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001Gosto da natureza. Da verde. Dessa que vejo nos parques. Que vejo através da janela de minha sala de trabalho. Basta virar a cabeça e lá está a ameixeira, carregada de frutas. É festa para meus olhos. Não somente porque é bonita, mas também porque me leva de volta ao pomar da minha infância, um paraíso de sabores e cores que foi obrigado a ceder espaço para o progresso que desapropria terras e constrói estradas. Uma questão de lógica: sem elas o carro não sai do lugar; sem elas o veículo nem precisa sair da montadora, que dá emprego e sustenta a economia.

pitangueiraAgora temo pela ameixeira. Até quando ela estará no jardim? É, sou gata escaldada. Explico: depois do pomar da minha infância, vivi uma segunda paixão. Caí de amores por uma pitangueira. Os braços dela invadiam minha sala de estar sem a menor cerimônia. Trocava ideias comigo. Sobre o tempo, sobre o mundo. Era minha confidente.  Eu lhe contava minhas pequenas tristezas, lhe falava de minhas alegrias; elogiava a cor de suas frutas e elogiava a generosidade com que oferecia seus galhos ao ninho de sabiás. Mas um dia, quando abri a janela para mais uma conversa, minha amiga não estava lá. Não, não tinha saído a passeio. Tinha sido arrancada pela raiz.

Outra questão de lógica? Sim, de quem havia decidido que a pitangueira deveria ser sacrificada. Mas essa decisão não estava combinando com a minha maneira de pensar e, por isso, encaminhei denúncia à Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Minha reação seria outra se a vítima tivesse sido um eucalipto? Seria. Porque a grandiosidade do eucalipto esconde uma armadilha: sua fragilidade, que pode ser assassina. De vida curta, ele cresce para o alto muito rapidamente, mas sua madeira sofre a ação do tempo com a mesma rapidez. Tê-lo nas vizinhanças é perigoso, já dizia minha mãe, Mathilda.

no parque FOTC71FLembrei-me disso no dia 31 de agosto, quando a queda do eucalipto no Parque da Redenção causou a morte de Lenir Heinen, juiz do Trabalho. Eu estava lá. Vendo a árvore no chão e vendo a vítima coberta por um pano branco no meio da galhada dei-me conta do quanto minha mãe havia sido amorosamente responsável: sempre que havia tempestade, fosse de madrugada, fosse a qualquer hora do dia, ela reunia os filhos na sala que não seria atingida se o eucalipto vizinho à casa viesse abaixo por causa do vento. Meu pai meneava a cabeça, confiava na sorte, mas respeitava o medo dela. Por fim, acabou cedendo aos argumentos de Mathilda e permitiu o corte da árvore. Ela estava certa.

E certo estará também a SMAM se der ouvidos à campanha que o jornalista Ayres Cerutti está iniciando para evitar a repetição de tragédias como a que aconteceu no Parque da Redenção no dia 31 de agosto. Mas o perigo não se resume ao eucalipto. Em frente aos prédios da UFRGS, na Paulo Gama, há várias árvores pedindo uma urgente vistoria. A natureza verde é bela, mas contêm armadilhas.

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