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152Há quase duas semanas ando pelas ruas de Porto Alegre recriando roteiros e, ao mesmo tempo, sentindo saudade dos caminhos do interior de Goiás que percorri em agosto. Na Chapada dos Veadeiros, a cerca de 220 km de Brasília, meus pés avançaram – acusando desconforto – sobre paus e pedras de trilhas absolutamente íngremes, empurrados pelo estoque de força de vontade que carrego comigo. Valeu o esforço?

202“Foram tantas emoções”, diria Roberto Carlos. Por motivos que não os dele, digo a mesma coisa sobre essa viagem que, ao longo de apenas dois dias – sábado e domingo -, foi da curiosidade à falta de ar diante da beleza natural construída ao longo de bilhões de anos. E, agora, o rastro que essas emoções deixaram me impõe esse tom que, embora pessoal, ainda assim ficará distante da profundidade com que as senti. Repetiria a dose? Sim. E quanto às dificuldades fora da zona de conforto? De passo em passo elas vão ficando para trás, disse a meu filho, Diego. Além disso, lá adiante a recompensa está garantida, ouvi dele, que adora esse contato estreito com a natureza.

x.x.x.x.x.

053A Chapada dos Veadeiros se localiza no pico do Planalto Central brasileiro, a 1700 metros de altitude diz uma fonte. Outra afirma que são 1676 metros acima do nível do mar. Mas não vou me deter na diferença. Esse tipo de informação o amante de aventuras encontra na internet; com mais detalhes no livro Berço das Águas do Novo Milênio, de Miguel von Behr, e também na obra História do Homem e da Terra no Planalto Central, do historiador Paulo Bertram.027

Fazem parte da Chapada dos Veadeiros o Parque Nacional criado por Juscelino Kubitschek em 1961 e hoje com 65.515 mil hectares de extensão; e, fora desse parque, mais de 120 cachoeiras. A maioria delas fica na área do município Alto Paraíso de Goiás, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Além disso, ele funciona como imã, atraindo grupos místicos e esotéricos para os quais a região oferece um “novo modelo de vida e paradigma para o homem do novo milênio”, segundo conta Miguel von Behr em seu livro.

Isso explica alguns aspectos que saltam aos 114olhos dos visitantes. Entre eles, a estrutura que, na entrada da cidade, lembra uma nave espacial. Outra: casas, templos e santuários construídos em forma de pirâmide com um cristal no topo remetendo ao tempo do garimpo em Vila São Jorge, onde o gerente da pousada Águas de Março lembra, com uma nota de orgulho, que “aqui já trabalharam mais de 4 mil garimpeiros”. Uma terceira característica é a profusão de centros de terapia holística. O traço de união entre todos eles talvez seja a crença em que o Planalto Central do Brasil se construiu com a contribuição de extraterrestres.117

Geologicamente, a região é a mais antiga da América do Sul – de 570 milhões a 4,7 bilhões de anos – e “já era um continente quando o resto do mundo ainda estava submerso nos oceanos (Behr)”. Também historiador, Ignazio Schmitz afirma que 9 mil anos antes de Cristo o Planalto Central já era habitado por humanos e, como prova disso, cita os desenhos rupestres encontrados em abrigos rochosos. Seja como for, o fato é que a Chapada dos Veadeiros chama gente de tudo quanto é lado do planeta.

Um exemplo disso? Em Alto Paraíso de Goiás, o dono do restaurante La Vitta è Bella é italiano. E anche Fabrizio, o chef que tem o segredo de uma massa muito saborosa. Di dove? Di Brescia, responde. Pela janela ouço, mesmo sem querer, a conversa entre uma professora e um turista alemão. A atendente conta que uma comunidade de norte-americanos está em plena formação e já tem cerca de 40 famílias que passam metade do ano em Alto Paraíso e a outra metade nos Estados Unidos. No restaurante Tapindaré vejo a mãe correndo atrás da filha. Pede calma e ralha em francês. Em algum momento, as três línguas – e outras – acabam competindo com o rumor das águas nas cachoeiras.

Simples por escolha

108A “porta de entrada” é Vila São Jorge, extremamente receptiva e simples. As ruas ainda são de terra batida, o que significa muita poeira em épocas como agora, quando as nuvens de chuva chegam e se afastam ligeirinhas, deixando para trás alguns pingos que o calor consome num piscar de olhos.

