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O que em termos gerais é considerado manifestação de jovialidade e simpatia é um verdadeiro pesadelo para os gelotofóbicos: eles têm medo de quem ri. No mundo todo, o número de pessoas que sofrem desse problema chega a milhões, segundo reportagem da jornalista alemã Barbara Drissen. A matéria foi publicada no jornal Zeit.

Emma é jovem. Para ela nada pode ser pior e assustador do que ver alguém rindo. Quando isso acontece, seu corpo todo se contrai como se entrasse em convulsão. Ela começa a tremer e sente muito calor porque acredita que “a pessoa está rindo de mim”. Então vem o reflexo de fuga, mas como tudo segue tranquilo, obriga-se a não correr. ”Você precisa se acalmar”, repete sempre para si nessas ocasiões. Um dia normal é difícil de acontecer, porque até mesmo o sorriso mais inocente se transforma em sofrimento, uma agressão a sua autoestima. Emma sofre de Gelotofobia – o medo doentio de ser motivo de deboche.

nicholson shining460Segundo estudos, 11% dos alemães são gelotofóbicos. “A metade deles manifesta o problema de forma leve; em 4% ele é evidente; os demais o manifestam muito fortemente”, afirma o psicólogo Williballd Ruch, da Universidade de Zurique. Ruch e seus colegas estão concluindo um estudo mundial sobre a Gelotofobia, com a participação de 22 mil pessoas de 73 países, e, ao longo dessa investigação, já foi possível comprovar que o problema não se manifesta da mesma maneira – e com mesma intensidade – nas diferentes partes do mundo.

Nas nações industrializadas do Ocidente, a Gelotofobia atinge entre 2% e 13% por cento da população: dinamarqueses, 2%; britânicos e romenos, 13%. Ainda maior é o índice da doença na África e na Ásia, onde o número de atingidos pelo problema chega ao dobro. Isso tem uma explicação, segundo Willibald Ruch: “Lá, o próprio bem-estar de cada um depende mais dos outros, porque as pessoas se veem mais como parte da comunidade”.

Em comunidades pequenas, a vergonha desempenha um papel maior. E “as pessoas que têm maior tendência para sentir vergonha também sentem um medo maior de serem motivo de riso”. Claro, ninguém gosta de protagonizar uma situação como essa, mas a pergunta que os psicólogos fazem é esta: o que é normal e quando o desconforto que o riso causa ultrapassa a fronteira e se transforma em fobia?

Nos gelotofóbicos há um medo paranoide de ser ridículo diz o psicólogo Michael Titze, de Baden-Württemberg. Foi ele quem criou o termo Gelotofobia, em 1995 (em grego, gelos significa rir e fobia quer dizer medo). “Todos os pensamentos dessas pessoas giram em torno de duas perguntas: Sou ridículo? Tem alguém rindo de mim? É a manifestação de um enorme medo de passar vergonha”, afirma Titze.

Os gelotofóbicos vivem em um permanente pesadelo, porque não conseguem decodificar o humor. Ao contrário dos que sofrem de fobia social, que se sentem avaliados de forma negativa por causa da falta de jeito de alguém, os gelotofóbicos se acham totalmente desvalorizados como pessoas, o tempo todo. Em uma mistura de medo, raiva e vergonha eles se perguntam no restaurante: Será que na mesa ao lado tem alguém rindo de mim?

As raízes dessa fobia os psicólogos encontram principalmente na infância, diz Titze, que há muitos anos trata de  gelotofóbicos em seu consultório. “Os mais atingidos são, especialmente, aquelas filhos “bravos, bons” que não conseguiram se emancipar de forma adequada da casa paterna quando adolescentes”, explica o psicólogo. Os pais exageraram no freio, foram excessivos no controle. Paralelamente, foram “empedrados” em sua mímica afetiva e os filhos não conseguiram interpretar adequadamente os sentimentos deles; não aprenderam a reconhecer sentimentos agradáveis em um rosto sorridente.Selton-Mello-a-rigor-em-cena-de-seu-filme-O-Palhaco-620--size-598

Para curar os gelotofóbicos, Titze os submete a sessões de humor. Na terapia do riso, eles aprendem a rir de si mesmos. Trata-se de tirá-los do papel indesejado de palhaços para que possam assumir esse papel voluntariamente, conclui o psicólogo.

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