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O patrono autografa no dia 6 de novembro, a partir das 18hortiz 10649579_943177169029282_685019266483657204_n

 

“Finalmente”, Airton Ortiz! O advérbio usado pelo presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Marco Cena, quando anunciou o patrono da 60ª Feira do Livro, faz muito sentido. Afinal, combinação de romancista, jornalista e viajante que divide com os leitores as aventuras radicais que protagoniza mundo afora, Ortiz acarinhou estoicamente a expectativa dessa honraria em nove edições anteriores.

E agora? Pensou em algum jeito especial para marcar esse momento? A resposta vem sem pestanejar: “Como sempre fiz, estarei na Feira do Livro todos os dias”. É verdade. Desde 1975, Ortiz só faltou à edição de 2013, mas tinha uma boa justificativa. Longe do Brasil por um ano, estava preparando seu 17º livro – Paris, uma reunião de crônicas – que vai lançar agora, enquanto patrono.

“Bueno”. Essa foi a sua primeira palavra em fala rápida antes do anúncio de seu nome como patrono. E ela o recolocou no cenário de uma palestra em Caçapava, onde um ouvinte ressaltou que havia gostado “principalmente do bueno”. Seguiu nesse tom. Contou que sua persistência na espera pela honraria teve o incentivo até do porteiro do prédio onde mora. “Não desiste”, ouvia dele.

Recordou Tempo de Solidão. Foi seu primeiro livro, uma seleção de poesias, de 1975. Naquela época, a liberdade de expressão estava amordaçada no Brasil, “mas combatíamos a ditadura com poemas que vendíamos nos bares, substituindo o fuzil”. Um detalhe: quem pagava a impressão das poesias eram os autores. Depois criou a Cooperativa dos Escritores. E quando o governo do então presidente Geisel editou um “pacote ordenando o fechamento do Congresso”, a cooperativa lançou o livro também chamado Pacote.

A Editora Tchê foi um longo capítulo na vida de Airton Ortiz. Ficou no ar durante 15 anos, lançou cerca de mil títulos e “causou um boom do livro gaúcho”. Hoje, “gosto de pensar que sem a Tchê os brasileiros não teriam lido cinco milhões de livros”.

Nas mais de 50 palestras que realiza por ano – e como patrono de 15 feiras no interior -, ele insiste em que “ler não é um dever; é um direito”. Básico. Agora leva essa bandeira à Feira do Livro de Porto Alegre. Com uma certeza: “O livro é a maior e melhor arma que temos na luta pela liberdade”, porque “dissemina ideias”.

Como afirmou em entrevista coletiva no auditório Museu de Direitos Humanos do Mercosul, Ortiz acredita que, ao contrário do que muitos imaginam, “são as ideias, não as armas, que fazem revoluções”. Como exemplo disso, o patrono citou a Revolução Francesa em que Humanidade, Fraternidade e Liberdade foram “ideias que transformaram rebeldes em revolucionários”. Por isso a Feira do Livro é, na visão dele, uma “praça de batalha não armada”, como foi a proposta de Ghandi, que pregou a resistência passiva – sem armas – pela independência da Índia do jugo britânico na metade do século passado.

P O próximo livro já está em andamento? Sobre o quê?

Airton Ortiz – O próximo livro seria um romance que se passaria na África, contando a exploração do marfim, mas a região está sob epidemia do vírus ebola. Então estou pensando em escrever um novo volume da coleção Aventuras pelo Mundo, sobre cidades. No caso, Nova York.

 PO que lhe custam, física e emocionalmente, as aventuras radicais?

Airton Ortiz – Preciso estar saudável e ter um bom preparo corporal, além de algumas habilidades especiais para sobreviver na natureza selvagem. Emocionalmente é mais complicado. Ainda temos muito pouco domínio sobre o nosso lado emocional e isso pode nos levar ao descontrole diante de algumas adversidades, não apenas físicas, mas também emocionais e psicológicas.

P Já esteve em 80 países. Para quantos deles voltaria a qualquer momento e por quê?

Airton Ortiz – Os três países mais interessantes que já visitei são a Tanzânia (pela natureza selvagem, em especial os grandes animais, como os chamados “Big Five” – leão, elefante, girafa, rinoceronte, hipopótamo – encontrados em todo lugar, pois um terço do país é formado por parques nacionais); o Nepal, por causa das belezas naturais. A fronteira sul do país está no nível do mar (floresta tropical) e a fronteira norte tem a cordilheira do Himalaia, com os pontos mais altos da Terra. Entre esses dois extremos, distantes apenas 200 km um do outro, temos todos os ecossistemas existentes no planeta, incluindo flora e fauna; e a Índia, país com a maior diversidade cultural do mundo. E eu considero a diversidade o que de mais importante a humanidade já construiu.

PDá para conciliar todas as diferenças? O teu “bueno” nunca se espanta ou se recolhe?

Airton Ortiz – O que se deve fazer é respeitar as diferenças, pois elas são o que temos de melhor. O diferente nos completa, mas desde que continue diferente. O meu “bueno” se espanta, sim. Por exemplo, diante do “oxente” nordestino, do “Ok” cosmopolita, ou do “namastê” indiano; e espanta também. Isso é muito bom, pois marca o que temos de melhor: a capacidade e o direito de sermos únicos. E sempre que surge um ditador, a primeira coisa que ele faz é unificar tudo, inclusive o pensamento. Lembra como o Getúlio aboliu as bandeiras estaduais e a ditadura militar criou a Globo?

Quem é Airton Ortiz

A família era humilde. Assim, o menino nascido em Rio Pardo, no dia 27 de novembro de 1954, calçou seu primeiro par de sapatos somente aos 10 anos de idade. Mas já sabia da existência de um mundo imenso e rico além de sua paisagem cotidiana, porque ouvia a rádio Guaíba. Influenciado por ela decidiu que seria jornalista. Estava com 14 anos.

Depois também virou empresário. Mas tomou uma decisão revolucionária quando voltava de uma viagem ao México: aposentar a rotina e abdicar do conforto para se aventurar em viagens radicais. Desde então foi ao Tibete, ao Kilimanjaro e a outros lugares em que mortais comuns não ousam colocar seus pés. Desde então escreveu 17 livros. E, em dois deles, revela mais uma face: a de romancista.

Sobre suas aventuras radicais ele diz: “Já me perguntaram se é difícil escalar uma montanha, mas o difícil mesmo é chegar à conclusão de que escalar aquela montanha é importante pra ti. Tem que ter CHA: Conhecimento, Habilidade e Atitude, ou seja, tem que se conhecer em primeiro lugar, tem que possuir habilidades e, o mais importante, é necessário que se tenha atitude para colocar tudo isso em prática. Sem atitude somos simples mortais e não iremos a lugar nenhum”.

Título: Obras de Airton Ortiz  –1999 – Aventura no topo da África; 2000 – Na Estrada do Everest; 2001 – Pelos caminhos do Tibete; 2002 – Cruzando a Última Fronteira; 2003 – Expresso para a Índia; 2004 – Travessia da Amazônia; 2005 – Egito dos faraós; 2006 – Na trilha da Humanidade; 2007 – Em busca do Mundo Maia; 2008 – Cartas do Everest; 2009 – Vietnã pós-guerra; e Retratos da Terra; 2010 – Aqui dentro há um longe imenso; e Havana; 2011- Jerusalém; 2012 – Gringo; 2013 – Atenas; e Foi o que coube na mochila; 2014 – Paris.          

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