Segundo o dono do Campanella – nome da flor que enfeita a lateral da fachada do restaurante -, a verba para o calçamento já foi aprovada, e os moradores reclamam do atraso no começo da obra. Mas ele faz uma ressalva: “Não queremos asfalto; queremos que a prefeitura use um tipo de pedra que, com um desenho apropriado, deixe a água fluir para dentro da terra”. Essa preferência, além de mostrar preocupação com o meio ambiente, confirma uma primeira impressão: a simplicidade da vila é uma escolha para agradar ao tipo de turista que busca contato com a natureza, mesmo que isso lhe exija aceitar alguns desconfortos.

107Os hotéis da vila têm estrutura de pousada. Como a Águas de Março, onde alguns quartos são distribuídos em desenho semelhante ao de uma ocara e a fachada funciona como galeria de arte, expondo objetos que fazem parte da história da região; nas portas desses quartos, a gerência pendurou quadros com versos da 143música de Tom Jobim; e o frigobar permanece vazio se o próprio hóspede não providencia um conteúdo. Café da manhã? Sim. Almoço e jantar? Não. Mas isso não é problema, porque o povoado oferece algumas boas opções. Entre elas, o Santo Cerrado Risoteria & Café e uma 132pizzaria capitaneada pelo chef que, entre uma e outra fornada, sobe no palco e acompanha as moçoilas no remelexo de um samba ou de qualquer outro ritmo.

Aliás, comer é o que menos faz um aventureiro na Chapada dos Veadeiros. Pelo menos durante o dia. Toma-se, isto sim, muita água. Ela não pode faltar na mochila de quem sobe e desce, às vezes engatinhando, as trilhas de acesso às cachoeiras – são mais de 120 -, porque o sol e o ar muito seco nesta época do ano formam uma combinação difícil de suportar. O caminhante sua. Muito. Sauna ao ar livre? É o que parece, embora a temperatura média anual na região não passe de 26 graus, segundo os meteorologistas. Quem olha e vê descobre aqui e acolá uma flor típica do Cerrado – como a Sempre Viva – mostrando que a vida também é uma questão de adaptação, ou de milagre, mas a sombra é raríssima, porque as árvores exibem galhos nus. E nem é preciso dizer que essa secura se reflete no ânimo.

Três roteiros em apenas um dia

Os trajetos que percorremos no primeiro dia somaram 12 quilômetros, começando pela 176trilha rumo ao Vale da Lua, onde a estrutura da recepção é mínima. Suficiente apenas para pagar o ingresso – R$ 20,00 – e anotar nome e idade. Esse cuidado certamente terá utilidade se o dono da propriedade for obrigado a tomar alguma providência de socorro. Ou outra. A partir daí até o vale, onde o formato e aparência das pedras realmente remetem à Lua – mesmo que, como no meu caso, o visitante nunca tenha estado lá e só leve a cabeça cheia de fantasias sobre as crateras lunares –, algumas virtudes se 162fazem necessárias ao astronauta sem nave: paciência, resistência e cautela, mas principalmente humildade para admitir quando as forças capengam e ele precisa, AGORA JÁ, de uma sombra ou de uma árvore – ainda que mirrada – em que possa dar um abraço, trocando energia.

158Finalmente lá. No Vale da Lua. Então o esforço feito vira deslumbramento. Mesmo que a água escorra pouca entre as pedras e forme poços apenas pequenos – insuficientes para um banho – a beleza do lugar é tamanha que o visitante silencia. Quem faz o espetáculo são as pedras. E ele é grandioso. Quem é o autor? De onde veio tudo isso? Da Lua, acreditam muitos. Trabalho longo e persistente da água, explicam os geólogos. Talvez de ambos. É lindo. É misterioso. Reverencio o artista.

180Gostaria de ficar, mas a trilha que leva às quedas de água de Almécegas também está no roteiro da manhã de sábado. O valor do ingresso é mais salgado: R$ 30,00. E lá vamos nós, novamente enfrentando paus e pedras. No meio do caminho, encontramos um personagem em aparente posição de vigília. É um cupinzeiro que alguém, bem inspirado, transformou em totem. Aliás, isso me lembra de que, afora a impressionante formação rochosa, os cupinzeiros são presença constante nas grandes extensões de terra ao longo das rodovias. E chamam a atenção.

