As alianças têm preço

 

Hoje terminei a leitura do livro Numero Zero, em que o escritor italiano Umberto Eco tem como tema um projeto de jornal pensado para manipular a informação em prol de interesses particulares e escusos. O resultado deveria intimidar gente influente. O interessante é que, depois de um passeio pelos arquivos – não oficiais – da história italiana, o jornalista Braggadocio é encontrado morto e a criação do jornal é suspensa. Quem o encomendou está com medo.Capa do livro Umberto Eco

Braggadocio teria sido morto por descobrir uma aliança, incluindo a Igreja Católica, de proteção a Mussolini no final da Segunda Guerra Mundial. O Duce não teria sido morto, mas escondido no Vaticano e, depois, levado à Argentina. No final da história, o autor traz o leitor à América do Sul – Copacabana, por exemplo. “Tesoro, cercheremo un paese dove non ci siano segreti e tutto si svolga ala luce del sole …sono paesi  senza misteri”. Por que não? Como em programa apresentado pela BBC sobre a trama de proteção a Mussolini, também nestes países o criminoso vira delator que fala como se esperasse uma medalha.

Fechei o livro e fiz um passeio pelo meu próprio arquivo. E lá topei com um texto que publiquei no Jornal do Comércio quando lá coordenava a Editoria de Cultura e recupero neste blog, com pequenas adaptações ao momento. O que via então na política brasileira já me incomodava, mas de lá para cá a situação só piorou. O PT de Lula fez alianças que não deveria ter feito. Pagou o preço para chegar ao poder e continuar nele. Alto demais, como se vê agora.

O inço e a grama

No final do ano em que Lula foi eleito para a presidência do País, eu estava fazendo um curso no sul da Alemanha. O loiro Brian, aluno de uma das tantas faculdades de Economia que existem nos Estados Unidos, era um dos meus colegas. Assim que fomos apresentados em sala de aula, a primeira observação que ele me fez foi esta: “Meus professores dizem que o governo brasileiro joga dinheiro pela janela”.

No governo estava Fernando Henrique Cardoso e uma das coisas que me desagrada nele é que sua péssima dicção, como se levasse uma batata quente na boca, me desconcentra. Não consigo ouvi-lo até o fim. Apesar disso, o norte-americano mexeu com meus brios patrióticos e tive vontade de jogá-lo sobre o campo coberto pela neve, através da janela. Em vez disso, respirei fundo. E me controlei. Jurei aos meus botões que lhe daria uma resposta bem pensada quando o tema fosse a prontidão do país dele, armado até os dentes, para ocupar territórios alheios. Mas, antes disso, Lula tomou posse. E Brian fez uma segunda observação. “Vai apanhar muito”, disse. Dessa vez concordei com ele.

Só não imaginei, naquele momento, que Lula se deixaria consumir tanto por uma oposição que continua varrendo os próprios pecados para debaixo do tapete, como Geraldo Alckmin fez em São Paulo no caso Nossa Caixa. Mas também é verdade que Lula não estava somente – como Dilma agora – no prato dos contrários. Dentro do próprio Partido dos Trabalhadores e do governo há gente se comportando como inimigo. Ângela Guadagnin, por exemplo. Por mais que se possa entender a atitude dela diante da absolvição de um colega como de absoluta coerência com o clima de pobreza intelectual e de espírito em que a Câmara dos Deputados está mergulhada, ainda assim seu bailado foi um estupor. A reação dela às críticas que recebeu então – “me perseguem porque sou gorda e não pinto os cabelos” – é ridícula. A essa altura, estou curiosa sobre os critérios usados na filiação.

Nunca tive partido. Já votei em Collares. Já votei em Simon. E votei em Lula. Se não tivesse votado nele, teria ficado sem candidato, porque sei demais sobre os que estão na oposição para acreditar que pensam na felicidade geral da Nação. Sei tanto, que não votaria, em hipótese alguma, em qualquer um deles. Sei das CPIs que já conseguiram e ainda conseguem impedir. Portanto, sei que deturpam a verdade quando pretendem jogar no colo de Lula a corrupção que hoje denunciam com tanto alarde, como se fosse criação dele espraiada por Dilma. Mas trago na memória um dos tantos conselhos de meu pai diante do gramado que havia em torno de nossa casa. Ele dizia: “O inço tem que ser tirado delicadamente, com uma faca, para não matar a grama”.

Há muito inço na política brasileira? Há. Então vamos tirá-lo sem destruir o gramado. Há muita erva daninha no governo? Há. Então vamos acabar com ela, mas sem negar o que há de bom nele. Oposição cega, que nega medidas positivas como o pagamento da dívida com o FMI e a importância do investimento que o governo faz em tecnologia quando apoiou, por exemplo, a viagem espacial de Pontes, é burrice. Mais do que de uma oposição maquiavélica, o Brasil precisa de uma oposição inteligente, que arranca o inço respeitando a grama.

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