Tempo e circunstâncias

O ex-chanceler da Alemanha Helmut Schmidt voltou a Moscou. Diz ele que em turnê de despedida. Mas o homem é duro na queda. Quase centenário, faz pouco dos malefícios atribuídos ao cigarro e fuma como um condenado, acendendo o próximo no que sobrou do que está pitando. Contam que Ludwig Van Beethoven pediu “mais luz” quando se despedia do mundo. Helmut Schmidt deixa imaginar que pedirá “mais um cigarro”.

helmut-schmidt-540x304Em Moscou, ele teve uma longa conversa com Vladimir Putin, por quem foi recebido no Kremlin. Entre uma baforada e outra, o assunto entre os dois era a política mundial. Havia um belo arranjo de flores sobre a mesa. Se o aroma delas impregnava a sala? Não sei. A notícia publicada no jornal Die Zeit não entra neste pormenor.  Então o que me chegou é que, apesar da beleza delas, a situação ficou um pouco desconfortável para o anfitrião, que se viu obrigado a defender os colegas europeus diante das críticas de Schmidt aos líderes da União Europeia. Entre uma pausa e outra – às vezes desconcertante, como se vê em programas da Deutsche Welle -, Schmidt costuma dizer o que pensa. Do jeito que é. Certeiro no alvo.

“O Parlamento Europeu e a Comissão Europeia não trabalham muito bem”, disse o ex-chanceler a Putin. Depois, acrescentou que “os governos nacionais também deixam a desejar”. Aos 94 anos de idade, Helmut Schmidt acredita na existência de uma “crise das instituições” e que depois da Segunda Guerra Mundial ninguém se igualou em influência ao britânico Winston Churchill e ao francês Charles de Gaulle na política europeia. “A qualidade dos estados europeus e dos chefes de governo só foi minguando”, lamentou o representante do SPD.

schmidt 268026897E Putin? Aos 61 anos de idade, nada lhe restou afora sair em defesa de seus colegas. “A situação da economia mundial está difícil”, argumentou, porque grandes reivindicações e necessidades sociais dificultaram a solução da crise. E, provavelmente aproveitando o tempo dedicado por Schmidt a mais uma baforada, dessas que deixam o interlocutor mergulhado em uma nuvem de fumaça, o presidente russo fez um agrado ao visitante. Louvou-o como “patriarca, não somente dos países europeus, mas também da política mundial”. E ainda lhe sobrou ânimo para agradecer ao ex-chanceler por “sua forte contribuição ao desenvolvimento das relações amigáveis entre russos e alemães”, depois do estrago feito pelo nazismo, que abriu as portas para a ocupação de um pedaço da Alemanha pela União Soviética.

O ex-chanceler não diz o que pensa pela metade. Talvez a idade em que está lhe facilite isso, mas é verdade que ganhou respeito também com seu trabalho político. Em 2008 pude vê-lo e ouvi-lo no Teatro de Leipzig, onde ele participava da entrega de um prêmio. Anthony Hopkins também estava lá, como especialmente convidado.  Bem naquele momento, verão na Europa, o lixo tomava conta de Nápoles, cidade italiana, por causa de uma confusão armada pela Máfia. Helmut Schmidt usou aquele imbróglio todo para chamar a atenção sobre um fato geográfico que, segundo ele, aumenta a responsabilidade dos alemães na Europa: “A Alemanha é o país com o maior número de vizinhos no continente e isso nos pede que sejamos organizados e limpos na casa, no corpo e na mente. Não temos o direito de poluir o ambiente e o ar, seja com ideias ou com o lixo de qualquer tipo; se o fizermos estaremos afetando a qualidade de vida dos que nos cercam”.

Tenho verdadeira admiração por Helmut Schmidt. Mas seu discurso nem sempre harmoniza com o que faz. Quando, por exemplo, transforma as pessoas que o cercam em fumantes passivos. Nesses momentos ele fica tal e qual os políticos que a gente conhece em terras brasileiras, aqueles que amanhã, se estiverem no poder, cometerão os mesmíssimos erros que hoje condenam naqueles que estão no comando.  É tudo uma questão de circunstâncias. E de tempos. Helmut Schmidt teria dito a Kruschew o que disse a Putin? Kruschew teria sido tão tolerante quanto Putin? É a política…

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