Putin e Obama estão reeditando a Guerra Fria?

OBAMA-articleLargeO vento não está soprando a favor da imagem de Barack Obama, presidente dos Estados Unidos. Quem afirma isso são observadores da cena internacional. Na abertura da 68ª Assembleia Geral das Organizações Unidas – ONU -, em Nova Iorque, ele se viu em situação desconfortável. Em parte, porque disputa a bola com Teerã e Moscou no que se refere aos conflitos nos países do Oriente Médio, especialmente a Síria. Mas também porque foi obrigado a engolir uma dura cobrança da presidente brasileira, Dilma Rousseff, que fez ouvidos de mercador ao pedido que ouviu dele em Moscou, recentemente: “Tem que confiar em mim. Eu sou o presidente dos Estados Unidos”.

Estariam os astros conspirando para deixá-lo em maus lençóis na cama pública internacional? Não. Obama certamente não iria se apropriar do que já foi alegado pelo “extravagante” – na definição do Wall Street Journal – empresário brasileiro Eike Batista quando seu império foi para as cucuias. Mas cometeu pecado de ingenuidade quem esperava que justificasse, explicasse e pedisse desculpas aos países que seu governo invade através do trabalho laborioso da NSA nos caminhos da internet. Contudo, articulistas do mundo estão de olho nele. Na Alemanha, colheram a impressão de que o homem mais poderoso do mundo está na defensiva.

Convenhamos, a situação é incômoda para o líder do país que herdou as virtudes e os defeitos do império britânico – o maior da história até hoje – e desde o fim da Guerra Fria, sozinho no pódio, dita o certo e o errado à periferia. A Assembleia Geral da ONU era um jogo em que também Barack Obama, na trilha de seus antecessores, podia sentir-se em casa. E não só porque ela é realizada em Nova Iorque. Até aqui, sempre que um presidente dos Estados Unidos se apresentava diante do plenário da comunidade internacional, quem estava ali era o Primus Inter Pares, o líder da única superpotência do mundo atual. Era ele quem determinava o tom dos debates.

Exigência de Dilma não foi atendida
Exigência de Dilma não foi atendida

Mas em 2013 tudo mudou. A reverência acabou. Obama sentiu desde o discurso de abertura, da presidente do Brasil, que a sua zona de conforto está menos invulnerável. Dilma Rousseff foi enfática. Mais do que isso, usou palavras duras – jornais ingleses e alemães dizem que falou com “fúria” – para condenar o monitoramento eletrônico da Petrobras e dos telefonemas e e-mails da própria Dilma pela NSA. A espionagem é uma “afronta aos direitos humanos” acusou a presidente, que exigiu um pedido de desculpas dos Estados Unidos e a suspensão, imediata, das operações desse tipo contra diplomatas, empresas e políticos de estados soberanos e amigos.

Cumprindo a programação, Obama falou logo depois de Dilma Rousseff, mas está enganado quem viu no que ele disse algum esforço para acalmar a presidente do Brasil. Afagou a ONU, elogiando o trabalho com que torna possível a solução amigável de conflitos, mas acrescentou que também os serviços de comunicação – metáfora para a espionagem – contribuíram para que o mundo de hoje seja mais estável do que há cinco anos. Traduzindo: os atentados terroristas dos últimos dias no Quênia, no Paquistão e no Iraque comprovam que o monitoramento é necessário (?). Na sequência, admitiu como legítimos os desejos dos cidadãos à privacidade e que o tráfego na internet precisa de segurança. Mas nada disso soou como o pedido de desculpas exigido por Dilma Rousseff.

