Rua da Praia afora

Tão além dos limites quanto a gordura que ameaçava explodir as costuras da leg preta, ela vinha pela calçada da Rua da Praia com a orelha grudada no telefone celular e a boca aos berros. “Vou te destruir a pau”, gritava, indiferente ao vexame a que se expunha com a própria deselegância.

A promessa feita por ela de “destruir a pau” quem estava do outro lado da linha fez barulho na minha cabeça. Ecoou na minha cabeça. Para mim, esse tipo de ameaça soa muito mais aterradora do que “vou te matar”. Por quê? Ora, porque embora a morte seja sempre uma tragédia – não importa onde, como e quando acontece -, ela também pode ser uma libertação, pois quem morre leva junto seus sonhos, suas frustrações e suas lembranças. Boas e ruins. Tudo se desfaz no sono que se instala depois da passagem.

A pessoa destruída, bem ao contrário, não tem esse benefício. Por quê? Ora, porque quando alguém promete que “vou te destruir a pau”, como fez a mulher de leg preta e lustrosa ventando Rua da Praia afora, o que ela está dizendo ao outro, àquele que a ouve do outro lado da linha, é que vai transformá-lo em zumbi se cumprir o que anuncia. Quer vê-lo por aí morto-vivo. Quer vê-lo vagando como alma penada, carregando o peso de lembranças e sem porta por onde possa entrar para começar de novo.

009A raiva que essa mulher escancarou foi uma intromissão de absurda deselegância no meu dia, que até ali vinha sereno e ponteado por imagens que, minutos antes, havia parado para fotografar, por bonitas. Na primeira, para além da Borges de Medeiros, na direção da Praça da Alfândega, o ator fazendo a sua versão para a estátua do Laçador sorriu assim que coloquei dois reais em moeda na sua caixa de coleta. Quando perguntei se poderia fotografá-lo, a gentileza dele não contrariou a arte, porque a resposta veio rápida. “Sim, claro”. E melhor, presenteou-me com uma pose, encarando a câmera.

011No sentido contrário, depois da Esquina Democrática, parei mais uma vez. Desta vez diante de uma vitrine. Fingi alto interesse em blusas e saias, mas a verdade é que estava ouvindo o jovem que, abraçando sua guitarra, cantava a vontade de ser acarinhado pelos braços da mulher amada. Tem uma voz bonita esse moço. Ele não consegue ver o que veem aqueles que simplesmente passam e aqueles que se dão um tempo para ouvi-lo, mas colore os versos com os tons da emoção. Deixei dois reais. Não me escutou quando lhe disse “muito obrigada”; Continuou cantando.

012Foi quando apareceu o ator Alexander Maciel para encarnar mais uma estátua viva também inspirada na tradição gaúcha, que vive semana de afirmação no Acampamento Farroupilha. Muito rapidamente, ele subiu no pedestal, onde, em agradecimento a cada contribuição, mostrou destreza no manejo do laço. “Posso tirar uma foto”?  Claro, respondeu. E posou coreografando laçadas. Quando terminei a sessão, ele me entregou um verso. “A felicidade e o amor. Não há dinheiro ou riqueza que as compre. Mas sim, se conquista”. Meio mal enjambrado. Não acha? Sim, Ainda assim, verso.

Talvez fizesse bem à raivosa de leg preta se ela parasse para recebê-lo. Ou não, se a deselegância dela for um caso perdido ventando sobre a calçada, ferindo ouvidos e sensibilidades no outro lado da linha e na Rua da Praia afora.

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