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cerebro (1)O cérebro humano é composto por um litro e meio de água, clara de ovo e gordura. Como essa massa pode gerenciar toda a nossa existência? Diante dessa pergunta levam um susto – e recuam – até mesmo os pensadores mais otimistas. O neurocientista norte-americano Christof Koch assegura, no entanto, que o enigma da consciência é decifrável.

Autor do livro The Quest for Consciousness: A Neurobiological Approach, Christof Koch nasceu em Kansas City, nos Estados Unidos, filho de um diplomata alemão. Estudou em Tübingen, na Alemanha, e há dois anos dirige o Allen Institute for Brain Science, em Seattle, onde pesquisa o cérebro. Paul Allen, o fundador da Microsoft, investe meio bilhão de dólares nesse estudo.

Stefan Klein, também neurocientista, conversou com Christof Koch em Nova Iorque, sentados à mesa de um restaurante, diante de um prato de salada. A troca de ideias rendeu matéria publicada no jornal Die Zeit.

P: Podemos conversar e, ao mesmo tempo, saborear uma comida de forma consciente?

Christof Koch: Provavelmente não. Estar consciente, normalmente, significa estar atento, prestar atenção em algo. E, em regra, só podemos estar atentos a uma coisa por vez. Todo o resto altera a nossa atenção. Quando prestamos atenção a uma boa conversa, percebemos menos o sabor da comida.

P: Portanto, a atenção funciona como um filtro. O que é a consciência?

As pesquisas do neurocientista Christof Koch também colhem informações fora do laboratório

As pesquisas do neurocientista Christof Koch também colhem informações fora do laboratório

Koch: Sua percepção interior. O senhor sente o sabor do sal sobre a folha de alface, no momento seguinte vê uma imagem do meu rosto. Ao mesmo tempo precisa dar atenção às suas impressões sensoriais. Mas apenas isso não é suficiente, pois a aceitação do fato produz apenas sinais físicos: as moléculas sobre a sua língua, as ondas de luz que seus olhos alcançam. Mas o senhor tem percepções – um sabor, uma imagem na cabeça. E isso é algo completamente diferente. Essa vivência se origina em algum lugar do cérebro. Como acontece ainda é um grande mistério.

PPara a maioria das pessoas isso parece que é a coisa mais natural do mundo.

Koch: Mas o peixe reflete sobre a água enquanto nada? A verdade é que só notamos a consciência quando ela desaparece. Normalmente, somente um sono profundo, narcose ou sérias perturbações mentais depois de um acidente vascular nos fazem ver que a consciência não pertence obrigatoriamente a nossa vida.

P O senhor estuda este assunto há quase 30 anos. O que o levou a ele como neurocientista?

Koch: Estar consciente é a antecâmara para quase todos os outros conhecimentos. Como posso comprovar que o universo existe? E como posso saber que existo? Só quando vivencio ambos. Estar consciente é a única realidade sobre a qual podemos estar certos. Descartes já reconhecia isso.

P“Cogito ergo sum” escreveu Descartes. Traduzindo: “Penso, logo sou.” Em todo caso nunca entendi por que tudo recai sobre o pensar. A mim parece que é mais fundamental que eu perceba: estou aqui.

Koch: Acredito que Descartes se refere a exatamente essa percepção. Posso imaginar qualquer coisa – por exemplo, que uma mulher inacreditavelmente atraente me ama – e estar totalmente errado. Mas sobre minhas experiências internas não posso me enganar. Hoje Descartes, provavelmente, diria: “Estou consciente, portanto, sou”. A consciência do ser é a propriedade básica do universo no qual vivo.

 P: O senhor um dia falou de “meu incontrolável desejo de acreditar que a vida tem um sentido”. E essa vontade o levou à busca dos conhecimentos antigos.

Koch: Eu fui um católico crente. Meus pais me educaram dentro da religião, fui coroinha e as aulas na escola jesuítica aquietaram minha busca por um sentido. Mas como físico, no laboratório, descobri outro mundo. Aqui a ciência esclarece os fatos; lá a criação se fazia por obra de Deus. Eu vivia em uma verdade dividida – uma realidade para os dias da semana, uma para os domingos, quando ia à missa. Mas um dia encontrei Francis Crick …

Biólogo Francis Crick

Biólogo Francis Crick

P: … biólogo molecular e neurocientista britânico que, em 1953, com James Watson, descobriu a estrutura da molécula de DNA. Em ele ganhou o Nobel por “suas descobertas sobre a estrutura molecular dos ácidos nucleicos e seu significado para a transferência de informação em material vivo”.

Koch: Depois que esclareceu esse mistério, ele se interessou pela consciência. Nós começamos, na década de 1980, um trabalho conjunto. Hoje, pensando sobre isso, acredito que fui levado a isso pelo meu desejo secreto de ter a certeza de que a ciência falhou na pergunta sobre a consciência.

P: .. quis falhar.