OBAMA-GERMANY_No tempo em que Obama, ainda candidato à presidência dos Estados Unidos, batalhava por votos que poderiam ser influenciados pela aprovação no exterior, admiradores dele ocuparam todo o espaço em torno do Portão de Brandemburgo, em Berlim (Alemanha). Mas a esperança de paz que representava então foi se esvaindo já ao longo do seu primeiro governo, porque ele não conseguiu cumprir as promessas de campanha – o fechamento da prisão de Guantánamo, por exemplo. E sua imagem perdeu muita força agora, quando ameaçou fazer uma guerra “pontual” na Síria, onde Bashar-al-Assad estaria – ou seriam os rebeldes armados por interessados de fora do país? – usando armas químicas contra os rebeldes.

Mais uma mentira? A pergunta faz sentido. Antes de Barack Obama, em abril de 2003, George W. Bush invadiu o Iraque à revelia da ONU, apoiando-se na mesma acusação. Então o vilão era Saddam Hussein, mas o foco eram os poços de petróleo dizem analistas da política internacional dos Estados Unidos. Quem conhece um pouco de história sabe que a alegação poderia ter fundamento. Afinal, na guerra do Iraque contra o Irã, o governo norte-americano havia fornecido armas de destruição em massa ao então ditador iraquiano. Onde estão? Ninguém sabe. O que se sabe é que não foram encontradas pelos inspetores da ONU, antes da invasão pelas tropas de coalizão, e não foram encontradas depois. Até hoje. E o Iraque? Continua onde estava antes da guerra, mas agora é montanha de escombros.

Então por que deveríamos acreditar na palavra do presidente norte-americano agora, quando acusa o governo de Bashar al-Assad? Nos jornais da Alemanha se lê cautela. O que eles dizem é que Barack Obama “perdeu a magia”. Hoje ele não lotaria o espaço em torno do Portão de Brandemburgo. Joga mal? Pelo menos no que se refere à Síria, perdeu no zig-zag a bola para o russo malicioso chamado Vladimir Putin. Não fosse a oposição dele, Obama provavelmente não teria pedido o aval do Congresso para o ataque “pontual” que prometia contra Bashar al-Assad. Então mais uma pergunta: o mundo está vivendo uma nova versão, atualizada, da Guerra Fria?

É o que parece. Também para o novo presidente do Irã, Hassan Ruhani, que criticou a política externa dos Estados Unidos e pediu que o uso de drones contra inocentes em nome do combate ao terrorismo seja condenado. Totalmente ao contrário do seu antecessor, Ahmedinejad, ele garantiu que o Irã deseja contribuir para que haja paz no mundo e anunciou que está disposto a assumir um compromisso com o Ocidente sobre o desenvolvimento e o uso da energia atômica.

Ruhani disse que o Irã é âncora da estabilidade no Oriente Médio
Ruhani disse que o Irã é âncora da estabilidade no Oriente Médio

Em sua primeira fala na Assembleia Geral da ONU, Ruhani afirmou que o conflito na Síria foi militarizado por outros países através do fornecimento de armas aos rebeldes. Especificamente sobre o país que preside, disse que o “Irã pode ser a âncora da estabilidade na instabilidade do Oriente Médio” e que a sua fama de “agressor foi criada por quem tem interesses na região e procura motivo para dominá-la”. Será que vem de lá, da região que George W. Bush apontava como “eixo do mal”, a luz da esperança? Embora tenha afirmado que a tentativa de impor hábitos e costumes ocidentais aos países do Oriente Médio é uma “continuidade da Guerra Fria”, Ruhani agradou também ao conservador Wall Street Journal, que o definiu como “quebra-gelo”.

E o presidente Obama? Sem o apoio de Londres, negado em votação pelo parlamento britânico, e driblado por Putin, agora também ele está preferindo o diálogo. Resta saber até quando vai respeitar a vontade de seu povo – 64% não querem a guerra, segundo pesquisa – e resistir ao lobby dos fabricantes de armas e de outros bem intencionados quanto aos próprios interesses. Ou será que foi o mais esperto de todos quando deixou a bola nos pés do Congresso – de cuja anuência necessita – e de Putin? Para o bem e para o mal, agora ele poderá dividir com um e outro a responsabilidade sobre o que virá se o seu país desistir do papel de xerife do planeta.

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