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Die souveräne LeserinAinda não ganhou versão em português. Deveria, porque é uma delícia de história. Foi escrita em 220px-Alan_Bennett_Allan_Warreninglês, por Alan Bennett, e já ganhou uma edição em alemão, que li neste final de semana. Foi num tapa. Como diria Chico Anísio, num vapt-vupt, aceitando sugestão de minha amiga Herta Elbern. Na Alemanha, onde foi publicado pela editora Wagenbach, em 2007, o título original do livro – The Uncommon Reader (A leitora incomum) – foi traduzido para Die Souveräne Leserin (A soberana leitora).

São apenas 115 páginas. Ao longo delas, o autor se faz de voyeur da rainha britânica Elizabeth II. Primeiro, durante banquete na Casa de Windsor, ela pergunta ao presidente da França se pode lhe fazer algumas perguntas sobre o escritor Jean Genet. E a conversa dá em nada. No dia seguinte, o escritor a segue quando ela desce as escadas do palácio e chega ao jardim, onde encontra um ônibus cheio de livros estacionado na porta da cozinha. Na sequência, entabula uma conversa com Norman, que é serviçal no palácio, aceita as sugestões de leitura que ele faz e alguns dias depois o instala na antessala de seu gabinete, encarregando-o de manter sua mesa cheia de livros.

A rainha descobriu o prazer da leitura e, através dela, um mundo em que conhece muitos países e cidades, mas sobre o qual pouco ou nada sabe. Cheia de empolgação, anima-se a trocar ideias sobre autores e ideias. Em vão. É como tentar uma conversa com as paredes, porque ninguém a sua volta cultiva o hábito de ler. Pior que isso, até o primeiro-ministro reage de forma negativa. As tentativas de dissuadi-la da leitura vão desde ponderações sobre o reflexo prejudicial que a dedicação aos livros poderá ter no cumprimento de seus deveres como chefe da Igreja Anglicana e como soberana até a demissão de Norman. Pobre rainha. Tem uma coroa, mas não se governa.

Há, certamente, muita fantasia nessa obra, mas o autor é jornalista. Isso permite acreditar que usou a literatura para revelar algumas verdades. Por exemplo, a medida do controle a que Elizabeth II é submetida no seu cotidiano. Embora seja a rainha, é exatamente essa condição que a transforma numa espécie de prisioneira, totalmente a serviço do estado. Bennett, quando escreveu o livro, fez um exercício de futurologia, através de uma metáfora: depois de ler muito, a rainha se daria conta da passividade do leitor, sentiria necessidade de agir e abdicaria para se tornar, ela mesma, uma autora. Aos 80 anos, Elizabeth II tomaria as rédeas da própria vida. Será que conseguiu isso mesmo ficando no trono?

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