Aires paguem os preços cobrados dos estrangeiros; supõem, inclusive, a existência de duas tabelas: uma para os turistas – que nunca passam despercebidos, mesmo que fiquem de boca fechada – e outra para os locais.
BsAs 003Afora isso, gostei de ver a Calle Florida em recuperação. Lembro que quando a percorri pela primeira vez, há muitos anos, a rua funcionava como passarela para a elegância portenha. Homens em mantôs de lã que, nas vitrines, custavam o olho da cara dos brasileiros; mulheres em tailleur alinhado e em salto alto. Invejáveis. Na segunda ida fui abordada pelas “por dios sera”, mendigas indígenas que perambulavam com a mão estendida e traziam os filhos atravessados no peito. Depois só piorou. Em janeiro de 2012, a Florida era domínio da informalidade, dos vendedores ambulantes que se acotovelavam sobre os panos estendidos ao longo da via, concorrendo com os lojistas da Galeria Pacífico e outros. BsAs 002Agora a surpresa: a calle está em obras e, de boa parte dela, os informais já foram expulsos. “Pela polícia”, me disse um vendedor que anunciava os couros de uma fábrica. Para onde foram? “Para longe”, me respondeu. E pensando que eu poderia levar para lá meus trocados tratou de me prevenir: “Es mui peligroso”.
A disputa por dólares e reais é grande. Mas quase sempre muito gentil. Os argentinos estão com a autoestima em alta. Pudera! Tem uma compatriota que virou rainha na Europa; tem Messi, jogando às pampas no Barcelona; e no Vaticano tem Francisco, que conquistou corações no Brasil e não tem lá muita simpatia por Cristina Kirchner. Então ela não tem chance na campanha eleitoral já em andamento? O porteiro do hotel discorda. Ri da minha provocação – Deus não se mete na política – e diz que estou enganada. Garante que ela continuará na Casa Rosada para mais um mandato a partir de 2015.

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