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É uma pergunta e, ao mesmo tempo, uma acusação queixosa. “Ma, che razza di persone siete voi due!!? Afundando num “pote assim de mágoa”, como diria Chico Buarque de Hollanda, Gretta encara o fim indesejado. A personagem do seriado Un posto al sole, que a RAI exibe de segunda a sexta-feira, está chocada, porque há poucos minutos, em uma das alamedas que circundam o belo palacete em que vive, descobriu-se traída pelo marido dentro da própria casa. Mas a cena produziu algo inusitado em mim. Jogou luz sobre um momento que trago na memória faz alguns anos.

rosália e babi 018Estava no Parque da Redenção com minha sobrinha Rosália, então com sete anos de idade. Aquela era uma dessas tardes de luminosidade outonal e, em vez de correr pelo gramado como outras crianças faziam, ela caminhava de mãos dadas comigo. E assim, entre um e outro passo, fez uma confidência.

– “Tia, eu não quero morrer”, disse. E me olhou, suplicante.

Minha primeira reação foi “Um Gotteswillen”, repetindo instintivamente o socorro que via e ouvia minha mãe pedindo a Deus sempre que uns dos filhos a colocava numa situação inesperada, além das traquinagens mais banais do dia a dia, como a queda de um balanço, um espinho fincado no pé, uma cabeçada no muro.

Mas quem acreditava na providência divina era minha mãe e reconheço que até um determinado ponto a fé dela me contagiou. Foi inevitável, ainda que nem sempre fosse à igreja quando ela me mandava ficar de joelhos para me redimir dos pecadinhos que havia cometido. Volta e meia me escondia num lugarzinho que ninguém mais conhecia. Assim foi inevitável também, que, longe dela, a vida fosse redesenhando meu cérebro e por isso, já no tempo daquele passeio pelo parque, não conseguia ver sentido e lógica na literatura religiosa. Viesse de onde viesse. Por isso, fiz o que pude e tentei aquietar o coração de Rosália aproveitando o cenário.

– “Não precisa ter medo, o corpo é só uma embalagem que a gente gasta vivendo; nada termina quando, já muito cansado, ele se recusa a continuar e quer descansar para sempre. Mas isso não quer dizer que tudo terminou, porque a energia que ele produz não morre e até pode voltar em forma de pássaro, ou de árvore. Entendeu? Todos nós somos eternos”.

Rosália me ouviu. Quieta. Ô menina gentil! Eu, que nem sou muito fã de futebol, me senti Mané Garrincha, acreditando que havia driblado a angústia dela e que minhas palavras tinham balançado a rede. Então investi numa tentativa poética para ganhá-la em definitivo.

– “Não seria bonito voltar como árvore no meio de um parque, ou numa beira de estrada, fazendo sombra, ouvindo as risadas e as conversas das pessoas”?

Ela me encarou de novo, com olhos ainda mais suplicantes. E quando falou – Um Gotteswillen! – descobri que de Garrincha eu só era Mané.

– “Mas tia, eu quero voltar na mesma família, com o mesmo vô, a mesma vó, a mesma mãe, o mesmo pai e os mesmos tios e tias”, disse.

E agora?

Alguns anos depois, o temor de Rosália se fez em mim, quando fiquei frente a frente com uma das tantas versões da morte. Era a minha vez de perguntar “che razza de persona sei tu e sono io”? Era a vida socando minha porta, me dizendo que estamos sempre sujeitos ao medo que minha sobrinha me havia confidenciado naquele tarde outonal, no Parque da Redenção: a perda da zona de conforto, onde nos sentimos integrados, amados e aceitos é um tipo de morte. E sua tragédia está em que é preciso sobreviver – como Gretta no seriado Un Posto al Sole – sem a acalentadora sensação de pertencimento que torna tudo mais fácil.

rosália e babi 018Mas a vida continua, na realidade e na ficção, que reconta a realidade na telinha. Na RAI, a personagem da novela vai certamente encontrar uma nova zona de conforto. No Parque da Redenção, Rosália faz hoje alegres passeios com a filha, Bárbara, e lhe conta histórias que as almas refugiadas nas árvores também gostam de ouvir. Eu continuo querendo morar nas árvores.

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