Koch: Sim. Assim poderia mostrar por que precisamos da religião: para esclarecer como se originou a consciência no mundo. Aqui Deus entra no jogo. Mas com o tempo cheguei à conclusão de que a consciência pode ser esclarecida de maneira totalmente natural: com neurônios, teoria da informação e por aí afora. Não se precisa de religião.

P: Crick sempre pensou dessa forma. Em 1961 ele renunciou a seu posto no Churchill College da Universidade de Cambridge, quando quiseram construir uma capela no campus. Crick queria libertar o mundo de sua crença em Deus. O ateu convicto e o católico em dúvida: vocês dois devem ter formado uma dupla interessante. Sua fé foi assunto entre os dois?

Koch: Não. Francis era um homem bom e quis me deixar em paz com minhas dúvidas. E eu não estava emocionalmente maduro para abrir mão da minha religião. Mas ele me ensinou como se pode levar uma vida boa, cheia de sentido e correta sem acreditar na figura de um pai no céu ou em uma vida após a morte. E eu o admiro por isso, a forma estoica como lidou com seu envelhecimento e mortalidade. Morreu em 2004, de câncer intestinal. Com seu comportamento provavelmente me possibilitou resolver a questão da fé religiosa.

P: Portanto, o senhor foi prisioneiro de suas angústias sobre a fé durante mais de duas décadas.

cristianismo1Koch: Porque precisei de um tempo para percorrer esse caminho. Ao mesmo tempo, ansiava muito por um sinal de Deus. No começo de meu trabalho com Crick dirigi na costa leste dos Estados Unidos um curso de verão sobre computadores na pesquisa do cérebro. Fizemos uma festa no litoral, uma banda tocava e eu estava bastante embriagado – e inquieto. Há pouco tinha lido em A Gaia Ciência, de Nietzsche, a passagem do livro em que ele nos define como coveiros de Deus. Por volta da meia-noite fui sozinho até a beira do mar. O céu estava nublado e havia temporal no ar, refletindo como me sentia. Comecei a chamar por Deus, em alemão: “Mein Gott, wo bist du?(Meu Deus, onde estás?”) Subitamente uma luz me cegou e uma voz me respondeu.

P: O que o senhor ouviu?

Koch: “Que diabo, vai para o inferno! Desaparece da beira do mar”! Deus se mostrou a mim como lutador raivoso! Eu não tinha visto esse homem, que pretendia dormir na areia. De qualquer maneira corri dali, tão rapidamente quanto pude, de volta à festa. Aos poucos, os dogmas da Igreja foram perdendo importância para mim. Mas continuei com a cabeça ocupada em entender por que a ideia de uma alma não poderia harmonizar com uma ciência do conhecimento, da consciência.

P: A crença em uma alma parece que é, para as religiões, mais essencial do que a crença em um ser superior. As fantasias em torno da alma e da imortalidade desempenham um papel em praticamente todos os sistemas de fé. Em contraposição, existem religiões importantes sem Deus – por exemplo, o budismo.

Koch: Na primavera passada passei uma semana com Dalai Lama na Índia. Conversamos sobre o estado de consciência. Ele acredita em reencarnação, mas nós, os cientistas, não. De resto achei que muitas das ideias dele se aproximam das nossas – certamente também porque o budismo não conhece um Deus criador de tudo. Mas o senhor tem razão quando diz que a pergunta sobre consciência e alma é mais central que Deus também para as religiões. Isso acontece porque observamos nossa própria consciência e queremos uma explicação para isso.

P: De toda maneira, a religião oferece respostas muito mais fáceis que a ciência. O cérebro é incrivelmente complexo.

Koch: Oh sim. Apenas no tamanho de um grão de arroz há quase um milhão de células nervosas, ligadas entre elas por bilhões de conexões e sinapses. Se essa fina cadeia fosse desenrolada na massa cerebral chegaria a 20 quilômetros! E não há somente um ou dois tipos de neurônios nesse grão de arroz, mas cem tipos diferentes. Ainda não sabemos o número exato. Cada vez que avançamos um passo no que já sabemos sobre o cérebro notamos que ele é ainda mais complexo do que se imaginava até então. Mas também a essa complexidade devemos a consciência.

P: E, mesmo que o senhor tivesse examinado o cérebro em seus mínimos detalhes, o problema ainda estaria longe de ser resolvido. Então ainda não se tem como esclarecer a percepção individual. O microscópio e nenhum aparelho medidor podem mostrá-la. Para entender como vivenciamos um fato, o único jeito é que cada um de nós olhe para dentro de si mesmo. Mas como descobrir se o café tem para mim exatamente o mesmo gosto que tem para o senhor?

Koch: Posso me aproximar da sua experiência, mas nunca poderei alcançá-la por completo. De qualquer maneira, nossos cérebros funcionam de forma muito parecida. Não fosse assim, não seria possível que um romance ou uma ópera pudesse emocionar milhões de pessoas. A ópera Tristão e Isolda, composta por Richard Wagner há mais de 100 anos, ainda nos comove porque todos nós nos já estivemos apaixonados. E hoje temos novas possibilida6des para pesquisar processos internos, podendo identificar modelos de atividades no cérebro.

