Espaço para a emoção

Participei, nesta quinta-feira, da terceira edição do prêmio Destaque Cultural Hélio Barcellos Junior, que a Cia Teatro Novo criou para homenagear profissionais que, de alguma forma, deram e dão seu apoio à dramaturgia no Estado. Estive entre os homenageados, como Destaque Especial Imprensa. Esta edição marcou também os 45 anos de atividades da Cia Teatro Novo e os 12 anos do Teatro Novo DC. E, no final, presenteou a plateia com a pré-estreia de Os Saltimbancos, versão atualizada para Os Músicos de Bremen, dos Irmãos Grimm, com texto de Sérgio Bardotti e Luis Enriquez. Dirigida por Radde, a montagem abre espaço na trilha sonora para uma brincadeira com a Ode à Alegria, da Nona Sinfonia de Beethoven. O público amou!!

006A homenagem mexeu com minha emoção. De verdade. Eu tinha (tenho) dois bons motivos para isso. Um deles é a lembrança da aula que recebi do dramaturgo e diretor de teatro Ronald Radde nos idos de 1974. Na época, eu trabalhava na Folha da Manhã, da Cia Jornalística Caldas Junior, fazendo a cobertura do que acontecia na literatura, artes plásticas, teatro e, especialmente na música erudita, sobre a qual publicava comentários. A turma jovem pop/rock também se movimentava. Era o tempo de Carlinhos Hartlieb, de Hermes Aquino e dos grupos Utopia e Almôndegas.  A Ospa, apesar da penúria de que seus músicos se queixavam, estava num bom momento, se apresentava no salão de atos da Reitoria da UFRGS e encenava óperas de Verdi, Wagner – Lohengrin e Tannhäuser, com sopranos e tenores vindos da Alemanha – e Bizet.

ronald radde DSC_1939E quanto à aula que Radde me deu? Pois é, num certo dia, ele entrou na redação da “Folhinha” carregando dois volumes. Um deles era o texto original da peça B em cadeira de rodas – metáfora da situação criada pelos militares em 1964, quando instalaram a ditadura no Brasil -; o outro era o que havia sobrado desse original depois de passar pelo olho rapinador da censura. O que vi foi um exemplo concreto do que acontecia no país. Até então, os malfeitos dos censores me chegavam através de cochichos e através da vigilância que os próprios editores – cautelosos – mantinham sobre os textos que publicavam, para evitar uma punição que levaria agentes do Dops para dentro da redação. Sim, eram cochichos, porque em toda ditadura que se preza também essa proibia um exercício básico da liberdade, que é pensar de forma crítica e, principalmente, pensar em voz alta. E era exatamente isso que Ronald Radde queria: pensar em voz alta, para que todo mundo ouvisse o que tinha a dizer e pensasse com ele. Ele fez isso. Então na medida do que lhe permitiam. E continuou pensando – “apesar de você”, como dizia Chico Buarque de Hollanda – acreditando num novo amanhecer, mais ensolarado. Assim, levou adiante a Cia Teatro Novo, que conquistou o status de empresa em 1975.

O saldo dos 45 anos de atividades é muito positivo: montagem de mais de 180 espetáculos (para adultos e crianças); apresentação em praticamente todos os municípios gaúchos e a criação do projeto A Escola vai ao teatro – atinge 250 estabelecimentos de ensino e leva anualmente 45 mil crianças ao teatro. O Teatro Novo – Sala Carmem Silva, foi aberto há 12 anos e consolida o sucesso de Ronald Radde também como empreendedor na área artístico/cultural. Por isso mesmo, ele foi destaque, em 2010, de uma das edições da revista Tempo de Agir, que o Sebrae-RS edita e distribui gratuitamente desde 2009.

helioO outro motivo da minha emoção durante a premiação foi (é) Hélio Barcellos Jr., de quem fui professora na cadeira de Telejornalismo, na Unisinos, no início da década de 1990. Quando comecei a trabalhar na Editoria de Cultura do Jornal do Comércio, em 1995, ele se aproximou de mim e me lascou esta: “Já me viu pelado em sala de aula, agora quero trabalhar com você”!  Sim, eu já tinha visto o Hélio pelado, num clipe que a turma dele havia gravado em São Leopoldo, como tema de aula para explorar os recursos do equipamento. Minha resposta foi imediata: “Vem agora”! E fomos colegas no JC durante 14 anos, concordando e discordando, mas nossa convivência nunca abriu espaço para a malquerença ou alguma palavra áspera. Eu admirava o talento dele, o bom humor dele – às vezes mordaz – e a generosidade com que recebia quem precisava de um espaço para mostrar seu trabalho. Tinha sido meu aluno, agora eu era a chefe dele, mas a relação era de amizade e de confiança. Estreitamente ligado ao teatro e jornalista, ele também se tornou escritor, registrando em livro as memórias da atriz Sandra Dani. Vibrei com ele, que foi embora cedo demais. Deixou saudade.

Homenageados

004Simples e alegre. Assim foi a premiação, mediada por Ellen D´Avilla, diretora de Produção da Cia Teatro Novo. O jornalista Walter Galvani, anunciado como um dos homenageados – inclusive neste blog – não participou da comemoração. Está convalescendo de uma gastroenterite que o tinha levado ao hospital há algumas semanas. Ele também havia sido escolhido como Destaque Especial Imprensa.  Os outros:

Altair ClaroPaulo Mauro da Silva – Secretaria Municipal de Educação (Destaque Cultural Educadores; Gustavo Victorino, da Rádio Pampa; Maria do Carmo, da Rádio Guaíba; e Túlio Milman, do Grupo RBS (Destaque Cultural Imprensa); Francisco Meira, da Easy Way Produção Inteligente, e Marcos Neto, da Itati Água Mineral Natural (Destaque Cultural Empresa); Rogério Araújo, diretor da Luz Comunicação, e Titi Lopes, figurinista (Destaque Cultural Teatro); o cenógrafo Altair Claro, Marcos Flávio Soares, do Museu do Trabalho, e Marina Meimes Gil, empresária de Canela (Destaque Cultural – Categoria Especial).

A foto de Ronald Radde é de Dudu Leal e me foi gentilmente cedida pelo Sebrae-RS.

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