Tempo desperdiçado na TV

O senador Aécio Neves abriu a série de entrevistas na Globo News com os candidatos à presidência do País. Se a estratégia que usou é uma amostra do que veremos ao longo da campanha eleitoral, não teremos debate de ideias. Teremos guerra. Quando o programa terminou, a imagem que me ficou do tucano é a de um pretendente que corre o risco de perder a noiva, porque a obsessão em demolir o rival no coração e mente do povo votante, de quem busca consentimento para o casório, rouba dele o tempo que deveria usar para esmiuçar sua própria proposta de governo.

É perigoso subestimar esse povo. Grande parte dele, graças à política social executada ao longo dos últimos anos, saiu da pobreza e hoje faz parte da classe média. Esse povo desconfia de quem só atira pedra na vidraça do rival, mas nada de concreto oferece como alternativa.  Ele desconfia de quem se mostra tão empreendedor na arte da fuga quando chamado para dizer como irá garantir a saúde – em todos os aspectos – da enorme família que terá sob sua responsabilidade se for vitorioso nas urnas em outubro, ou em novembro (se houver segundo turno).  E a desconfiança só aumenta na medida em que o discurso expõe a contradição.

É desse mal que a estratégia de Aécio Neves sofre. A incoerência ficou evidente na entrevista a Renata Lo Prete, editora de Política da Globo News. Logo de saída, na resposta ao primeiro questionamento, ele foi absolutamente evasivo. Fiquei à espera de uma reação da jornalista; que ela tomasse as rédeas do programa e repetisse a pergunta: “O senhor critica o número de pastas do atual governo e afirma que vai reduzi-lo. Quais pastas serão extintas”? Afinal, jornalismo se faz com lógica, sim, mas também com uma boa dose de psicologia. Meu raciocínio: se um candidato à presidência do País aponta exagero na administração em andamento e o considera grave desperdício de dinheiro público deve saber onde o abuso acontece. Então deve saber também o que deverá cortar se assumir o cargo.

Mas foi somente no segundo segmento da entrevista que a jornalista adotou uma postura mais incisiva. Transformou as acusações de Aécio Neves ao PT em tiro no pé, fazendo uso delas para expor contradições: apoiou a criação do Solidariedade, mas condena o que considera excesso de partidos no Brasil; acusa Dilma de solapar o setor energético, mas absolve Fernando Henrique Cardoso de responsabilidade no apagão ocorrido durante o governo dele;  afirma que, no seu primeiro dia no governo,  vai criar uma secretaria para simplificar o sistema tributário, mas condena o excesso de ministérios no governo Dilma; e o mensalão é pecado do PT, mas o escândalo dos trens – o trensalão – no governo do PSDB em São Paulo não pode ser computado ao partido. Quando sentiu a mudança do clima, o tucano apelou ao clássico “me deixa falar”.

A jornalista deixou. E ele continuou dizendo o equivalente a nada já que o foco da entrevista era a sua proposta de governo.  A única pergunta que Aécio Neves, homologado candidato no sábado, respondeu sem tergiversar foi esta: “Sua candidatura à presidência é uma questão circunstancial ou de destino”? E, claro, ele se acredita predestinado. Com a bênção de Tancredo Neves. Mas, para ombrear com o avô na política, ele precisa ainda vencer inimigos na própria trincheira. Falta-lhe consistência. Falta-lhe um projeto. Por enquanto é refém do PT e Dilma. Essa é a leitura que o programa me possibilitou.

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