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Para arqueólogos, os raios são “os dedos petrificados de Deus”. Para os católicos isso talvez explique aquele que bateu no Vaticano no dia em que Bento XVI anunciou sua renúncia, em 2013. Quando a descarga elétrica, formada durante a tempestade entre partículas com cargas negativas nas nuvens e positivas no solo, atinge 500 milhões de volts, ela forma um rastro de grãos de areia derretida. E há gente que coleciona esses rastros como obras de arte da natureza.

GewitterSempre que o serviço meteorológico anuncia raios e trovões, os olhos de Richard Riediger brilham de satisfação. O alemão morador em Aachen tem a arqueologia como hobby e se interessa há décadas pelos relâmpagos. No Guinness, ele consta como o homem que tem a maior coleção de fulgurites, espécie de esculturas que o fenômeno cria quando entra no solo. Não em fotos, mas nos rastros que eles deixam na terra.

Na literatura do setor, esses canais na areia já foram definidos como “dedos petrificados de Deus”, conta Riediger, que se considera dono de 30 fulgurites, amorosamente guardados em caixas com tampo de vidro e forradas com veludo. É um cuidado necessário, porque quebram com extrema facilidade. São esculturas criadas pela natureza, acredita.

Foi por puro acaso que Riediger encontrou, há décadas, uma impressionante estrutura na areia e começou a colecionar os “caminhos” que resultam da queda de um raio. Hoje, com 79 anos de idade e aposentado, ele não pode mais, por motivos de saúde, ir à procura dos fulgurites, mas pode dar aula sobre o fenômeno. É exatamente isso que ele faz, além de expor sua coleção em universidades e escolas.

Ele conta que os canais terra adentro se formam quando a descarga elétrica, que pode chegar a temperaturas de até 500 milhões de volts, bate na areia e a derrete. “Quando a areia se recompõe fica um canal de dois centímetros de largura”, explica Riediger. E a parede desse canal é feita de grãos de areia vitrificados.

Poderoso espetáculo da natureza

“Se a areia está molhada, o rastro que o raio deixa é curto, menor que dois centímetros. Quando está seca, então fulgurites cristalizados chegam a quatro metros”, afirma o alemão.  O mais longo já encontrado tem cinco metros e está guardado no Museu Natural de Detmold. O próprio Riediger sente orgulho da “escultura” de dois metros que guarda em sua casa.

Sua primeira obra de arte produzida por raio – de poucos centímetros – ele a encontrou há mais de 30 anos. Não sabendo o significado o significado da estrutura vitrificada que havia tirado da areia foi em busca de uma explicação, que recebeu de um arqueólogo africano. E também soube, através dele, que esse tipo de fenômeno é muito comum nos desertos africanos.

Na Alemanha, a incidência de raios é de dois milhões por ano, mas os fulgurites são raros, porque a maioria bate em árvores ou em torres muito altas de igrejas. Somente cerca de 10% descarregam no solo e, desses, pouquíssimos entram na terra. Enquanto muita gente puxa o cobertor porque tem medo deles – matam e causam prejuízos materiais -, para Riediger o anúncio de uma tempestade com relâmpagos e trovões é festa. “Soa como música feita de luz e som”.

O fenômeno no Brasil

0,,36203102-FMM,00Em comparação ao Brasil, recordista na incidência de raios no mundo – 60 milhões/ano segundo o Inpe -, o número de descargas elétrica na Alemanha é muito baixo. Claro, há uma enorme diferença de território entre os dois, sendo que o país europeu tem tamanho apenas um pouco superior ao do Rio Grande do Sul. Além disso, o Brasil é mais sujeito ao fenômeno por causa de sua posição geográfica– está situado na região tropical do planeta, onde as temperaturas mais elevadas favorecem a formação de tempestades.

Segundo o ELAT, do Ministério de Ciência e Tecnologia,  “essas descargas riscam quilômetros de céu até chegarem ao solo, em média com uma voltagem de 100 milhões de volts, ou seja, quase um milhão de vezes maior do que a voltagem de tomadas domésticas”. E mesmo aquelas pessoas muito corajosas, que afirmam não sentir medo, devem tomar cuidados como buscar abrigo em carros fechados ou em residências durante chuvas fortes com raios e trovoadas.

É também do ELAT este conselho: “Dentro de casa é importante ficar longe de objetos que conduzem eletricidade, como telefone com fio, celular conectado na tomada e objetos metálicos grandes”. Quem está na piscina deve sair da água, banho de chuveiro não é aconselhável, procurar abrigo embaixo de uma árvore também. Na zona rural, especialmente as áreas descampadas são alvos, assim como os campos de futebol, onde os jogadores correm o risco de serem atingidos durante a partida, porque o corpo atrai a descarga elétrica funcionando como para-raio.

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