Um jovem poeta

Afonso Antunes, poeta e músico
Afonso Antunes, poeta e músico

Tímido, mas somente na aparência. Como os poetas costumam ser, porque veem o mundo com olhos próprios. Aos 17 anos de idade, Afonso Antunes já tinha número de poemas suficientes para um livro de 112 páginas, que estava à venda no estande da ARI na Feira do Livro. Poesia de Domingo é feito de Ressaca – trago da infância; Redenção – um breve passeio; e Insônia – peso do tempo. O que o leitor encontra nesses versos passa muito longe do que um adulto já curtido pela vida poderia definir como pueril, porque a poesia é, para Afonso, muito mais do que a colheita possível nas páginas de um dicionário.

“Eu te suplico;

Não faças poesia sem ter um porquê

Pare de usar a palavra como quem usa o bidê.”

Afonso, agora com 18 anos e aluno da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), conta que entende sua poesia como necessidade de expressão. “Cada pessoa encontra o seu jeito de manifestar o que sente diante do mundo; fazer versos é o meu”, diz o jovem, que também é vocalista/guitarrista da banda Alpargatos. Os outros integrantes do grupo, formado há um ano, são: Bruno dos Anjos, no teclado; Guigo Almeida, no baixo; e Pedro Nectoux, na bateria.

A banda Alpargatos vai do rock à MPB
A banda Alpargatos vai do rock à MPB

Embora nova, a banda Alpargatos – o nome pode ser entendido como referência a um grupo de gatos, mas também remete ao gaúcho, que achou uma forma de harmonizar a pilcha com alpargatas – já é bastante assídua nos palcos de Porto Alegre e de cidades do interior. A apresentação mais recente ocorreu na terça-feira, dia 26 de novembro. E mais uma vez Afonso interpretou letras de sua autoria musicalmente resolvidas num estilo que ele define como “rock puxando para a MPB”.

Em “Como a gente perde tempo”, indie rock do segundo single gravado pelo grupo – o primeiro foi Tá ali -, a poesia se vale das notas musicais e diz que “você mora a algumas quadras daqui/você mora em alguma nota si/ mas eu queria te ver lá”. Interessante a maneira como o compositor resolve a questão do afeto, sem obviedade, principalmente por se tratar de alguém ainda adolescente se o que importa é a idade.

E onde vai parar a liberdade no uso da palavra quando quem a usa frequenta as aulas do curso de Letras? Pois é… Afonso sabe que o academicismo está na contramão do que os poetas necessitam para voar; pode ser uma camisa de força para alguém que, como ele, recorre às licenças poéticas. “Faço Letras pelo conhecimento que o curso me dá”, conta. Um mestrado? Talvez. “Ainda não sei o que me puxa/mas sou um imã”, diz em um seus poemas. Quem sabe, dedicar-se totalmente à poesia e viver dela seja um caminho… É de se esperar de alguém que proclama: “Quero vestir um paletó colorido/com o bolso cheio de palavras/que volta e meia farão poesias pelas calçadas”.

Não. Também não. Vida de poeta, ele sabe disso também, pode ser uma cama muito dura, sem um mínimo de conforto para quem se deita nela. Tanto sabe que “Estou tentando encontrar um norte; talvez nem seja o grande amor da minha vida; pode ser uma paixão; e elas acabam”. Mas enquanto a paixão pela poesia segue bem viva dentro dele, a insônia abre a porta para a solidão. E Afonso diz o que sente na Casa Vazia:

“A casa vazia:

ninguém pra perguntar

como foi o dia.

A parede carrega o silêncio

e os quatro silêncios

formam a cozinha;

onde cozinho angústia

e mastigo medo,

fazendo da solidão minha companhia.

Se a TV me deixa menos só,

não me deixa viajar

no abismo do pensamento;

onde eu posso ser rei, ser criança e esquecer o tempo

tempo que passa vazio

como o ônibus da madrugada.

A solidão me abraça e dança comigo pela sala

que era de estar, mas não estou

porque não há lar, não há alegria.

A casa segue vazia,

sem ninguém pra perguntar

Como foi o dia…”.

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