191Almécegas é imponente. Embora a água agora não tenha o volume próprio dos meses de chuva, ainda assim é generosa e forma um poço em que pessoas podem nadar enquanto outras lagarteiam sobre as pedras. Tem mais: no alto do paredão tem gente em torno de várias piscinas naturais. É para lá que aponta o menino loirinho enquanto se queixa: “Papi, Ich habe Hunger” (Papai, eu tenho fome). Rápido, o pai pega a mochila, abre o pote que tira dela e alimenta o filho a colheradas. “Du auch?” (tu também?), pergunta à filha. Não, ela só quer trocar a roupa molhada por outra, seca. E ele faz o que a menina pede. A 196mãe? Está na água com uma amiga. E também o marido dessa amiga cuida de suas crianças. Quando todos se reúnem a tagarelice toma conta descrevendo sensações e impressões. Por volta de uma da tarde o grupo familiar deixa o cenário da cachoeira e, subindo a trilha, os pais levam os filhos menores nos ombros. Bonito de ver.

Mas o dia ainda não terminou. Na 209Cachoeira das Loquinhas – também a R$ 20,00 o ingresso – uma família de micos curiosos acompanha a parte inicial da nossa caminhada em direção às várias quedas de água, onde há uma predominância da tranquilidade. O ambiente é propício para casais apaixonados, para alguém contemplativo e para a mulher que, na terceira idade, se diverte com o netinho na “cachoeira da vovó”. A própria trilha antecipa esse clima, porque é confortável se comparada com as demais. Nela, em grande 215parte o visitante segue por um caminho em que paus e pedras foram cobertos por ripas de madeira, formando extensões planas e escadarias.

Mesmo assim o corpo reclama. É hora de voltar à pousada na Vila São Jorge para tomar um banho, jantar e descansar. O dia seguinte vai exigir mais uma dose de muita energia, antecipa a jornalista norte-americana Anna Edgerton, que conhece nosso próximo objetivo e me conta que a “Raizama é dramática”. E, por isso, é sua preferida entre as cachoeiras que já visitou no Planalto Central.

Logo na chegada noto uma diferença em relação às demais: a recepção é muito gentil. José, o administrador, conta que vamos percorrer 1.150 metros na ida e outros 1.150 na volta. Total: 2.300 metros.014 Mais tarde, completada a façanha, ele ri malicioso quando sugiro uma revisão nessas medidas, “porque a distância vencida parece bem maior”. E abana a cabeça, conta que acaba de visitar a queda de água Pajé, mas admite que o caminho de retorno talvez precise de uma reavaliação.

Ouvindo a conversa, Ilê apenas sorri. Índio da tribo Terere, “que vive na fronteira da 017Bolívia com o Brasil”, ele vende seu artesanato – “tudo fabricado por mim” – atrás do palco em que João, filho de José, promove seus espetáculos dedicados ao rock para públicos vindos de todos os cantos do país e até de fora. A troca de ideias vai indo bem, mas é interrompida por Diego, que anuncia a chegada de um “lagarto” à procura de comida.

020Não, explica Ilê. “Este é um 023camaleão do Cerrado”. O artesão observa as reações do “remanescente de dinossauro” que, segundo conta, é muito arisco e costuma fugir rapidamente ao menor sinal do que possa interpretar como ameaça. Pelo jeito não é o caso agora, porque o camaleão fica ali, comendo e posando para a máquina fotográfica. Só depois vai embora, sempre calmo, e nos presenteia com um amplo bocejo antes de sumir no meio das pedras.

006003Mas a Raizama é mesmo tão “dramática”? Sim, Anna tem razão. No entanto, vi drama também no acesso em que o visitante se vê entre precipício e rocha; subindo e descendo escadas em que os degraus são absolutamente inseguros. O risco de escorregar exige permanente atenção – José nos alertou sobre isso -, porque um pé em falso pode ter consequências sérias. E sem possibilidade de socorro imediato.

Aliás, o socorro é difícil em qualquer uma das trilhas percorridas. Inclusive na última desse programa de final de semana, na Cachoeira dos Cristais. Ali, o preço de entrada é de apenas R$ 10,00, embora a estrutura seja bem maior que nas demais, incluindo camping, bar para lanches rápidos e espaço para o que se pode definir como piquenique. Afora isso, a trilha começa na primeira queda de água e vai descendo. No caminho estão: a Da Paz, a Paraíso e outras. A última e mais importante é a Véu de Noiva.

Fácil? Muito. Como diz o 047provérbio, “para baixo todo santo ajuda”. Duro é voltar ao topo. Lá pelas tantas, sem uma árvore ou um arbusto que pudesse abraçar, o único jeito de seguir adiante foi engatinhar. Fiz exatamente isso. E vi outros fazendo.028

Valeu a pena tanto esforço? Tanto, que estou me preparando para a próxima aventura em Goiás. Mas agora já sei que as distâncias nem sempre são aquelas que vemos ou gostaríamos de percorrer para chegar a nossos objetivos. São aquelas que percebemos quando metemos os pés na água e eles não encontram o fundo.

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