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Minha mãe não gostava da voz feminina na música. Preferia intérpretes como Leonard Cohen e se queixava de ouvir “estridências indigestas” no coral da igreja. Meu pai, para quem eu copiava as partituras dos arranjos que ele fazia diante da janela aberta para o jardim, tocava violino e órgão. E, sorte dela, tinha a voz grave. Agora essa particularidade me volta, cutucada por pesquisadores dos Estados Unidos.

Eles afirmam que a voz mais grave não é apenas sexy. Também é muito importante para o sucesso na carreira, garantindo a chegada aos postos mais elevados das empresas, nas melhores empresas, e salários condizentes. Isto é, muito altos. A tendência, segundo um estudo feito na Duke University (Carolina do Norte), é que um homem com essa característica – barítono e baixo – ganhe mais dinheiro que um tenor. Mas, claro, a pesquisa não levou em conta os cantores líricos, área em que os tenores sobressaem. 13mar2013---o-cardeal-argentino-jorge-mario-bergoglio-nomeado-papa-francisco-1-sorri-da-sacada-da-basilica-de-sao-pedro-no-vatica-1363207611726_1920x1080Nem o Vaticano, onde o papa Francisco tem a voz bem mais grave que a de seu antecessor, o emérito, muito acadêmico e extremamente tímido Bento XVI.

lula2E quanto a Luiz Inácio Lula da Silva, que uma ala do PT quer recolocar no Palácio do Planalto? Aliás, a presidenta Dilma já afirmou que ele nunca saiu de lá. Ops! Devo acreditar que a ascensão de Lula – de metalúrgico no ABC paulista à Presidência da República – estava escrita nas cordas vocais dele? Resisto à ideia, com medo da simplificação.

O fato é que os biólogos se ocupam da voz há um bocado de tempo. A grave é, segundo dizem, uma vantagem evolucionária: homens com essa voz, bem sonora, são vistos como especialmente viris, portanto, mais atraentes que os demais. Produziram um auê. Se quiser verificar o tamanho vá ao Google e digite “vozes mais graves”. A resposta será uma enxurrada de conselhos. Praticamente todos para quem deseja esse poder na garganta. Entre eles, de gente que julga saber como é possível, através de treinamento, alargar as cordas vocais e, com isso, desenvolver o timbre desejado. E se isso não resolver o problema? Bom, então é possível recorrer ao bisturi.

Mas qual é a contribuição dos pesquisadores da Duke University ao tema? Bom, eles acreditam que conseguiram uma comprovação de que os homens de voz mais grave tendem a comandar empresas maiores e mais poderosas, tendem a ganhar salários mais altos e a ficar por mais tempo em seus cargos. Para chegar a esse resultado, Bill Mayew e Mohan Venkatachalam analisaram 792 vozes masculinas, trabalhando com Christopher Parsons, da University of California (San Diego). Todas eram de executivos.

A análise levou em conta a altura da voz, o tamanho da empresa, o salário de cada um deles e a permanência no cargo, estabelecendo uma comparação. Ao mesmo tempo, foram considerados fatores de influência como idade, formação acadêmica e expressões corporais tipicamente masculinas, no rosto e na fala. No final do estudo, os professores concluíram que: a voz cuja profundidade é de 22.1 Hertz tem relação com uma empresa avaliada em cerca de 440 milhões de dólares e um salário anual de 187 mil dólares. Além disso, os CEOs com voz mais grave permanecem 151 dias – em torno disso – a mais nos seus postos se comparados com os tenores.

Mas atenção: o estudo não entra na causalidade. Isto é, não afirma por que a voz grave contribui de forma tão especial para que alguém tenha maior sucesso na carreira. E se os homens com essa característica são realmente mais capazes que os tenores – mais eficientes no seu trabalho – também sobre isso os pesquisadores não têm resposta. Afora isso, deixam mais uma pergunta no ar: o que o resultado da pesquisa significa para as mulheres que desejam fazer carreira como executivas de empresas? Se for necessário falar “grosso” para ser levado a sério, então poucas têm chance. Em maior número nas universidades, em muitos casos comprovadamente mais inteligentes que seus colegas masculinos, elas continuarão em segundo plano nessa balança desequilibrada pela natureza.

LeonardCohenPA140311Particularmente também prefiro as vozes graves. O mezzo-soprano, não a soprano. O barítono, não o tenor. Mas há exceções: na área da lírica, o momento é esplendoroso na ópera La Traviata, quando a soprano que faz o papel da cortesã Violetta Valéry dá conta dos trinados compostos para ela por Giuseppe Verdi, mas é igualmente emocionante quando o tenor que faz Alfredo Germont canta o desespero que lhe causa a morte da mulher amada. Quero dizer que, além da descoberta feita pelos professores norte-americanos, há outras questões a serem ponderadas. Uma delas é o que se entende como sucesso. Nem todos o reconhecem no salário mais alto e no posto mais alto de uma multinacional. Portanto, até a importância de nossas cordas vocais está sujeita às circunstâncias. Ou melhor: no final das contas, quase tudo se resume à abóbora e não à carroça. Ao que se tem para dizer. Como Leonard Cohen, quando interpreta letras como Tower of Song. Da mesma forma, penso que o inimigo de Dilma não é sua voz, mas o que ela transporta como mensagem.

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