A água deve ser privatizada?

No Facebook está rolando a inconformidade de gente em relação a declarações feitas pelo empresário austríaco Peter Brabeck-Letmathe, presidente da Nestlé desde 2005. Ele defende a privatização da água. A propósito disso, lembrei de uma entrevista que encontrei no jornal alemão Die Zeit (versão online) sobre o mesmo tema. Resolvi traduzi-la e reproduzi-la neste espaço.

“A água precisa de um preço”

Empresas privadas podem ajudar a abastecer o mundo de água, diz o especialista Denis Schmidli. Mas como é possível conciliar interesses econômicos com responsabilidade? Reportagem de Alexandra Endres.016

PSenhor Schmidli, por que investidores devem investir em água?

Denis Schmidli: A água é um recurso escasso. Já agora mais de 800 milhões de pessoas, mundo afora, não têm qualquer acesso à água potável. Na verdade, podem ser até mais, porque a população cresce. Em 2050, o planeta Terra terá 9 bilhões de habitantes, segundo projeções; hoje são 7 bilhões. Um número cada vez maior de regiões sofre os reflexos da falta de água. Sem água não se pode sobreviver, é o primeiro passo para que se possa ter uma vida digna.

PEmpresários ativos no setor da água querem, antes de tudo, fazer negócios. Por que deveriam se interessar pelo bem-estar dos pobres?

Schmidli: A indústria da água dá sua contribuição para reduzir o problema de escassez. Concordo quando se diz que o recurso é seguidamente politizado. É preciso defender o direito básico e fundamental de todo ser humano à água. Mas para que isso seja possível necessitamos de uma rede de abastecimento, necessitamos de tecnologia – os estados não conseguem, sozinhos, providenciar essa infraestrutura. Quem fornece a tecnologia é o empresário. Muitas empresas têm peso na bolsa de valores, onde se oferece a possibilidade de investir nelas. O investidor lucra, seu dinheiro produz algo de bom, no fim também os consumidores são beneficiados. Esta é uma clássica Win-Win-Situation (situação em que todo mundo ganha).

PPara isso é absolutamente necessário privatizar o abastecimento público da água?

Schmidli: Não é totalmente necessário. Mas em alguns países o Estado não tem a menor condição financeira para fazer os investimentos. Na China, por exemplo: lá é preciso instalar infraestrutura em povoados onde a rede de abastecimento nunca chegou, e alguns desses povoados crescem muito rapidamente. A mão pública não pode arcar com esse benefício nessas dimensões, mas empresas especializadas, com Know-how adequado, podem contribuir tanto como fornecedoras de tecnologia quanto como especialistas em abastecimento.

PUm argumento que o senhor usa para chamar investidores diz:  “O preço da água sobe mais que a inflação”. De que forma isso serve ao direito que os pobres têm à água?

Schmidli: A água precise de um preço. Só quando isso acontecer a humanidade vai lidar de forma sensata com esse recurso. Eu não consigo imaginar que os preços cheguem a um patamar impagável. Na China,para ficar no mesmo exemplo, a instalação da rede de abastecimento custa significativamente menos que na Alemanha, mesmo quando feita em nível igual de dificuldade. Estados têm seu próprio interesse em evitar o surgimento de conflitos por causa da água. Empresas só operam onde seus interesses comerciais são viáveis. E os consumidores se retraem quando os preços sobem demais.

PIsso já aconteceu. Na Bolívia, investidores internacionais deixaram Cochabamba depois de protestos. Também em La Paz moradores protestaram contra um consórcio com participação do Suez, do qual participa o Pictet-Wasserfonds. Como lida com conflitos desse tipo?

Schmidli: Nós asseguramos o ambiente político, regulatório e operativo em que uma firma atua no nosso processo de investimento. As empresas são testadas de acordo com critérios que analisam sua capacidade de concorrência em diversos setores, entre os quais, sua saúde financeira, seu interesse na ecologia e o ambiente de trabalho que oferece a seus empregados. É que, em longo prazo, um não funciona sem o outro. Examinamos os interesses de todos os grupos que serão influenciados pela atividade empresarial. Desdobramentos políticos também desempenham um papel.

PNo momento, quais são os desenvolvimentos mais importantes no mercado da água?

Schmidli: Países em crescimento ganham cada vez mais importância. Á China declarou a água recurso fundamental do século XXI. Naquele imenso país, a água é escassa, mas sem água não há desenvolvimento. Por isso o país precisa investir no abastecimento de água, em técnicas modernas. Isso leva a uma tecnologia de transferência, através da qual as empresas chinesas poderão crescer novamente. Para nós, isso abre as portas para novas possibilidades de investimentos.

Outro impulso para o desenvolvimento é o abastecimento industrial. Um número crescente de empresas delega as instalações da rede de água a especialistas. Um fato é que, desde 1900, o consumo de água pelas indústrias cresceu muito mais que o privado.

O terceiro impulso: a via pública vai tentar transferir tarefas a um custo menor, através de licitações. O abastecimento de água permite isso. Atores privados podem, em muitos casos, se organizar de forma mais eficiente. Esse tema vai ganhar importância nos próximos anos.

PPortanto, os investimentos de maior peso são possíveis em países em desenvolvimento ou industrializados. O que vai acontecer com os pobres? O senhor disse que empresas privadas podem transformar o direito desses países à água em realidade.

Schmidli: As condições do cenário precisam favorecer os investimentos. Um país instável, que é corrupto ou inseguro, assusta os investidores. Este é o grande problema. E não é bonito. Mas os próprios países precisam mudar isso. As empresas não podem impor nenhuma segurança para investimentos.

 

 

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