Pelas ruas e avenidas do Brasil

Estão em toda parte, ao longo dos caminhos que percorro em Porto Alegre, aonde a noite chega mais cedo e mais fria no inverno, usurpando pedaços do dia.  Estão pelas calçadas em número cada vez maior. Estendendo a mão. Pedindo.

15 de julho de 2015. Na Rua Santa Cecília, meus pensamentos são interrompidos. Ela se aproxima e me conta seu drama. Fome. Fala quase sussurrando. Mais parece uma confidência. Envergonhada? Acho que sim. Então lhe dou uma ajuda também de forma absolutamente discreta e sigo meu caminho.

Meia hora depois, vejo quando um homem se mistura aos que esperam pelo ônibus da linha Jardim Ipê na parada em frente ao Bourbon Ipiranga. Nada discreto. Pelo contrário. Ele anuncia aos quatro ventos que já não aguenta tanta fome. “Meu estômago dói”, diz, a mão nele para reforçar a queixa e despertar compaixão de quem está em volta. Não duvido, porque sei, por experiência própria, que o frio aguça essa sensação. Entrego-lhe o valor da passagem, ouço um “obrigado” e tomo o rumo de minha casa. Um passo depois do outro.

Novamente na Rua Santa Cecília, mais um encontro. Dessa vez quando estou à espera de uma chance para atravessar a via pública, um pouco preocupada porque a noite já está alargando as sombras debaixo do arvoredo e a luz providenciada pela CEEE é quase nenhuma. Aliás, como de hábito. Então o jovem se aproxima. Vem correndo, com os braços abertos. Mostrei medo? Acredito que sim, porque ele anuncia: “Pode ficar tranquila; não quero lhe fazer mal; só preciso de um troco para o leite do meu menino, que não come nada desde a manhã; ele está com fome”. Meto a mão no bolso do casaco. Como não, depois de ver os olhos da criança?

E retomo o caminho para casa. Leve, em paz comigo, embora consciente de que essas ajudas são soluções apenas momentâneas. Matam a fome do estômago, mas não alcançam o que deveria ser resolvido neste Brasil: a raiz dos problemas. Um deles, a paternidade sem-noção, porque simplesmente acontece, como resultado de uma urgência, principalmente do homem. Ele descuida da precaução que deveria tomar, mas não toma, porque vê a gravidez como fenômeno unicamente feminino, como se a terra – metáfora muito usada para definir a mulher – pudesse produzir sem que nela fosse plantada a semente.

27 de julho de 2015 – Paciente, espero que o sinal abra para os pedestres na esquina da Fernandes Vieira, onde acabo de fazer algumas compras no supermercado. Então alguém me cutuca o ombro. A jovem suplica que lhe compre “pacote de fraldas, lá, naquela farmácia”. Lê dúvida na minha reação, levanta a blusa para mostrar a barriga crescida e explica: ”Fui estrupada”.  Não me deixa ir. Segue atrás de mim até a farmácia, onde já é conhecida e sabe o preço de todos os tipos de fralda. Pede as “mais baratas”.

3 de agosto de 2015. Estou com pressa e tomo um taxi. Logo no começo do trajeto, o motorista me diz que “também vendo panos de prato; é minha mulher quem faz”. Fala e mostra o produto. “três por dez”, acrescenta. Os panos são bonitos. O preço é bom. Mas, caramba! Sinto-me assaltada.

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