P: Isso quer dizer?

Koch: Meu laboratório trabalha há mais de dez anos com neurocirurgiões que, às vezes, implantam eletrodos no cérebro de epiléticos para diminuir a frequência dos ataques. Enquanto os eletrodos estão na cabeça dessas pessoas, podemos fazer experiências com elas. Por exemplo, nós lhes mostramos imagens e vemos como os neurônios conectados reagem. Muitas vezes são fotos de atores de cinema. Certa vez tivemos uma mulher que trabalhava nos estúdios e conhecia Jennifer Aniston pessoalmente. Sempre lhe mostramos uma imagem da estrela era o mesmo neurônio que reagia. Surpreendentemente ele só respondia a Aniston, a nenhum outro ator e a nenhuma outra loira. Em outros cérebros encontramos um neurônio que só respondia a Halle Berry ou a Clinton.

P: Isso sinalizou algum tipo específico de experiência?

Koch: Essa paciente dizia: “Oh sim, eu vejo Jennifer Aniston nitidamente.” E o neurônio reagiu não somente a imagens, mas também quando a legenda era “Aniston”. Ou quando alguém lia o nome dela. A célula cinzenta, portanto, não tinha um código do rosto, mas algo como o “conceito Jennifer Aniston”. Assim, temos claramente grupos de neurônios especializados para tudo e com quem temos familiaridade – células cinzentas para nossos parceiros, filhos, animais domésticos, o carro e também proeminentes.

P: O espírito domina a matéria.

Koch: Eu diria que uma parte do cérebro dirige a outra. Quando peço aos pacientes que nos próximos 10 minutos pensem em Marilyn Monroe, essa orientação é armazenada na memória curta, localizada na testa. Todas as células cinzentas nesse local têm influência sobre neurônios profundos, que estão a serviço das lembranças guardadas na memória de longo tempo. Coisa parecida acontece quando reprimo meu impulso de, agora, comer mais uma sobremesa. Uma parte de meu cérebro quer satisfazer essa vontade imediatamente, mas outro sistema calcula as consequências em longo prazo para a minha saúde e me impede de pegar mais um doce. Esse tipo de função exercem também as regiões atrás da testa. Com determinadas técnicas de meditação podemos treinar esse controle mental.

P: A gente aprende, através disso, a se controlar sempre mais.

Koch afirma que a escalada de uma rocha equivale à concentração que se atinge na meditação

Koch afirma que a escalada de uma rocha equivale à concentração que se atinge na meditação

Koch: O que impressiona é quanto se pode alcançar com esse tipo de práticas. A maioria das pessoas pensa e age seguindo seus impulsos. Sentem fome, então comem; uma preocupação lhes vem à mente, então se deixam levar pelo vento. Quem costuma meditar pode se libertar dessas influências. Pessoas muito treinadas na meditação conseguem, inclusive, libertar-se da dor e dos motivos dela. Não interessa de onde sopre o vento, o barco segue seu curso. Pode ocupar-se de um assunto durante horas. Infelizmente, essa maravilhosa capacidade tem um preço: precisamos treiná-la durante muitos anos.

P: Como acontece com tudo que a gente quer realmente dominar.

Koch: Sim, é uma habilidade extrema. Aqueles que a alcançaram contam com alegria: “Oh, você a pratica seis minutos, todos os dias, durante vinte anos. Então vai conseguir”.

P: O senhor tentou?

Koch: Sim. Mas então me perguntava se queria mesmo dedicar metade da minha vigília a isso, sentado em posição de lótus e meditando sobre o nada. Poderei descansar quando estiver morto. Prefiro fazer experiências. Assim, resolvi tomar outro caminho.

P: Participa de maratona no Death Valley e escala montanhas bastante íngremes.

Koch: Tudo isso tem muita semelhança com a meditação: precisamos estar extremamente concentrados no que fazemos. Então o Eu- a consciência de si mesmo, essa crítica interna que sempre nos acompanha – desaparece. Quando corremos horas através de montanhas quase entramos numa zona em que não há tempo. O Ego desaparece. Isso traz felicidade. Psicólogos chamam isso de Flow.

P: Nesses momentos, a consciência é tomada por uma percepção muito forte: estou aqui. Existo. E a vida interior fica simples.

Koch: A gente sente a presença do próprio corpo no entorno, no que nos cerca. Quando escalamos, a vida externa se torna muito evidente, muito presente. Vemos a menor falha no granito. A posição do sol fica muito clara, sabemos a exata posição dos ganchos e onde está o último apoio de segurança.

P: O que torna impossível o estado de consciência no computador?

Koch: Em princípio nada. Talvez um dia possamos reproduzir nossos pensamentos e sentimentos em uma máquina. Se isso acontecer, então poderemos transferir todas as informações diretamente do cérebro para o computador. Nossa personalidade se tornará imortal. Lamentavelmente não estarei aqui para vivenciar esse dia.

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